Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




a vida na avenida era comum, banal. as lojas, na sua maioria haviam fechado. começavam a proliferar bares, como formigas, em cantinhos reles, outrora prédios ricos. restava ali a toga, com as suas filas intermináveis de estudantes, uma agência de viagens, a farmácia, umas lojas espalhadas, vazias. e a senhora que vendia roupa de bebé com quem eu passava horas. às vezes ficávamos em silêncio, eu sentada ao pé dela, a ver os dias caírem. o Outono veio cedo e as folhas secas, das árvores em frente, entravam porta dentro sem serem convidadas.

eu continuava a ir às aulas  depois de ter dado uma reviravolta nas notas no ano que passara. tinha ido a todas as melhorias, fora elogiada por um ou dois professores, achara que a coisa era possível de ser entendida. também retomara o trabalho na fotocopiadora, onde passava largas tarde, em pé, a tirar cópias de sebentas a pessoal, que preferia estudar por apontamentos do que pelos livros. não é que o trabalho fosse duro, que não era. mas no inicio, quando ali cairia de páraquedas, no primeiro ano, e os meus colegas de turma, que eu via à distancia mas com quem não falava começaram a aparecer, sentira uma absurda vergonha por ali estar e não andar, como eles, em risadas no couraça ou em rituais de praxe. depois tudo passou quando os vi, pequenitos, burritos, na sua maioria apenas desleixados, a tentar fazer as cadeiras por exame oral e a recriminar-me entre dentes por eu ir submeter-me à tortura de uma prova oral para melhoria quando já havia feito a cadeira. um deles, lembro-me tão bem, enquanto rilhava um cigarro nos claustros, com a mão cheia de folhas pintalgadas, fez um longo discurso de como as pessoas assim, que iam a melhorias e conseguiam passar nos exames escritos deviam ser infelizes, balofos, sem vida, fechados a estudar.

mas eu tinha vida. muita. trabalhava horas seguidas; dava explicações a trabalhadores estudantes; ia a todas as aulas; falava com as senhoras da avenida; vinha a casa aos fins de semana; lia livros às dezenas; depois, na latada desse segundo ano, a diana entrou na minha vida, sem pedir licença, abancou, ficou. apaixonei-me por ela com a dimensão exata do amor. por ela e pelo rafa. passávamos noites gigantes a estudar os três, em sorrisos, gargalhadas, anedotas. iamos jantar ao restaurante de eleição do rafa onde nos encharcávamos em beirão e faziamos planos para a vida.

eu vivia ainda que aquele colega, a rilhar o cigarro, achasse que não.

na altura morava comigo uma miúda que estudava teatro, com o respectivo namorado e, como não podia deixar de ser, uma gata. os meus tempos dentro de casa não eram muitos. comia muitas vezes na cantina, passava o resto do tempo, quando estava em casa, no quarto ou na sala a estudar. ela trabalhava, num restaurante acho, e um dia a gata apareceu prenha. foi o descalabro. mas ela não quis abandonar o bicho, o que concordei. a senhoria, mal soube, torceu o nariz, reticente desde o primeiro dia em aceitar gatos em casa, no medo do estrago, ainda que, olhando com atenção, não houvesse perigo de se estragar nada que estragado estava aquilo. a sala tinha remendos no chão e o meu quarto deixava cair estuque em  cima da cama, que eu limpava todas as manhãs com o aspirador.

enfim a gravidez da gata andou. e era inverno quando pariu, no quarto da rapariga. uma dúzia de gatos, remelentos. achei feio, nojento mesmo que ela deixasse no mesmo quarto onde dormia, parir a gata e ali deixar a enxerga, longos dias. mas aquele desleixo pela limpeza fazia parte dela. havia sempre louça suja, porca mesmo, espalhada na banca. o fogão estava inevitavelmente imundo, do qual eu fugia com garra. e às vezes, do quarto da rapariga, vinho um cheiro a azedo, muito forte, que me fazia encolher o nariz.

um dia, já tarde, chegava eu a casa, de mochila às costas, cansada, atrofiada de uma tarde de trabalho entrecortada com aulas, quando ela me chamou do quarto. pousei a mochila, a medo. bati à porta, entrei. e nesse momento, nesse exacto momento, foi como me enfiasse, nariz dentro, cérebro dentro, estômago dentro, mil animais mortos. estaquei. tapei o nariz. ela não me via, na penumbra da cama e do quarto, com as janelas fechadas, porta fechada e aquecedor ligado o dia todo. uma dúzia de gatos pulavam pelo quarto e uma caixa de areia repleta de porcaria estava assim, à vista. pensei desmaiar com o cheiro, mas engoli mil germes em seco assenti fazer-lhe o chá que me pedia, saindo do quarto com vontade de chorar, pelo espectáculo degradante. nessa noite jurei que tinha de mudar de casa.

mas não mudei. permaneci, o tempo passou. veio o natal, as férias, voltei depois para os exames. passámos meses inteiros a estudar. a diana fez anos, oferecemos-lhe um bolo. passámos a tudo, com boas notas. fiz melhorias. começou o segundo semestre, o trabalho, a rotina. 

em casa as coisas eram iguais. louça por lavar, gatos espalhados, uma imundice de que eu fugia para o meu quarto, imaculadamente limpo, com velas de cheiro. e ainda assim, pouco imune à porcaria, visto que um domingo, ao chegar da terrinha, reparei que todo o quarto, estava, sem qualquer pudor, repleto de pulgas.

fiz uma gritaria. pela casa toda. tirei-a do quarto quase à força, acusei-a de tudo. na manhã seguinte, depois de não dormir, comprei uma merda qualquer para matar o bichedo, espalhei pela casa. contei à senhoria. no dia a seguir os gatos desapareceram, a moça pediu desculpa. mas a imundice continuou. arranjou um cão, bebé que não controlava os intestinos e cagava a casa toda. queixei-me, baixinho, não fiz nada numa apatia chata.

uma noite, quando o rafa foi à varanda da cozinha para fumar encontrou no chão uma espécie de larva. voltou ao quarto e perguntou-me se queria ir à pesca, que isco já tinha. fui a correr à cozinha. a rapariga tinha pegado no saco do lixo e em vez de o levar para o caixote pusera-o na varanda, ao sol, durante dois dias. foi absolutamente aterrador. gritei, esperneei. era final de maio. telefonei à senhoria, disse que ia sair, que aquilo era a gota de água.

no dia a seguir, a miúda pegou nas malas e abandonou o barco.

 

nunca mais a vi. mas ainda hoje guardo dela, não a imundice em que vivia, mas a noite em que as duas, encostadas à janela da sala, com vista para a avenida, brindámos, com champanhe francês (que uma amiga médica, francesa que estava a tirar o curso por carolice me dera) à puta da vida que nos trouxera até ali.em baixo, um monte de estudantes, vestidos a rigor gritava coimbra é nossa. e nós acabámos a noite, deitadas no sofá a cantar baixinho "tudo tem mais encanto, na hora da despedida".

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:14



foto do autor