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do olho

por M.J., em 27.02.14

dói-me um olho. podia ser caso de rir se não tivesse vontade de chorar. dói-me um olho, o olho direito aliás, não por fora mas por dentro. num sitio que nem sabia que era possível doer. mas dói como a merda e não consigo concentrar-me na carrada de recursos que tenho de fazer e para a qual preciso de puxar pelo dito olho.

é triste.

acordei de manhã com um sentimento negro a chatear-me, uma espécie qualquer de premonição sem sentido, como se o meu mundo fosse desabar e de repente nada fizesse sentido. demorei a levantar-me, perante os braços dele que se agarravam a mim, ao peito, a cabeça encostada à minha, tranquilo, sereno, numa respiração pausada de alguém que descansa. eu queria dormir, queria muito,  mas o despertador e o facto de ter nascido pobre obrigaram-me a levantar, a tomar banho, deprimida, chateada, zangada e a sair de casa. 

na rua chovia outra vez. tinha o carro longe e demorei a dar com ele. molhei-me toda porque não tenho guarda chuva. a chave do carro fugia-me pelas mãos enquanto a tentava descobrir no meio do lixo que tenho na mala. lembrei-me que ontem a deixei cair nas bombas de combustível em cima de uma poça que não era de água mas de uma coisa que cheirava imensamente a gasóleo. a mala também cheira a gasóleo e, consequentemente, todo o lixo também. sinto-me uma espécie de perfuradora de petróleo. 

demorei muito tempo a chegar ao escritório hoje de manhã. havia transito na cidade, e na estrada até aqui. travagens bruscas de um carro perto de uma passadeira e consequentemente, os meus travões a chiar. não me sentia revoltada ou desesperada, os sentimentos típicos dos dias não. apenas triste, numa espécie de paz triste que me fazia querer abrir a porta do carro, deixá-lo vir sozinho para o escritório, enquanto eu caminhasse, à chuva pois claro, pelas ruas repletas de transito. libertando as lágrimas que se confundiriam com a chuva. 

enfim cheguei. o olho começou a doer. por dentro. não é a sensação de ter um lixo ou assim. é mesmo dentro, numa especie de dor de cabeça. passei a manhã toda a resolver coisas. comecei de volta de um recurso. acabei por perceber que não me consigo concentrar em nada e que só me apetece dormir. tomei uma cena para as dores, vamos ver se passa.

amanhã é sexta. e esta quinta tem o sabor de uma segunda, muito feia, muito triste, muito desoladora.

há-de chegar o dia que faço do meu dia única e exclusivamente o que me der na gana.

mas ainda falta tanto...

e o olho dói. 

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publicado às 12:52