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boneca

por M.J., em 02.03.18

acordei mais cedo do que o habitual.

a varanda tem galhos secos, folhas verdes caídas (partidas?) das plantas e uma flor da orquídea no chão, morta pelo vento.

tirei um café com a porta (janela?) da varanda aberta. o odor amargo espalhou-se pela cozinha, logo despedaçado pelo vento que entrava a jorros.

bebi-o na varanda, a ver os carros passarem em baixo e a dança das árvores em frente. 

 

quando tinha onze anos tive hepatite a.

uma daquelas doenças que, segundo disse o médico, atacam muito as crianças (ou atacavam?).

a avó receitou, a par dos medicamentos do médico, um chá muito bom, muito conhecido, que fazia milagres. a mamã deu-me os medicamentos e o chá de marroio, que eu vertia num vazo de uma planta, quando ela não estava a olhar, de tão amargo que era.

certo é que a planta ficou viçosa, por isso quem sabe, talvez resultasse.

durante o período da doença fui obrigada a ficar de repouso, na cama, durante um mês.

eu tinha onze anos e entrado no ensino básico fazia muito pouquinho tempo. eram dias de novidade:

o apanhar do autocarro de manhã cedo, o conhecer novas caras, professores e todo um ensino diferente. estava a gostar, sobretudo da biblioteca onde os livros eram imensos, mais do que alguma vez eu tivera à disposição, pelo que aquele confinamento provocou-me uma tristeza imensa.

a par de outras banalidades e tragédias domésticas que não vale a pena dissecar.

 

um dia à tarde, cansada da reclusão, num quarto onde havia uma tv a preto e branco, a única lá de casa levada para o meu quarto pela mamã (a única maneira de mudar de um canal para o outro era rodando um botão no aparelho); a fátima lopes à tarde, na sic, com um programa onde entrevistava pessoas que contavam coisas que eu não percebia; todos os meus livros lidos e relidos até à exaustão; pedi uma boneca à mamã.

nunca fui criança de grande bonecada. tirando a vontade óbvia de cortar o cabelo todo às que me eram oferecidas e questionar-me os motivos que levavam a que não tivessem pipi, nunca achei muita graça. 

naquele dia, porém, apeteceu-me. 

 

na aldeia não havia sítio onde comprar bonecas.

a mamã percorreu todas as lojas: as mercearias onde costumava ir, a loja de lembranças que uma senhora vendia, no centro da aldeia, e até a loja de roupas.

não havia.

não desistindo porém, de concretizar o meu pedido, encontrou uma na loja das lembranças, demasiado cara, de porcelana, com uns cabelos encaracolados e um vestido de veludo com uma gola de renda. era, efectivamente, demasiado cara, num mercado onde a lei da oferta e da procura regia-se pelas necessidades mais básicas, onde não havia olx, chineses ou promoções do continente.

cara como um roubo, no dinheiro que poderia fazer falta.

a mamã, no entanto, comprou a boneca e ofereceu-ma nessa tarde, uma alegria imensa, escondendo o cansaço de percorrer os sítios na procura do brinquedo e o dinheiro a mais gasto.

não era um brinquedo.

servia para estar dentro de uma caixa, fechada, para ser apreciada:

tinha umas pestanas falsas demasiado longas, um cabelo encaracolado demasiado sedoso e um vestido com tanta renda e veludo que lhe dava um ar de opulência decadente.

 

eu estava doente, em reclusão, em confinamento.

lembrava-me da escola, dos meus colegas, da aventura do autocarro.

e ali estava, filha única, fechada num quarto, sem grande entretém.

e quando quisera uma boneca de plástico, a quem pudesse cortar os cabelos e fazer vestidos de panos de louça velhos... era-me oferecido uma boneca de admirar e não de brincar.

disse-o à mamã. não por estas palavras, porque não sabemos explicar o que sentimos desta forma aos onze anos, mas por aquelas que conseguia. 

ela olhou-me.

se sentiu desilusão, tristeza, ingratidão da minha parte, não o demonstrou.

levantou-se, tirou a boneca da caixa, foi à cozinha buscar uma tesoura e dois panos de louça que dispôs em cima da minha cama. trouxe também uma pequena bacia com água e sabonete. e depois, para meu espanto despiu a boneca, mergulhou-a na bacia e cortou-lhe uma madeixa de cabelo.

e brincamos as duas, o resto da tarde, com a desgraçada da boneca pintada na cara com marcadores, o cabelo destruído, envolvida em trapos velhos com maças e bules de chá desenhados. 

 

era uma boneca cara, ali estragada numa tarde para que eu sorrisse.

 

lembrei-me disso de manhã, na varanda, perante a dança das árvores e desatei a chorar.

a medicação deixa-me frágil, no bombardeamento das hormonas.

há um aperto constante na garganta que me consome e inúmeros episódios de outrora circulam-me no cérebro, numa espécie de castigo, em recordações boas e más, que eu julgara extintas. 

fechei a porta (ou janela?), pousei a chávena de café e telefonei à mamã. 

ainda tão cedo que ela julgou que algo acontecera. 

falamos de banalidades, da chuva, do temporal e dos dias. 

e eu só queria agradecer-lhe pela boneca. 

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publicado às 10:25


11 comentários

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De ladykina a 02.03.2018 às 10:54

Mas agradeceste????
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De M.J. a 02.03.2018 às 10:59

não.
há uma tradição da minha parte de ter vergonha de falar de sentimentos.
por isso escrevo-os.

(uma tristeza, eu sei).
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De ladykina a 02.03.2018 às 11:05

Podes sempre introduzir a conversa/ memoria em jeito casual, assim como quem nao quer agradecer... o bastante para a tua mae saber que te lembras. nao? (nao e nenhum conselho, mas gostava mesmo que lhe falasses disto. caramba!!!!)
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De Olivia a 07.03.2018 às 09:32

Certamente uma mãe capaz de tudo o que descreves recebeu o seu agradecimento quando viu a filha a brincar nessa tarde, mesmo que nunca lho digas, ela soube, as mães sabem!

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