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por M.J., em 18.09.14

Alguém anunciou na televisão que ia morrer em seis meses. Um cancro qualquer que lhe comia o cérebro vorazmente. Seis meses de vida. Pergunto-me o que se sente quando se tem o anúncio de que se viverá apenas e só seis meses. O que se decide fazer. O que se pensa seguir. Não há mais a possibilidade séria que nos permite ter esperança e aguentar os longos dias de tédio e de ausência. Não se pode esperar pelo próximo verão, os gelados na praia, a areia quente na pele. Não vale a pena desistir, que o fim afinal, está mesmo ali. Entrar na loucura da apatia e do medo é só parvo porque são minutos, segundos perdidos do que se podia viver, no aproveitamento dos últimos dias. E ainda assim, como sentir na plenitude o que se vive nos últimos dias? Como aproveitar, na plena dimensão do momento o exato segundo de felicidade quando se sabe, assim, que se vai morrer, ali, quase nada, a um instante?

Como aproveitar a loucura da dor de não se voltar a ver quem se ama? Jamais?

E então, mesmo sabendo isso, mesmo sabendo que podemos ser um daqueles a ter apenas seis meses, seis horas, seis minutos, como ainda assim, vivemos, ou melhor, reformulando a frase, vivo desejando desistir?

A vida é só tão estúpida que é impossível encontrar sentido nela. 

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publicado às 16:02


7 comentários

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De apeteciametanto a 18.09.2014 às 16:36

Dai se pergunte, porque não viver como fosse o ultimo dia. Só quando temos a barreira do tempo, tempo contado, tempo antes do fim, fim de tempo, é que decidimos viver?
Letargia, apatia da vida, ser estúpido o homem, quão poderoso ele é, a arma é o tempo.
Tempo que se desperdiça, na preguiça de se viver.
Fáceis são as palavras no tempo que se perpetuam na ignóbil triste sina a nossa, que só desperta quando o fim está determinado.
Só ai o tempo é vida, oxigénio, amigo, companheiro....
Palavras para que te quero, quero é tempo...
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De M.J. a 18.09.2014 às 16:42

porque seria impossível, pela própria definição de viver, viver todos os dias na felicidade de ser o último dia. ou melhor, falando por mim, tenho a ideia que não teria prazer (não uso a palavra felicidade, que é estúpida) em viver cada dia como o último porque seria exatamente isso: o último.
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De apeteciametanto a 18.09.2014 às 16:55

certamente que sem a aproximidade do fim não seria possivel viver como fosse o ultimo dia. a questão aqui prende-se com a mesquinhes que todos os dias faz questão em me acompanhar que certamente nesse suposto ultimo dia não teria cabimento. a questão aqui prende-se com o facto de passar e ver a rastejar pelo chão outro ser humano que por razões que a própria razão desconhece ou até ele próprio desconhece pede um pedaço de pão e eu não tenho tempo para parar e lhe prestar atenção e matar-lhe esse desejo que dá pelo nome de fome, que certamente nesse suposto ultimo dia não teria cabimento. a questão aqui prende-se com aqueles cabrões e cabras que não gostamos e que levamos com eles todos os dias, e porque sim, não lhes digo nem bom dia nem boa tarde, podiam cair redondos à minha frente, que não lhes estendia a minha mão, porque o tempo se há-de encarregar de os fazer desaparecer da minha vista, certamente nesse suposto ultimo dia não teria cabimento. e poderia continuar ......... neste sentido acredito que se deve viver como se fosse o ultimo dia, desprendido de tudo que é mesquinho e que tanto gosta de viver na nossa mente alimentado pela alegria da indiferença que teimamos teimosamente persistentemente em ter...........
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De M.J. a 18.09.2014 às 17:06

apesar de entender e aceitar tudo o que dizes, creio que mesquinhez, é apenas uma maneira de ser ou estar, para muita gente, que pasme-se, os faz sentir bem.
porque na verdade, se quero viver com prazer, como se fosse o ultimo dia (indo nessa perspectiva) e me sinto bem em ser absolutamente indiferente a alguém, então parece-me que nesse sentido, a mesquinhez é aceitável.
eu por exemplo, se a palavra vai nesse sentido, sou mesquinha em alguns aspectos: dificilmente perdoo (muito menos a mim mesma) e dificilmente volto atrás em decisões tomadas (ainda que me prejudiciais).
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De apeteciametanto a 18.09.2014 às 17:12

ora ai está "dificilmente perdoo (muito menos a mim mesma) e dificilmente volto atrás em decisões tomadas (ainda que me prejudiciais)." - porque o fazemos a nós mesmos, farias se fosse o teu ultimo dia de vida, ou não lhe davas importância?


(exemplos banais no texto que escrevi, que não têm projecção na alma deste apeteciametanto)
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De M.J. a 18.09.2014 às 17:14

não consigo responder a isso. muitas vezes nem sei que valor dou à vida que tenho, pelo que não sei o que faria se soubesse que amanhã, por esta hora, já não a teria.
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De JustAnOrdinaryGirl a 18.09.2014 às 17:59

Puseste-me a chorar com este texto. Mas concordo com o que escreveste! Deve ser difícil saber uma coisa dessas, que se tem apenas um determinado tempo. Há que ter força e coragem de aproveitar o que sobra sem se deixar tomar pelo medo.

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