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mudanças de humor

por M.J., em 14.08.18

se há alguma coisa que a gravidez me trouxe em abundância - além das náuseas e dos vómitos - foram as súbitas explosões de humor, completamente desproporcionais e disparatadas.

 

sou menina para desatar a chorar com uma vaga de saudades incontroláveis da mamã depois de ter passado uma hora ao telefone com ela.

ou sentir-me absolutamente culpada, um aperto no peito, uma angústia desmedida, por aquela palavra azeda que lancei ao rapaz e que não tinha razão de ser.

ou totalmente impaciente por um café que demora a ser servido mais do que dois minutos.

ou com laivos de compreensão desmedida quando alguém me pede desculpa por uma qualquer parvoíce e é como se o mundo fosse todo só coisas brilhantes e bonitas.

 

passo do choro desesperante ao riso com a mesma rapidez que um fogo florestal engole dois eucaliptos.

é absurdo.

e, um dia destes, passei-me tanto com o rapaz que se atrasou para um compromisso, que senti que era capaz de fazer como aquele piloto que roubou um avião comercial e pôs-se a voar com ele sem saber como o aterrar, despenhando-se uma hora depois. 

 

vagueio entre sentimentos assolapados de amor, compreensão, tolerância, a vida é bela, nada podia ter corrido melhor nos meus dias, para puta que pariu isto, mas por que motivo não me atirei da ponte naquele dia, é evidente que ninguém sofre mais do que eu no mundo inteiro. incluindo os empregados do trump que lhe têm de lavar as cuecas.

 

estou farta disto.

mas até que se aguenta muito bem.

só que não, foda-se.

no maioria do tempo, sim.

 

percebem o que quero dizer?

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sobe-me o sangue ao nariz quando me dizem que, no que diz respeito a incêndios, nada se aprendeu do ano passado para este e a tragédia foi a mesma.

 

certo.

que o nosso primeiro ministro tem uma ligeira dificuldade em ser confrontado pelo pessoal mais humilde e que, nessas alturas, tem a diplomacia de uma cebola a ser cortada para o refogado... concordo.

que arderam demasiadas coisas, demasiados hectares e que mais uma vez o português está a pagar pelas suas ações (suas, do vizinho, do familiar, do estado, do filho, do amigo e do outro português) também concordo.

que dizer que este combate ao incêndio foi um sucesso é sobranceiro e pouco demonstrador de empatia... não podia estar mais de acordo.

 

agora dizer que não se aprendeu nada e nada se fez de diferente... é ridículo e mostra bem quanto, nós portugueses, adoramos queixar-nos e ver o copo pelo lado sujo e vazio.

 

o que é que aconteceu de diferente do ano passado?

cem vidas a mais!

menos cem túmulos.

menos cem familias destruídas.

 

saberão os iluminados da desgraça o que são cem vidas?

viram por acaso a quantidade de famílias que desaparecem no meio do fogo, no ano passado?

gente que morreu, que desapareceu para sempre, em sofrimento horrível?

 

no ano passado morreram pessoas na região onde nasci. 

queimaram-se árvores, casas, terrenos, bens. e adivinhem? as árvores estão a ser replantadas, as casas reconstruidas, os bens readquiridos com apoio do estado.

acham, por acaso, que se ressuscitaram as pessoas que morreram?

 

não morreu ninguém.

e ainda assim há dois ou três iluminados, dois ou três atrasados, que mesmo não tendo vivido o inferno do fogo, condenam a ação da GNR de retirar pessoas de casa e dos sítios do perigo.

meus senhores, que quem lá viva não queira sair no momento, dominado pela aflição e o medo da perda, entendo.

que quem está com o cu na praia, na esplanada, no sofá e nunca tenha sentido o fogo na pele, ache que houve força excessiva e que mais valia cada um fazer o que queria... vá dar uma voltinha ao bilhar redondo, ao bilhar apertado e a outros bilhares.

 

bastava ter morrido uma pessoa e este incêndio tinha sido infinitamente mais trágico. 

só uma.

 

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medo

por M.J., em 10.08.18

não foi uma, nem duas, nem só três noites que passei em claro, a olhar o teto, convencidíssima que ia/vou morrer no parto, numa posição de fragilidade, escarrapachada que nem um frango do campo, para sempre de olhinho fechado, a vida acabada a tentar pôr outra no mundo.

esta ideia, inicialmente apenas uma coisa sem nexo, reflexos de um medo do desconhecido, tornou-se real com o avançar da coisa e as hormonas em constante ebulição. deixou de ser um "e se?" para "vai acontece, e depois?"

 

não por mim.

dou pouca importância a quem sou e esse sentimento não alterou um milímetro desde que me conheço.

considero que respirar, continuar, prosseguir, estar por estas bandas tem a importância de um grão minúsculo de areia e eu, enquanto eu, só existo enquanto existir, não havendo, por mim e para mim, mal nenhum quando isso deixar de ser real.

o medo não era por mim.

juro pela bíblia.

 

se não conseguia parar de bater nessa tecla era por ele.

e durante horas ininterruptas, a madrugada a abrir na rua, os primeiros raios de sol a despontar, a vida numa renovação matinal, o meu cérebro andava em círculos, correndo que nem maluco até ao ponto de partida, numa angústia cortante e aguda.

 

quem irá fazê-lo rir das pequenas coisas dos dias?

quem irá lembrá-lo de não trabalhar toda a noite?

quem irá colocar-lhe doces na marmita para dias de trabalho mais chatos?

quem irá recordá-lo das datas de aniversário?

quem irá tratar das burocracias que ele detesta?

quem irá comprar-lhe pequenas coisas que faltam para que não tenha de se preocupar com isso?

quem irá chamar-lhe a atenção para os botões da camisa que às vezes se descosem?

quem irá assistir com ele star trek chamando a atenção para as incoerências da série?

quem irá dar-lhe pijamas no dia de natal e colocar chocolates na árvore, que finjo proibir de comer e ele finge retirar?

quem irá esticar os lençóis com muita força para que as dobras não lhe marquem a pele?

quem irá amá-lo desta forma?

quem irá ajudá-lo a criar uma criança sozinho, as roupas, a comida, o sono, o choro, as birras?

 

tentava cortar o circulo vicioso da angústia.

sentia-o dormir do meu lado, a tranquilidade do sonos dos justos, as lágrimas a molharem-me a almofada, uma sensação de medo doentio colado à pele e o medo, por ele, era tão palpável que o podia agarrar, apertar e ser dominada por aquele pedaço concreto de angústia, incapaz de o fazer sumir debaixo da cama ou queimado pelo sol da manhã.

 

um dia falei disso à médica.

não expliquei o lamechismo dos medos pelo outro. falei só da sensação de agoiro, da possibilidade de deixar de ser naquela hora.

e como isso era real nos últimos dias.

não se riu.

não disse que era um receio tão ridículo como a minha presunção de que ele precisa de mim para prosseguir. 

não assumiu um paternalismo desmesurado ou aligeirou a coisa com palavras de nada.

colocou apenas, em cima da mesa, as estatísticas da morte no parto, em mulheres saudáveis, neste país, que prossigam os cuidados médicos recomendados. 

e o medo acalmou-se.

 

há uns dias atrás, quando acabávamos de jantar, murmurei-lhe em jeito de confidência, no receio das palavras:

"tenho algum medo de morrer no parto."

e ele, os olhos a brilhar, um sorriso travesso:

"não tenhas. provavelmente vais mesmo desejar morrer quando passares noites inteiras sem dormir porque o puto não para de chorar".

 

desatei à gargalhada.

o medo esfumou-se.

não é ele que precisa de mim:

sou eu que preciso dele para não me consumir das trevas de que sou feita.

 

 

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mães de portugal e do mundo

por M.J., em 09.08.18

vinde cá ajudar-me, por favor, que eu agradeço!

 

depois de descobrimos com certezas que o rapaz que aí vem é mesmo rapaz, com a devida fotografia da genitália a confirmar, a mamã perdeu o controlo e comprou roupa atrás de roupa, meias, fatos, fraldas, gorros, mantas, toalhas e mais meia loja se eu tivesse deixado.

na maternidade entregaram-me uma listinha muito catita do enxoval a levar para o dia da sangria (do corte; do parto, vá, porra, que me fugiu o termo certo). e incluíram nas recomendações lavar a roupa da criança (que está a dançar salsa, neste momento, no meu útero) com um detergente de PH neutro.

e é aqui que me surge a dúvida:

 

é preciso mesmo esta coisada do ph neutro ou é daquelas recomendações bonitas mas que, em boa verdade, só servem para nos dar o dobro do trabalho?

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pronto, é macho

por M.J., em 08.08.18

e há a foto de uma pila (para mim são manchas, a médica da maternidade jura que não) a comprovar.

se fosse a vocês ia seguindo o meu instagram:

 

tem novidades frescas e tags com nomes giros: #projetoaltino deve ser a única que se refere a este bebé.

 

(não, não se vai chamar altino. ou alcino. ou arlindo.).

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sempre odiei o verão

por M.J., em 06.08.18

sempre odiei o calor, as férias enormes onde não se fazia nada na serra, o transpirar a jorro, os dias intermináveis, a aldeia que assava no sopé da serra, a sensação de que a minha vida era ainda mais pequenina do que toda as outras vistas na tv, a certeza de inutilidade por não haver coisas para estudar, os livros que escasseavam longe da biblioteca da escola, os homens que bebiam mais do que a conta embalados pelo calor, o medo da incerteza.

sempre odiei o verão e isso não se alterou grande coisa ao longo dos anos, mesmo que possamos tirar férias nessa altura, não viva mais na serra, tenha a oportunidade de sair e o trabalho seja tanto que não há possibilidade de me sentir inútil.

mas o que detesto mesmo é o calor.

a sensação de suor constante na pele, a moleza do corpo, o sol abrasador a queimar tudo, a ideia de que é preciso fugir para uma praia ou piscina, os legumes da horta da mamã queimados do sol de quarenta e muitos graus, os incêndios a atropelar a vida, a destruir sonhos e a matar pessoas. as noites tão quentes que seja na rua, seja em casa não se consegue dormir, o apelo de compra de ares condicionados, a conta da energia elétrica com vários dígitos, a porcaria dos dias que triplicam o tempo das horas. detesto sol abrasador. não percebo o convite das esplanadas em dias de trinta e muitos graus, as pessoas na hora de almoço escarrapachadas na praia, já com sal e tudo à espera de ficarem bem cozidas para o almoço.

 

detesto o calor. sempre detestei.

mas se há ano em que o meu ódio é profundo, em que que passo os dias a rogar pragas é este.

o ano em que o meu corpo não é só meu e, também por isso, o calor sente-se em dobro, o mau estar é constante e o mau feitio, a má disposição torna-se tão grande que fico incapaz de conviver, não estou bem em lado nenhum e era menina de dar dois pares de estalos em cada pessoa que me dissesse:

mas é o tempo dele.

 

que consumição. 

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amamentação

por M.J., em 03.08.18

a dança da gravidez e as constantes alterações hormonais fazem-me, algumas vezes, dizer isto hoje e amanhã aquilo.

depois do choque inicial (anda por aqui escrito em algum lado o relato do assunto) tenho vindo a alterar ideias e o que pensava há vinte minutos não é bem o que penso neste segundo.

 

 

que altero os meus padrões e as minhas convicções não é novidade (basta ver o desenvolvimento deste blog) mas nunca me aconteceu desta forma tão rápida.

 

posto isto, o assunto hoje é amamentação.

e as minhas ideias - hoje - não vão de encontro ao que a maioria (ou quase toda a gente) apregoa: sempre achei que não iria, de todo, absolutamente de todo, amamentar.

jamais vi beleza no ato e sempre que assisti de perto ao desenrolar da coisa (com amigas ou familiares) fiquei chocada q.b. com o sacar da mama para fora e escarrapachar lá uma boca, alimentando alguém com um liquido produzido por mim.

a cena afigurava-se-me quase dantesca e, juro, totalmente atroz. 

e se para vocemecês é muito bonito, ainda bem, fico feliz. 

 

na verdade, estou-me ligeiramente a borrifar se alguém amamenta em público (cada um é livre de fazer o que quiser, incluindo andar de mama ao léu mesmo sem amamentar, só por gosto - são só mamas, pelo amor de deus); se passa o dia inteiro sentada a fazer do mamilo esquerdo ( ou direito) chupeta ou se assume que é a coisa mais maravilhosa do mundo.

são opiniões, decisões próprias e respeito-as.

mas sinto que quem pensa o contrário (e não quer nada disso) é visto como a escumalha das mães, a irresponsável egoísta e a desgraçada que devia ter as trompas laqueadas porque não o quer fazer.

são dois pesos duas medidas: a mãe é que sabe o que é melhor desde que seja aquilo que essa mesma mãe pensa.

temos pena: comigo não pega.

 

por isso, quando fiquei grávida não foi espanto para ninguém o meu aviso, desde o início, de que não iria amamentar. as mamas são minhas. o corpo é meu. eu é que decido. 

ninguém tentou contrariar-me (na verdade, naquele estado inicial era impossível alguém dirigir-me sequer a palavra). a mamã ainda tentou, um dia, dizer que devia ponderar melhor, mas perante o meu ar calou-se com o assunto e decidiu que o melhor mesmo era esperar e ver no que dava.

a ideia era tão constante no meu cérebro que, a par com o medo de morrer no parto (realíssimo de tal modo que passei noites inteiras - já disse que aqueles 3 meses foram horríveis de todas as maneiras? - a chorar, convencidíssima que ia morrer a parir - hei-de falar sobre isto) se tornou uma obsessão.

fazendo uma pesquisa na internet não encontrei ninguém (NINGUÉM), nem um único relato de mães ou grávidas que sentissem o mesmo que eu:

só existem pregões a incentivar a beleza, a maravilha, o fantástico de ter um ser a comer nas nossas mamas.

só existem avisos, alertas, frases feitas de que sim, é obrigatório, imperativo, essencial dar de mamar e ai de quem fizer o contrário.

 

das duas uma: ou sou a única (e pode bem acontecer) ou, quem sente o que eu sinto recusa-se a falar sobre isso, no medo das criticas. 

 

vi de tudo:

  • comissões de proteção de menores chamadas aos hospitais por mães se recusarem a amamentar;
  • centenas de gritos de que deve-se tentar a amamentação mesmo que doa, custe ou seja difícil porque isso é o mais importante; e até...
  • blogs de maternidade, que apregoam que as mães devem ser felizes, contentes e sorridentes, desde que o feliz, contente e sorridente inclua a amamentação. se não fores amamentar bem que te podes lixar e ser infeliz, triste e chorosa: amamentas e calas-te.  

resultado: quanto mais lia nesse sentido mais do contra me sentia: não. jamais. aqui não.

 

e as vozes todas:

mas isso é o melhor para a criança e estás a ser egoísta,

e eu a responder,

pois claro, o melhor para as crianças também é nascer num casamento em que os pais se respeitem e gostava de saber a média desses;

ou o melhor para a criança não é nascer numa casa em que se passa meio mês à espera do final do mês porque o dinheiro mal chega para as despesas básicas e o que há mais por aí é isso;

o melhor para a criança seria que os pais não os levassem à praia ao meio dia em tardes de quarenta graus à sombra e basta ver a quantidade deles;

o melhor para a criança era ter pais dispostos a comprar todas as vacinas recomendadas (mesmo as não comparticipadas) pelos médicos e há deles que mesmo que fossem vender certas partes do corpo não tinham massa para as comprar. 

o melhor para a criança era ter pais que impusessem limites e não os ensinassem a ser pequenos ditadores e há deles que até acham que faz sentido pedir a um recém nascido autorização para lhes mudar os cueiros cagados.

enfim, o melhor para a criança, acredito eu, é aquilo que resultar para ela e para quem cuida dela. e este mantra ninguém mo tira e (não) temos peninha.

 

a coisa angustiou-me a pontos de um dia, na consulta com a minha médica, desatar em prantos.

lembrava-me de uma familiar que mesmo com os mamilos rachados, cheiinhos de sangue, viu as enfermeiras na maternidade (logo no dia a seguir ao parto) insistirem, numa espécie de bate o pé e é assim e é, a moça ainda meia traumatizada do parto, e elas constantemente a insistir para ela enfiasse o mamilo na garganta do puto, mesmo que aquilo lhe provocasse dores atrozes.

ou de relatos de mastites, leite empedrado, sangue a escorrer e as sete pragas do inferno concentradas nas mamas.

e eu em prantos, soluços mesmo, a tentar explicar à médica que não queria, mas que sentia uma pressão enorme para isso e que só me apetecia cortar as duas mamas e acabar-se a história. e quanto mais chorava mais a médica me tentava acalmar até eu descobrir (como já devia saber) que aquela não é das fundamentalistas e que me arranjou ali mil alternativas, me descansou quanto à minha convicção e repetiu o meu mantra: não resultará para a criança se a amamentação me causar a mim, enquanto mãe, tal sofrimento. seja físico, seja psicológico. 

 

pronto.

foi nessa altura que me tiraram todos os quilos que tenho a mais de cima dos ombros.

ela entendia.

aquela médica entendia e estava disposta não só a respeitar a minha decisão, como a ajudar-me nesse sentido.

 

resultado: hoje pondero na amamentação cruzada (será assim que se diz?). ou seja, meio, meio:

as minhas mamas serão um frigorífico a meio tempo. o outro meio será responsabilidade do paizinho que, munido de dois biberons (ou três, nisso podemos esbanjar) terá o mesmo direito e dever que eu de alimentar a cria.

 

um dia - juro que é verdade - fui à maternidade visitar uma recém mamã que ainda estava meia zonza da anestesia da cesariana (a coisa complicou um nadita no parto normal) e vi o marido - e pai da criança - quase aos gritos a dizer-lhe para tirar a mama para fora que o puto estava a chorar de fome e era responsabilidade dela estar sempre prontinha e apta, mesmo que estivesse na cagadeira. 

se aquilo tivesse acontecido comigo ia pai da criança, criança e as minhas mamas, todos juntos, tirar leitinho de uma cabra que não eu. 

é que só faltava.

 

então e o que te fez mudar de ideias, m.j., quanto ao assunto de amamentar?

não sei.

não foi de certeza as mil frases escritas por todo o lado a apregoar, incentivar (diria praticamente obrigar) a coisa (na verdade isso só me motivou ao contrário). tenho antes a sensação que foi o lado prático da questão (ter ali leite sempre à mão e não ter de andar para trás e para frente a misturar pó e água) aliado à minha veia sovina de vinte euros por uma lata de leite que dura uma semana. 

para já estamos neste ponto. daqui a 4 meses logo falamos.

 

mas repito e que seja ponto assente:

estou disposta a dar o melhor que tenho (e não tenho) para esta criança com algumas restrições: sem nenhum fatalismo, fundamentalismo ou coisa e tal. se me provocar sofrimento que pode ser evitado, evitado será.

 

podes crer meu filho: isto entre nós vai ser uma parceria. no entanto, quando não chegarmos a consenso... lamento mas quem manda sou eu. 

 

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tobias

por M.J., em 01.08.18

um dia destes o rapaz encontrou um louva a deus num dos vasos da varanda.

anoitecia, eu estava a acabar o jantar e ouvi-o da varanda a chamar-me muito entusiasmado por qualquer coisa estranha. baixei o lume ao tacho e lá fui na curiosidade do quê que seria agora:

o louva a deus.

o entusiasmo do rapaz era tão grande como se ali estivesse um cão de raça ou um búfalo domesticado. mas era só um louva a deus, quieto, verde, com ar estranho a olhar (acho eu, também podia estar a dormir, percebo tanto daquilo como de motores automóveis) para as flores do vaso. 

louva-a-deus-1.jpg

 

depois de jantar foi novamente à varanda na procura do bicho. 

ainda cá está, disse-me entusiasmado, com ar de criança. 

e estava.

por momentos fiquei a observá-lo naquela excitação.

estava escuro, a luz da varanda acesa, os cedros erguidos na quietude da noite, a cadeira da varanda vazia e ele ali, com a excitação de um garoto pequeno que descobriu um tesouro.

creio que foi nessa altura que pus a mão à barriga e percebi um pouco mais do milagre que me espera.

sou eu a dar vida, a alimentar e a fazer crescer em mim um pedaço daquela excitação e entusiasmo.

sou eu enquanto corpo e alma a transformar do nada, dentro de mim, metade desta pessoa que me faz ser na vida como sou.

 

 

no dia a seguir, quando chegou a casa foi ao vaso na procura do louva a deus.

imaginei um miúdo a chegar da escola e correr ao encontro do tesouro preferido. os mesmos olhos, o mesmo ar concentrado, a seriedade nas pequenas coisas e a excitação pelo inesperado.

acreditas que ainda lá está? perguntou-me.

e eu, sem o mínimo de romantismo:

tens a certeza que não está morto?

o bom e o mau, o chato e o querido, o realista e o sonhador, duas partes a fazer crescer para a vida uma outra.

tá nada, que se mexeu.

provavelmente precisa de cuidados paliativos, murmurei entre dentes.

e ele,

o tobias está em casa.

assim, um nome ao louva a deus.

 

hoje de manhã fui ao vaso na curiosidade de saber do tobias perante o sol abrasador que se ameaça.

desapareceu.

se não regressa logo à noite quero ver quem lhe vai dar a notícia. 

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banalidades

por M.J., em 31.07.18

é engraçado o tempo. 

num dia temos vinte e poucos anos, somos jovens e a vida estende-se com todo o tempo possível numa espécie de caminho sem curvas, há um vento fresco com cheiro a maresia a revolver-nos os cabelos, promessas de juventude eterna, dias longos e novos e, noutro dia, quase sem darmos por isso, estamos sentados a desfiar memórias, como se a vida nos tivesse fugido pelas mãos e quem fôramos não é quem somos.

 

o regresso a casa, na casa nova que estamos a comprar, em burocracias e pequenas coisas, foi - como são todas as mudanças na minha vida - e está a ser um processo complicado de adaptação.

as hormonas não ajudam e há um pequeno nervosismo à flor da pele.

às vezes vou à varanda aqui de casa ver a lua ou as flores ou simplesmente ouvir o silêncio da noite cortado pelas cigarras e os grilos e penso se não terá sido esta a minha verdadeira casa, a dos dias serenos, a do vento a bater nos cedros, a do canto das rolas, a do recomeço mesmo que não haja recomeços.

 

o medo de arriscar, sempre presente em mim como uma espécie de tatuagem é tão forte que não dormi no dia em que fomos assinar o contrato promessa.

era sábado e saímos daqui cedo.

tremiam-me as pernas e os braços.

uma infinidade de dúvidas.

os permanentes e "e ses".

entrámos na cidade: está diferente e igual ao dia em que a deixamos.

não apreciei as gaivotas, o azul do céu ou o amanhecer tranquilo. o medo. as saudades de uma casa de onde ainda não saí. as inseguranças do amanhã. tudo junto misturado com hormonas, a sensação de fracasso ainda que, sejamos francos, fosse sábado de manhã e não houvesse nada a fracassar. é o começo. o recomeço ou a continuidade da vida como a fazemos.

 

quando saí do carro cheirava a mar e havia vento. 

o meu vento.

um vento fresco que revolvia os cabelos, batia nas folhas das árvores e trazia com ele o mesmo impacto que me trouxe há cerca de nove anos atrás quando cheguei sozinha pela primeira vez aquela cidade pronta para começar a vida como a tinha imaginado.

o mesmo vento que me acompanhou nas noites mais incertas, perto do mar em turbilhão de certezas de fim.

o mesmo vento que batia nas ramagens das árvores em frente à janela da sala onde demos o primeiro beijo.

 

o mesmo vento que, não falando, me dava as boas vindas a casa e me fazia lembrar daqueles dias em que, muito pequena, na escola primária, corria pelo recreio de braços abertos, o começo do outono e a sensação de ser empurrada em frente mesmo que, já nessa altura, sentisse um peso que me impelia a permanecer com medo.

parece-me que é desta que vou regressar a casa.

que vamos.

afinal, por estes dias, sou dois.

 

 

é uma coisa engraçada esta coisa do tempo.

ainda ontem tinha a vida toda por escrever, a juventude eterna pela frente e estou hoje a viver o que nunca fui capaz de sonhar nos dias em que o tempo se desfolhava à minha frente. 

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publicado às 11:12

tacho

por M.J., em 30.07.18

podemos dizer o seguinte: as minhas unham crescem ao contrário sempre que ouço a catarina martins falar.

aliás, posso assegurar que uma das melhores coisas da geringonça foi esta paz ao longo dos últimos anos, sem a voz esganiçada da mulher a pedir justiça, demissões, igualdade e todas essas tretas que pôs de lado quando o tacho lhe foi estendido.

provavelmente a culpa é minha mas preciso de mudar de canal sempre que a senhora aparece (e creio que a minha cria vai no mesmo caminho, que há dias, posso jurar, a senti mexer com intensidade quando a mulher falou dois minutos numa reportagem ao jantar).

 

ponto assente este acho, no entanto, ridícula a demissão do robles (que vamos convir, tem mais ar de menino bem cds do que bloquista) quando não cometendo nenhum ato ilícito foi vítima - somente - desta silly season onde não há incêndios, mortes ou bruno de carvalho para captar a atenção.

é que meus senhores, sejamos francos: se todos os políticos vítimas de incoerência tivessem que se demitir... sobrava algum? desde o mais alto cargo ao presidente da junta de freguesia do cu de judas mais velho?

pois claro que não!

 

o tacho chega para todos.

sejam amiguinhos, vá. 

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