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das lágrimas

por M.J., em 03.02.14

Acordei mal humorada esta manhã. Não tanto como na manhã de ontem. Era Domingo, fazia sol e o moço decidiu permanecer na cama, a roncar como se o mundo não corresse vivo lá fora, esquecido de que todos os dias da semana permanecemos fechados dentro de um sala.

Saí e fui tomar o pequeno almoço, na esplanada do lado, com o vento, esse malandro a bater-me no focinho. Emborquei uma tosta mista e um café que me soube mal, empurrada a ferros por entre as lágrimas que se acumularam na garganta e não queriam sair. Não sei se mais alguém sofre desse mal: da dor de querer chorar e não o fazer, até que a garganta dói em ferro, como apertada em mil garras de areia.

Em miuda a minha mãe, que não devia sofrer desse mal mas tinha alguém conhecido que sofria, disse-me mesmo, ao jantar, que uma amiga tinha dito que outra amiga morrera disso: durante tantos anos contera as lágrimas, que elas se acumularam todas na garganta, numa espécie de saco, e a senhora morrera sufocada.

Na altura acreditei e durante muitos anos chorei livremente.

Depois aprendi que não posso chorar, assim, como o vento, sempre que me dá na gana. Não é bem aceite. tenho de parecer dura. Dura no trabalho. Onde é que já se viu uma advogada choramingas? Dura na família para não ouvir "olha a MJ outra vez a chorar", como daquela vez em que fiquei tão doente que me queriam internar e a minha doce e maravilhosa família do lado do papá disse que eu só queria chamar a atenção (era exactamente o oposto. Queria morrer sem dar muito nas vistas).

Adiante, que isto das palavras são, como já dizia alguém, como as cerejas e perco-me nas virgulas. Não posso chorar assim, em frente ao namorado que já me atura as birras, à má disposição, os roncos e a celulite. Não posso chorar mesmo, livremente, na pastelaria onde emborco as tostas mistas, que uma gorda a chorar, com o cabelo desgrenhado não origina simpatia, mas um sentimento de pena.

Não chorei. Engoli as lágrimas, uma a uma, com a sensação que não tardava ia sufocar e cair ali, redonda no mais sentido literal da palavra, no chão, em frente à familia numerosa de quatro putos, onde um gritava "isto é tudo meu".

Mas não sufoquei.

Nem ainda quando me lancei a ler o livro do George R. Martin que me deram no aniversário. Permaneci com o sal e a água e tudo aquilo que me encharcava a traqueia, as amígdalas e o esófago, enquanto sentia, sabia que ia deixar de respirar.

Não sufoquei. E apenas desabei à tarde, já deitada no sofá, enquanto ao meu cérebro punha em causa dores e amores, certezas e ilusões, num sentimento que esta vida não é minha, que nada do que tenho me serve e que agora, que já não tenho motivos para dizer que vou acordar um dia, numa valeta, coberta de varejas, sem ninguém ter sentido a minha falta durante nove anos, tenho de arranjar um outro motivo qualquer.

Antes que as lágrimas que nascem não sei onde, essas putas que não me pedem autorização e aparecem assim, me consumam, se alojem todas lá na bolsa da garganta que a mamã me falou, e eu acorde, um dia, sufocada enquanto morro, lentamentem, com a dor de não chorar.

 

 

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publicado às 11:48


2 comentários

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De RC a 04.02.2014 às 04:01

Ja te disse que gosto mesmo muito de te ler? Tinha saudades destes textos saidos sabe-se la de onde (ou sabe-se mas nao interessa nada) ;)
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De M.J. a 04.02.2014 às 09:04

és uma querida!

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