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sabem aqueles defeitos mesmo maus

por M.J., em 25.07.17

aqueles feios, que nem sempre confessamos aos outros e recusamo a assumir a nós próprios, na ideia de que não, não somos assim?

qual o vosso?

 

 

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banalidades

por M.J., em 24.07.17

tive uma crise de choro, um dia destes, enquanto ouvia uma música aleatória das centenas de bandas sonoras que passam pelas colunas, todos os dias, enquanto matraqueio as teclas.

foi assim num rompante.

estava tudo normal, um dia claro, o som tranquilizante dos vizinhos ao lado, a correria de um dos cães na rua em baixo, a janela aberta com duas folhas de orquídea a entrar junto à parede e, quando dei conta, estava a chorar descontroladamente, um rio de lágrimas em marcha até ao chão.

uma dor cega.

um baque surdo.

um desespero sentido. 

 

fiquei prostrada, a cabeça em cima dos braços, o teclado atirado para um canto. não havia nada: nem sol, nem luz, nem continuidade, nem esperança, nem eu ou alguém. só um sentimento atroz de escuridão que me podia consumir.

sentia, naquele instante, que podia ser engolida e desaparecer num fundo negro de escuridão, ali, a música, o cão, os vizinhos, a orquídea e a janela.

 

lembrei-me nessa altura da minha prima porque me lembro das pessoas também em função das épocas em que vivemos.

no verão era assim: eu saía de casa antes das seis (ou seria sete?), subia a rua, entrava pelo portão, subia as escadas e chamava por ela na porta da cozinha. mais velha do que eu três anos ela era - e é - dotada de uma vivacidade que eu nunca tive e uma força de três furacões enraivecidos. qualquer obstáculo era contornado com a ligeireza de quem encontra justificações para o que acontece sem questionar.

ela andava por ali. regava plantas, limpava a casa de uma ponta à outra, combinava saídas, fazia bolos e tinha planos. a energia dela transbordava em cada poro e eu sentia-me sempre pequenital, assoberbada pela gigantesca capacidade dela de ser. 

no quarto dela havia um televisão e dezenas de posters colados nas paredes - a mamã fizera-me arrancar o único que me arriscara a pôr no meu quarto - que vinham nas revistas compradas por duzentos e tal escudos: dos excesso, dos anjos e de bandas do outro lado do mundo que nós cantarolávamos num linguarejar estranho de quem não domina o inglês. nós deitávamo-nos sobre a cama e víamos a novela. não eram os morangos, coisa mais recente ainda que antiga, mas uma brasileira, onde as miúdas eram magras e sofriam de anorexia por serem apelidadas de gordas, andavam numa escola com piscina, tomavam pequenos almoços gigantes e iam a centros comerciais onde eu, com 13 ou 14 anos nunca entrara.

era sempre uma maneira muito boa de acabar as tardes. 

 

lembrei-me da minha prima e das novelas e dos fins de tarde de verão a ver novelas que entretinham a alma e o tempo no meio daquele desespero cego. lembrei-me dela e telefonei-lhe, a sensação de absoluta solidão pelo corpo, o choro compulsivo apenas amainado para que não notasse. 

falou-me dela.

como sempre fazia. contou coisas, momentos, planos e anseios. num relato comprido que me enxugou as lágrimas, me acalmou as dores, me alisou a solidão que sinto colada aos ossos e a perda que não existe mas que parece ser a única coisa de que sou feita. 

 

esta tarde, quando falei com a minha prima, perguntas curtas da minha parte na tentativa gloriosa de a ouvir falar, minutos completos, seguidos, planos e momentos, tive 13 anos outra vez e fui acalmada dos meus anseios pela força com que ela comanda a vida ainda que, em segredo, eu saiba que é a vida que comanda a ela.

 

na maior parte das vezes não preciso de nenhuma palavra de consolo dirigida a quem sou.

preciso apenas de olhar e ouvir o outro, perdendo-me por instantes da minha patética maneira de sentir. 

sou tão ridicula. 

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oh vai ver ali:

um emaranhado de coisitas

por M.J., em 24.07.17

a primeira vez que tive noção do poder das pequenas coisas foi com joanne harris em chocolate, um livro fabuloso, escrito com uma singeleza incrível e que, à semelhança de banalidades incriveis que acontecem no dia a dia, me inspirou.

 

é engraçado porque sempre me foi dado a conhecer o poder das pequenas coisas.

desde criança que a avó me fazia limonada doce em dias mais amargos, me acendia a lareira em dias chuvosos e tristes mesmo que não houvesse frio, me punha a descascar marmelos que enchiam panelas enormes de marmelada a borbulhar, numa alquimia suave.

as recordações mais serenas que tenho passam pelas janelas embaciadas com o calor da cozinha e a chuva a bater nos vidros. a mamã a cozinhar comigo de volta de um livro, junto à lareira. e a casa dos meus pais, que hoje me parece distante e a qual mudaria ao gosto e vontade de quem tem as suas próprias ideias, era na altura, em certos momentos, um mundo intenso de conforto que não se encontrava em mais nada.

 

conheço-me hoje como nunca, apesar de, sinceramente, me conhecer muito pouco.

desconfio sempre de quem sabe muito linearmente quem é, o que quer, de onde vem e para onde vai. das duas uma: ou é dotado de uma imbecilidade idiota que faz não questionar, não pensar, não mudar, não evoluir, não ser integralmente um humano, ou é alguém muito genialmente evoluído que atingiu um patamar de auto conhecimento a que poucos chegam.

nenhuma das duas me fascina. 

mas dizia eu, no que a isto diz respeito, que me conhecendo bastante bem - mesmo não conhecendo nada - aprendi a lidar com todas as coisas que a minha personalidade, vivencias, feitio e doença me transformaram:

consigo antever os meus sinais depressivos dias antes das crises.

consigo perceber o momento em que a única saída passa por umas horas na solidão de um quarto fechado e uma distracção idiota para o cérebro.

consigo perceber as alturas em que nada me tirará de um pessimismo, insegurança, incredulidade, amargura, solidão e tantas outras coisas negras que me povoam a alma como carvões mirrados.

e conseguindo perceber sei quais os antídotos a recorrer ou, quando não consigo remediar, onde ir buscar um pouco do alivio. 

 

é estranho como me sei mesmo não sabendo.

é estranho o poder que certos rituais, certas coisinhas têm naquilo que sou:

o cheiro de um chá a borbulhar no inverno.

um café de cevada, feito muito devagar, depois de uma tarde em que decido fugir ao mundo.

o regar de uma planta.

um quadrado de chocolate, muito amargo, escondido para certos dias.

um livro lido e relido.

uma parvoeira muito parva no tv.

uma cadeira numa esplanada com uma meia de leite a ferver e um pão de centeio torrado.

um novelo de linhas desfeito enrolado novamente.

uma lista de tarefas pendentes muito alinhadas em cores diferentes numa letra escangalhada.

coisinhas tão insignificantes que ninguém daria por elas.

e ainda assim, dotadas de um poder imenso em quem sou.

 

descobri, nos últimos anos, que são as únicas capazes de me tirar de um pequenito abismo e drama doméstico, sem nexo e que a mais ninguém diz respeito.

são as únicas que me podem transformar naquilo que estava destinada a ser, por feito, personalidade, vivências e doença, naquilo que vou sendo. 

essas e amor, mas não é de amor que falo hoje.

 

descobri o meu antídoto, ou pedacitos estanques da minha cura, vá, e isso é um poder imenso para lutar com quem sou.

há muita gente que não o descobre.

e há gente que descobre formas não tão aceites como as minhas. coisas mas negras, mais feias, mais solitárias, mais eternas, mais finitas. 

 

se ninguém aponta o dedo às minhas coisitas, às minhas maneiras de lidar com quem sou porque são tão banais, tão insignificantes, tão triviais, com que direito aponta o dedo às maneiras maiores, mais eternas e mais corajosas que outros encontram?

com que direito se decide que umas são melhores do que outras?

 

tudo isto para uma só conclusão:

se acham que nunca se suicidariam e que encontrariam melhores maneiras de lidar com uma dor intensa parabéns a você.

tenham no entanto presente que isso não vos torna grandes ou melhores pessoas se a única coisa que conseguem sentir, em relação a quem o não conseguiu, é desprezo, apelidando o sofrimento alheio de cobardia. 

torna-vos é muitissimo pequenitos. 

 

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banalidades

por M.J., em 20.07.17

a verdade é que, analisando bem a coisa, é tudo uma questão de perspectiva. 

todas as vezes que passo pelo corredor e me olho no espelho de parede, e vejo como a minha expressão se altera nos dias, ora num mutismo cego, sem nexo, ora numa sensação de leveza e conquista, e analiso as horas e percebo que as as diferenças radicais são meramente emocionais, pedaços de nada, sem nada de importante a não ser  a minha mentalidade, sei que é tudo perspectiva.

sou eu dona de quem sou e não comando minimamente como me sinto.

a mesma chávena de café consegue ter um sabor amargo hoje e doce ontem.

a mesma brisa fresca nos lençóis a secar na varanda é percepcionada de duas formas diferentes e isso é ridículo.

devia sentir em função das vivencias e não vivenciar em função do sentir.

acho eu, mas eu não sei nada.

 

para a merda tudo isto, desabafo, atirando o teclado contra o monitor.

há mil coisinhas a fazer, tanta coisa a aligeirar e deixo morrer os dias no que sinto sem motivo.

observo a rua quando abro a janela do escritório: está fresco, os cedros dançam nos mesmos movimentos desde que cá cheguei vai fazer dois anos, e a manhã morre mansa.

o grande problema, constato, enquanto trinco a borda da chávena de café meio bebido, é que deduzi que estes cedros, aqui em frente, seriam passageiros, uma mera temporada rápida num intervalo da vida de dois anos, não mais.

e é esse o mal das expectativas.

acreditamos em coisas que sabemos, no fundo, serem só mais ou menos mas, ao mesmo tempo, vamos moldando a vida ao que acreditamos. era só passageiro. só um intervalo antes do regresso a casa. estes cedros, esta rua, a senhora maluca dos cães que lhes grita todas as manhãs, as flores roxas do jardim, as ervas daninhas atrás da garagem, as varandas com vista para o nada porque nunca quis que fosse tudo, tudo isso seria passageiro. não interessava dar-lhe grande valor. não interessava pôr fotografias nas paredes, mudar os sofás ou comprar mais plantas. não interessava organizar os livros, alterar tapetes ou pensar noutros candeeiros.

era só passageiro.

era só mais uns dias antes da brisa do mar na face, da casa no bairro do estudantes, no jardim enorme com um banco que era meu, na vizinha da mercearia, ou na árvore que entrava toda sala dentro. 

 

era só passageiro e essa passagem chegaria agora ao fim.

e apesar de não ser promessa ou certo, era certo e promessa nas minhas expectativas.

esta cidade onde vivo hoje não é minha. esta casa não é a minha casa e não há pessoas que me sejam pessoas porque nunca quis que fossem. perdi laços de onde vim e não criei novos onde estou. deixei a sensação de casa perdida e não a encontrei aqui porque era só passageiro.

sou mais pequenina do que sempre fiz crer.

crio amarras e raízes que se entranham na terra e não consigo desligar-me. lá foi o único sítio onde me senti em casa. e essa sensação, talvez exacerbada ao limite, faz-me acreditar que não o sentirei em mais lado nenhum.

nem lá, outra vez, porque já lá não há quem eu era.

 

viver é uma canseira e começo mesmo, mesmo, mesmo a ficar farta disto.  

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oh vai ver ali:

que quem for criticado pela maria vieira está no bom caminho, não é?

 

pobre mulher. 

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cães ou gatos

por M.J., em 19.07.17

justifique a sua opção, por favor.

 

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banalidades

por M.J., em 18.07.17

dormi mal esta noite.

a cama estava quente e o ar abafado. levantei-me às três da manhã e abri, desesperada, todas as janelas da casa, na esperança vã de sentir o ar da noite na pele.

estava escuro e haviam luzes espalhadas na cidade. tive saudades da noite que é noite, das luzes mortas e do sino que vela os sonhos, esperando a hora certa de acordar.

bebi um copo de água. estava morna e haviam dois mosquitos no ar, num zumbido intenso de quem espera um jantar. 

acordei esta manhã cansada, numa noite mal dormida. a empregada telefonou, muito depois da hora de chegar, a avisar que afinal não vinha. tenho mesmo de arranjar outra mas perco a paciência de procurar, tal como perco a paciência de ler, escrever, trabalhar, viver ou dormir.

perco a paciência e não sei se a tive, alguma vez, ou se este desespero de viver, agarrado à minha alma como duas mãos aflitas, faz tão parte mim como o meu braço direito.

 

canso-me que viver é uma canseira apática, de quem procura um significado que não existe, uma sentido que não há, um caminho que não passa, ilusoriamente de nada no meio de nada.

dormi mal esta noite.

tomei o pequeno almoço cansada, em frente a uma das plantas que ele rega quando chega a casa. gosta de cuidar, ele. olha as coisas com amor, pega nas folhas mortas e retira-as, calmamente, numa cirurgia delicada. olha a terra onde estão as raízes e molda-a sabendo que elas irão para onde ele quiser, desde que lhes providencie estrutura. limpa-lhes as folhas, mima as flores mais viçosas. gosta de cuidar, mesmo. às vezes, na hora de jantar olha-me e diz é preciso regar as plantas, regaste as plantas hoje? num sentido de missão e dever. 

nunca as rego. deixei morrer umas quatro ou cinco, na varanda, até ele tomar as rédeas do assunto.

pressinto, às vezes, uma analogia qualquer nisto tudo. 

depois concluo são só plantas e prossigo.

numa canseira.

 

dormi mesmo mal esta noite.

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oh vai ver ali:

vai correr tudo bem, tu sabes

por M.J., em 18.07.17

"Não te deixes derrubar pela insignificância dos pequenos momentos e serás homem para os grandes; se jamais te faltar a coragem para afrontar os dias em que nada se passa, poderás sem receio esperar os tempos em que o mundo se vira"

- Agostinho da Silva, Dos Dias Monótonos, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p.113.

 

nós sabemos. 

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publicado às 10:48

instagram: o tal do carnaval

por M.J., em 17.07.17

o que vos deixo a seguir uma republicação adaptada de uma coisa escrita no início do ano.

é repetição, bem sei, mas faz sentido numa altura em que o instagram é só felicidade: banhos, sol, mar, luz e diversão. 

 

a ideia de que temos de ser sempre felizes, lutando por isso como um ideal quase inatingível, está tão enraizada que não há um dia que não vejamos fotos, frases e textos inspiracionais, com palavras de ordem e aconselhamento do faz melhor, tu consegues, desafia-te, vai à luta. 

 

é dado adquirido e a fórmula é simples:

numa vida cinzenta as pessoas querem ver cor.

querem ver arco-íris e coisas bonitas. querem sentir que lêem, absorvem, conversam, apreendem coisas que as acrescentam, que as levam a caminhar para uma vida melhor.

mesmo que não se saiba muito bem o que é uma vida melhor. 

 

não me compreendam mal.

não vejo nada de errado no facto de nos rodearmos de coisas que nos fazem sentir bem.

o que me causa uma certa comichão nos ouvidos é a ideia de felicidade inatingível que a maioria dos gurus influenciadores transmite. e é mesmo inatingivel, ainda que passem a mensagem como sendo possível a cada um chegar lá.

 é algo que se alimenta a si próprio:

quanto mais inatingível mais deve ser passada a ideia de que todos nós podemos chegar ao estado de constante felicidade orgásmica. e quanto mais este estado for transmitido mais pessoas traz. e quanto mais pessoas trouxer mais inatingível deve ser a ideia. 

 

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os estudos estão feitos e - se formos sinceros - todos nós já passámos por isso:

um dia perfeitamente normal, na nossa vida banal, em que, passeando os dedos pelas redes sociais, sentimos uma ligeira pontada de tristeza porque toda a gente é mais feliz do que nós. ainda que essa felicidade seja só visível através de fotografias e frases.

naquele dia, em que nos levantamos na hora de sempre, tomamos banho na hora normal, comemos mais do mesmo, trabalhamos com as mesmas pessoas, jantamos na mesma hora e sentamo-nos no sofá como habitual a descansar do dia, há ali uma foto, uma frase, uma pessoa que nos faz sentir miseráveis:

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porque aquilo é que é vida!

aquilo é que é ser feliz.

aquilo é que é uma boa cara, bom corpo, bom sítio, boas férias, boas paisagens, boas mobílias, bons filhos.

é tudo, naquelas fotos, absolutamente bom.

maravilhoso. 

completamente acima da nossa pequenita banalidade. 

 e a nossa imaginação tem uma capacidade estrondosa de melhorar ainda mais o que se vê, e piorar o que vive.

 

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o instagram é perito nisso.

há milhares, milhões de fotos de gente feliz. evidentemente que não se espera que por ali circulem fotos de momentos tristes, de mortos, feridos e cafés sujos. ou beatas no chão e cocós de cão.

não é isso.

mas é preciso existir plena consciência de que aquelas fotos não representam - noventa e nove por cento das vezes - a felicidade ou os momentos de absoluta alegria, bem estar, prazer e afins que querem passar. 

aquelas fotos foram escolhidas a dedo.

muitas tiradas em estúdios, ou com verdadeiros profissionais. foram retocadas, alteradas, melhoradas. mesmo aquelas que representam o pequeno almoço de uma pessoa banal, antes de ir para o trabalho, são - evidentemente - filtradas.

são postas a jeito para que transpareçam uma imagem bonita. há toalhas lavadas e a tralha da mesa posta de lado, onde não caiba na objectiva.

 

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não tem mal nenhum.

aliás, temos todos plena consciência disso ainda que #sóquenão.

porque inconscientemente esquecemo-nos.

porque naquele dia merdoso, naquele dia em que tudo correu mal, elas continuam lá. perfeitas, maravilhosas, a lembrar-nos que podemos ser muito melhores. que podemos fazer muito mais do que fizemos. mesmo que tenhamos feito tudo o que era possível. 

 

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achamos que sabemos esta evidência mas esquecemo-nos.

acreditamos que sim mas não nos lembramos dos verdadeiros influenciadores digitais que, sabendo disto, o usam para seu proveito criando imagens falsas e levando a que pessoas simples se sintam miseráveis. 

(é evidente que é difícil descortinar se a culpa de quem se sente mais triste do que noite é de quem sente isso, por ver imagens de coisas que nunca atingirá, ou de quem as publica, alimentando-se disso mesmo.

creio que será um bacalhau de rabo na boca.)

 

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seja como for, é importante não esquecer:

  • mesmo a pessoa que apregoe ser a mais feliz do mundo, que tenha um cão, um marido, dois filhos e uma casa na praia, que passe férias na tailândia, no méxico, nas caraíbas e nas maldivas, tudo de uma vez só;
  • que tenha um emprego de sonho, sem pressão, sem expectativas e ganhando milhares;
  • que tenha mamas firmes, cu de aço e cara de menina... mesmo essa, nas mil fotos que coloca, perdeu horas a escolher as melhores por entre as que melhorou. chorou no mês passado. sentiu culpa. desânimo. tristeza. e desejou ser outra pessoa num dado momento qualquer.

 

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não há um sentimento de felicidade eterna por mais que as fotos digam o contrário.

e as vidas banais, que se desenrolam nas horas de sempre, no mesmo de sempre, com as pessoas de sempre, e que aparentam ser cinzentas, sem sal, sem cor, sem vida são muitas das vezes mais equilibradas, mais serenas, mais satisfatórias, do que cinquenta fotos de pernas longas, dentes perfeitos e praias paradisíacas.

 

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o instagram é apenas o carnaval das vidas felizes.

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o facebook como publicidade da morte

por M.J., em 14.07.17

a moda das condolências no facebook incomoda-me.

é como um sino que toca no lamento de morte, no aviso da comunidade e toda a gente sai à porta a perguntar o que foi, como foi e de que forma foi. 

é assim mas pior:

partilham-se fotografias do falecido, identificando-o e vão surgindo no mural do mesmo.

se em causa está alguém jovem é pior: de que morreu? pergunta-se nos comentários. tão novo? a vida não vale nada,descansa em paz, as minhas condolências à família, morreu quando? conhecias @fulano? e assim, numa converseta e lamento de palavras escritas que não são bem lamento mas curiosidade mórbida e sensação de fazer algo.

fotos e mais fotos, numa publicidade ao género de eu estive lá, com ele e agora que morreu também estou. 

 

não entendo essa coisa.

não entendo essa necessidade de publicidade, de colocar uma foto que se tenha com o agora corpo identificando-o.

soa-me a "estou aqui e também sou importante". "estou a sofrer tanto como vós". "conheci-o tão bem, olhem a prova". num narcisismo torpe e feio. numa desconsideração por quem parte sem querer. 

morreste mas não és o protagonista da tua morte. 

 

há algum alívio na dor em fazer isso?

partilhar fotografias num mural de facebook de alguém morto demonstra respeito, consideração ou dor?

é empático?

é tributo?

é para quê?

 

juro que não entendo.

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