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da filarmonia

por M.J., em 25.11.13

Na Sexta Feira fui ver a Filarmonia das Beiras ao teatro, no encerramento dos festivais de Outono. Foi tudo em cima da hora, não estava à espera de ir, acabei por enfardar umas castanhas ao jeito de jantar, vestir uma treta qualquer, quase sem vontade de ir.
Quando chegámos pensei que já não tivéssemos lugar na plateia e nos obrigassem a ir para o balcão. O meu companheiro de aventuras, escapuliu-se da fila, de fininho, que a paciência dele para esperar é tão limitada como a minha. Eu fiquei, aguentei firme, mesmo atrás das dezenas de pessoas que estavam para comprar bilhetes. À minha frente uma criatura loira, quase platinada, uns bons palmos mais baixa que eu, de modos que lhe via as raízes castanhas do cabelo, cacarejava incessantemente como se sentia feliz por ter saído de casa para ver música clássica. Olhando para o cartaz em frente, apeteceu-me dizer-lhe que Stravinsky não é bem clássico, talvez neoclássico, mas enfim. Fiquei calada enquanto a rapariga se sentia imponente.
De repente, quase sem querer vi-o ali,  plantado, exactamente igual a sempre, de mochila às costas, a falar com um bando de pessoas, aquelas pessoas sempre do mesmo género que o acompanhavam para o final da nossa amizade. Aquelas pessoas que me faziam sentir intrusa, naquele laço que eu julgava que tínhamos, e que foi tão passageiro.
Pensei sair porta fora, para não ter de o ver. Esperei que a fila andasse, que eu não tivesse que passar mesmo ao lado dele. Estive mesmo para telefonar para o moço que me acompanhava, e que eu não sabia onde se metera, a dizer para se despachar, que eu não queria mais ali estar, e que enjoara música em dois segundos.
Fiquei, ainda assim, quieta, parada.
Vamos ser francos. Ninguém pode fugir do passado. O meu, de vez em quando encontra-me nas esquinas. Não é que eu faça tenção de fingir que nasci, imaculada e santa, das cinzas de um tempo que não existiu. Apesar de todas as asneiras, as atribulações, apesar da doença, da loucura, da insanidade, das trevas, eu estou aqui, eu sou eu, pelo passado. E no passado inclui-se ele, aquela amizade, tão grande, tão louca.
Lembrei-me, enquanto rezava ao Deus que eu não acredito que a fila andasse e ele não me visse, que um dia a Diana me disse, que uma amizade, uma amizade a sério, não se constrói em dois dias, ou em meio ano, como eu achara que construíra aquela. Na altura não levei a sério. Agora, perante o passado, que me ensombra, perante as pessoas que não estão mais aqui, porque as afastei, porque se afastaram, ou porque a vida nos afastou, constato, sem tristeza, nem alegria, que ela tinha razão.
Quando ele se foi, e deixei de o ver na fila, quando o meu companheiro (não confundir com namorado) daquela noite apareceu, a lembrar-me com a sua presença tranquila, que esta é uma nova fase, sem loucuras, sem insanidades, sem correr de cama em cama, a pedinchar para ser amada, senti um alivio raro, uma segurança séria, de que a vida se compôs e que não preciso de mil pessoas nela. Bastam umas poucas. Aquelas cuja amizade não se constrói em seis meses, mas no tempo suficiente para ficarem para sempre.
E conseguimos lugares na plateia.

Ah. A Filarmonia esteve bem, ainda que desafinada na primeira música. E no fim, quando a presença de tudo aquilo mais não era que um fantasma, fomos comer um hambúrguer ao Ramona.
Assim se acaba um drama, em maionese e carne, com batatas fritas.


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publicado às 17:14

Do fim de semana

por M.J., em 24.11.13

Ontem fui ao Jumbo para comprar ovos. Custou-me sair de casa porque tinha decidido passar o fim de semana de pijama. Quando cheguei ao centro comercial havia uma musiquinha de Natal no ar e lembrei-me de ir comprar cenas da quadra para pôr na árvore de natal que estava semi nua. Encontrei oitenta peças a 5 euros e pouco e fiquei feliz. Também encontrei uma promoção de bananas e carne picada. Fiquei feliz.
Quando cheguei a casa vi que me esqueci dos ovos.
Hoje de manhã acordei com alergia. Espirrei durante umas três horas até decidir tomar um comprimido. Agora estou a dormir em pé. De tal forma que há bocado quando cortava carne para o jantar cortei quase a cabeça do dedo indicador da mão esquerda. Foi uma sangria desatada, acho que a faca chegou mesmo ao osso, e eu, que me cortava deliberadamente, perante tanto sangue, ia desmaiando. Cum camandro. Acabei por por um penso a apertar o dedo, para o sangue estancar. E agora? Agora estou a dormir em pé, com um dedo quase sem cabeça.

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publicado às 19:44

Eu sei

por M.J., em 22.11.13

Que ando pirosa, que falo em alianças, e que tiro fotografias com o moço e encharco o facebook com elas. Sei que fiz árvore de natal e que só não falo mais da minha relação porque ninguém me escuta.
Mas cum camandro. Nunca me deixem publicar fotos deste calibre. Antes disso enfiem-me com mil garfos nos olhos!

 

 



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publicado às 12:55

da conjuntivite

por M.J., em 20.11.13

Tive uma conjuntivite no olho direito no passado fim de semana. Nada de grave. Fui à farmácia, pus umas gotas, andei a ver tudo turbo durante uns tempos, a coisa acalmou. No Domingo de manhã acordei com o olho esquerdo no mesmo estado. Enfrasquei-o de gotas também e a coisa melhorou.
Depois não voltei a pôr as ditas cujas.
Agora tenho o olho esquerdo vermelho, raiado de sangue, e com mais comichão do que se tivesse um enxame de melgas a mordê-lo.
Porquê? Porquê esta vida miserável, e ainda uns olhos tristes?

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publicado às 18:13

Eu sou assim e tu?

por M.J., em 20.11.13

Muitas vezes, na minha vida (em versão gorda e sem saltos)

 

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publicado às 17:08

do corte

por M.J., em 20.11.13

Sou daquelas que me corto. Ou cortava. Já não me corto desde que, a pessoa que amo acima de qualquer coisa, me disse, claramente que não sabia lidar com a situação. Não disse assim, olhos nos olhos que me ia deixar ou fosse o que fosse. Não fez um ultimato ou ameaça solene drástica e teatral. Apenas com uma clareza e sinceridade transparente me disse que não podia, porque não sabia, lidar com a situação.
Posto isto, dei por mim a pensar, numa das últimas crises de trevas (no Domingo passado, sejamos precisos) se valeria a pena o comportamento. Iria de facto, com a lâmina a cortar a pele, ganhar algum controlo sobre a situação, que me incomodava tão fortemente? Ir-se-ia o cosmos modificar, alterar, ou a minha dor tornar-se mais leve?
Conclui, tristemente, que não. E as dezenas de cicatrizes que tenho estão aqui para confirmar o assunto.
Não fiz nada por isso, e a sensação de impotência, de nem esse pequeno escape agora ser viável assolou-me em toda a grandeza do que sou. Não foi um momento bonito, ou que valha a pena recordar. Mas não me cortei, por respeito a mim mesma e à pessoa que me ama. Permaneci assim, estoicamente, a aguentar, numa banalidade, a dor que me assombrava.
Decidi dormir. Na Terça Feira o drama passou, e não há mais nenhuma cicatriz na pele.
Uma vez disseram-me que esse comportamento era de adolescente. Terei entrado finalmente na juventude?
Sei lá!




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publicado às 16:15

Dizem...

por M.J., em 19.11.13

Que a duquesa de Alba morreu e a moça teve de vir confirmar que ainda não é desta.
Que continua assim, linda e resplandecente, a espalhar o charme pela vida.

Que inveja!



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publicado às 18:29

das fêmeas e dos rissóis de atum

por M.J., em 19.11.13

Não era, nem nunca fui uma menina. Ou pelo menos, gostava de dizer a mim mesma que não era. Houve uma fase mesmo, da minha primeira adolescência (sim, porque eu passei por duas) que me vestia à rapaz, naquele tempo em que os moços usavam os fundilhos das calças pelos joelhos.
Não me julgava uma menina, ou pelo menos achava que não. Neste mundo estúpido (e oh se é estúpido) sempre achei que o homem, o macho, o alfa da matilha com tintins, apenas por ter tintins, é privilegiado, e a mulher, a fêmea, a parideira, desprezada, ainda que em moldes subtis.
Eu queria ser homem portanto, e abominava tudo o que me pudesse ligar a essa coisa da fêmea.
Até há pouco tempo. Até ao tempo, meus irmãos, meus amigos, meus companheiros que lêem esta porcaria, em que encontrei o testo da panela. Em que, depois de muitas desilusões, doenças mentais e emocionais, tentativas de suicídio e etecetera, etecetera, encontrei alguém que todos os dias dá provas de me amar.
Nessa altura, mesmo sem querer, mesmo sem dar conta, transformei-me numa fêmea.  Eu cozinho e gosto, eu faço tricô e gosto, eu compro paneleirices para a casa e gosto, eu penso em electrodomésticos que tenho de adquirir e gosto, eu faço planos de almoços e jantares e gosto. Qualquer dia apareço aí barriguda (que não de banhas) e querem ver que gosto também?
O maior feito, nestes dias tolos foi mesmo a cozinha e o tricô. Porque meus amigos, sejamos sinceros. Nunca gostei de pegar em tachos (só de comer) e nunca, mas nunca e juro pela santinha mais velha que exista, que julguei ter paciência para agulhas. E agora, até faço rissóis, uns de atum e delicias do mar que é uma autêntica maravilha, e encharco-me com eles, e tortas de chocolate (tortas mesmo, como aquelas das pastelarias) e compotas de maça e de abóbora... e faço tricô, umas cenas paneleiras de pôr nas canecas para ser mais giro, e cachecóis, e acessórios para o cabelo.
Sou uma fêmea, portanto, em toda a plenitude da palavra que a sociedade impõe. Ainda que, tenho de confessar, não consiga, por mais que queira, achar piada a recém nascidos, a putos engelhados e grávidas com barrigas que lhe chegam aos pés. Não acho lindo. A ideia de ter uma criança a arrancar-me os mamilos e a pô-los cheios de ferida chega mesmo a enojar-me, e a simples menção de putos a sair-me por um sitio que não é concebido anatomicamente para isso também.
Sou uma fêmea, caraças. E agora?
Sei lá!

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do pai natal

por M.J., em 19.11.13

Portanto fui esperar o Pai Natal no Sábado com o meu afilhado. O puto ligou tanto aquilo como ao Futebol Clube do porto a jogar: nada! Queria mesmo era estar a fazer tété, fechando os olhos e abrindo-os como se tivesse desaparecido e aparecido por magia.
Evidentemente que eu devia ter sido mais inteligente e saber que um miúdo de um ano está-se a cagar para receber um velho idiota e barrigudo, que caralho, não era velho, nem barrigudo. Fiquei lixada à grande! Não só me levantei cedo a um sábado de manhã, como fui obrigada a ouvir um grupo que se chama "O pequeno David e os sem soninho" a cantar (note-se que o pequeno David era um marmanjo de voz grossa, com calções ridículos e os sem soninhos eram todos homens de barba na cara) merdas que envolviam aviões e carrinhos, como estava um frio estúpido, como quando o pai Natal chega, depois de mil gritos pelo gajo, é magro e não tem barriga.
Mas desde quando o filho de mil éguas do pai natal não tem barriga?
Depois eu estava com uma conjuntivite no olho e via mal como a merda devido às gotas que tinha posto minutos antes. A coisa revelou-se um pesadelo portanto, quando já no fim (duas horas de imenso terror) decidiram distribuir livros pela criançada toda, que se atropelava como se fosse receber arroz depois de estar duas semanas sem comer.
Afastei-me, para onde pude, encostei-me lá na porta de uma loja (aquilo foi no centro comercial) a tentar acalmar o puto que perante tanta confusão abriu as goelas.
Não foi bonito não senhor. E eu gosto muito do meu puto, para que se saiba.

Quando cheguei a casa, a suspirar de alivio e me sentei no meu sofá estragado (aquilo tem as molas um bocado partidas) olhei em frente e vi a árvore de Natal que eu própria montei no fim de semana anterior com a cara metade. Sou uma hipócrita, que monta árvores de Natal, mas não tem paciência para esperar o velho.

Agora que penso nisso, devia ter ido pedir ao gajo cinco livros para os meus cinco filhos ranhosos que tenho em casa.
(tenho nada. nem um cão, quanto mais)

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publicado às 11:40

Da apresentação

por M.J., em 19.11.13
É difícil as gentes que me conhecem conseguirem distinguir a escrita louca da louca que escreve. Por isso esta coisa, esta taberna tem de se manter assim, longe das luzes dos holofotes. Há claro muita gente que faço questão que leia. Aqueles que conseguem manter a distância e perceber que a loucura que para aqui despejo, como lixo, não passa disso mesmo.
Posto isto, passemos às apresentações!
 
Olá, eu sou a coisa, que se apelida de MJ, e sou louca. Louquinha, cucu da cabeça. E não é louca no bom sentido, meus irmãos. É louca no verdadeiro sentido da palavra. É certo que não ando aí a matar gatinhos abandonados, nem a sacrificar galinhas. Também não acredito no céu ou no inferno e nessas coisas que, na minha opinião, caracterizam os loucos. Mas sou dotada, de uma loucura refinada, daquela das pessoas que pasme-se, apesar de inteligentes, não conseguem controlar as emoções.
Sou cucu da cabeça. Passo de um extremo de emoções ao outro numa questão de horas. Circulo entre a minha vida cor de rosa e as trevas da amargura. Não bato bem, portanto (não sejam pervertidos. Não bato bem da cabeça, da minha claro).
E a questão é que essa loucura tem tendência a afectar as minhas relações: de amizade, de conhecimento, de gente que cruza a minha vida. O facto de ser cucu da tola faz com que as pessoas gostem de mim e ao mesmo tempo tenham uma vontade de fugir. É normal. Lidar com uma montanha russa de emoções não é fácil.
Sou a pessoa mais sincera comigo mesma que possam conhecer. Julgo-me com todas as pedras, peças e bananas (não sei porque pus aqui esta fruta, mas achei que ficava bem). Não dou abébias a mim mesma. Não desculpo situações. Não digo "ah, aconteceu assim porque as circunstâncias...". Não! A minha vida é o que é  por minha livre e espontânea opção. E meus amigos, se decidi pôr a minha felicidade nas mãos dos outros, os outros que eu evito e fujo, foi por opção minha. Daí que lide com isso, da maneira que sei.
Pronto.
Sou louca e é a única coisa que interessa para as apresentações. Preciso das pessoas mas fujo delas como o diabo da cruz. Queria ser magra mas encharco-me em chocolate. Queria ser rica mas não jogo no euro milhões. Queria ser feliz, mas adaptei-me a esta loucura!
Têm a certeza que querem ler isto?
Eu não tenho certezas de nada.
E agora?
Agora, sei lá!

 

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