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não há nada mais triste

por M.J., em 30.09.14

do que sermos banais quando desejamos ser extraordinários. 

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por M.J., em 30.09.14

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publicado às 22:53

ia falar

por M.J., em 30.09.14

alguém pegou nas palavras que eu tinha, todas pegadas aos dedos, e matou-as, em linha recta, mortas de nada, sem eu saber como. e tinha tanta coisa para dizer, para escrever, assim. e não consigo porque as palavras morreram nos dedos e não consigo escrever, ainda que continue a martelar nas teclas e saiam frases que eu não releio, na dor de que me mataram as palavras e não consigo escrever.

e tinha tanta coisa para dizer. ia falar das tardes em casa da vovó, enquanto ela costurava e eu aproveitava os restos de tecidos, em longos vestidos de noiva nas bonecas escondidas. ia falar das horas em que calcava as folhas secas das árvores do quintal que caiam, e dançava ao som do vento, com a ana ao fundo da rua a rir-se da minha saia que voava. ia falar das limonadas que bebia com a avó, enquanto nos sentávamos em cima da escadas e víamos ao longe o sol a fugir. ia falar, ainda que com medo, do medo, das longas noites de trovoada, do frio, sempre o frio presente nos ossos ainda que na escola, um dia, a professora tenha dito para a turma que os gordinhos não sentiam tanto frio, ora perguntem à maria joão. e eu sentia, sempre, o frio e o medo, os dois juntos, que tremia largas noites, não sei se do frio, se do medo.

ia falar das tardes em que saia do autocarro e vinha, rua abaixo, mochila nas costas, a comer as uvas que encontrava no caminho, com a ana em grandes concursos de corridas. ia falar do natal, em frente à lareira, com a mesa repleta de comida, a olhar as chamas, a arder, a pensar que queria tanto mas tanto gente que sorrisse e cantasse. ia falar de como me afastei da diana, do rafa, das pessoas que me levaram ao colo em dias de depressão e angustia e não me deixaram morrer. ia falar das noites sem dormir, o despertador a tocar de meia em meia hora, de propósito porque eu posso, sei que posso morrer senão dormir nunca, jamais. ia falar da mochila preta debaixo da cama, com a pasta de dentes e a toalha. ia falar da tristeza da mamã e da culpa, do sentimento de culpa que me atola, tem dias, e me consome até aos ossos e me rói a pele e me mata, devagarinho. ia falar do medo que ainda sinto, do infinito que me espera, da vida que tenho e não quero, do sentimento de inutilidade que me percorre as unhas e os olhos.

ia falar mas alguém me matou as palavras, em fila, alinhadas e tudo o que consigo é ficar quieta, muito parada a olhar o computador, com a música nos ouvidos a consumir-me a alma.

ia falar mas não falo.

não consigo. 

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tens a certeza?

por M.J., em 30.09.14

a conversa é sempre a mesma. ouvi-a tantas vezes. sempre a mesma. "ah e tal, porque eu queria, mas enfim, não te quero magoar". também podíamos apostar no "tens a certeza?". a desconversa da desresponsabilização. sim, sim, estou em cima de ti, mas antes de avançar, depois de te apalpar as mamas sinto necessidade de te perguntar se tens a certeza e avançar que não te quero magoar. porque caralho, não me apetece nada depois, amanhã, quando não me apetecer mais nada contigo, que me atires à cara que eu nem te perguntei se tinhas a certeza.

sempre magnifico. o afago ao ego. o pedido. é claro que tenho a certeza, como não havia de ter...

e já foi há tanto tempo. não aconteceu o não te quero magoar ou o tens a certeza da última vez, há quase dois anos. foram apenas e só duas pessoas que decidiram ir em frente, sem essas merdas, com certezas de compromisso. 

ainda hoje, quando alguém me conta (ainda que porra, são cada vez menos, os conhecidos têm todos vidas estáveis, com casas e cães e filhos e massa e arroz na dispensa organizada em frascos) que pronto, ele perguntou-me se eu tinha a certeza, tenho vontade de dizer o que devia de ter dito antes: oh não filho, não tenho. levanta-te lá e não olhes para trás à saída, não vá eu não ter a certeza de te mandar com um livro nas trombas.

(sim, sim, livro é piroso mas deve ser a coisa que mais abunda no quarto. sim, mais do que sapatos).

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publicado às 22:07

boa noite

por M.J., em 30.09.14

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a tasca está aberta esta noite

por M.J., em 30.09.14

alguém por ai?

 

aceito sugestões de boa música...

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boa tarde

por M.J., em 30.09.14


(alguém é servido de um café? que sono....)

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é só para dizer

por M.J., em 30.09.14

que não sei que diga. estou absurdamente apática. sem questões, opiniões, desilusões ou mesmo pões.

esta tasca já teve necessariamente melhores dias.

 

(mas que porra, o colega do lado hoje era giro que se fartava, lá isso...)

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...

por M.J., em 30.09.14

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boa tarde

por M.J., em 29.09.14

e depois tu apareceste e eu deixei de beber chá amargo.

e depois tu apareceste e deixei de querer fugir à chuva.

e depois tu apareceste e todas as vogais se tornaram modeladas, gigantes, abertas de som.

e depois tu apareceste e eu fiquei sem saber o que dizer, dos dias cinzentos.

e depois tu apareceste e a dor, que me servia de guia, morreu.

e depois tu apareceste e as cicatrizes, e os cortes, e os medos, e o fugir, e a certeza de que não sou nada, porque não sou afinal, desapareceram.

e depois tu apareceste e eu deixei de conseguir escrever o frio nos ossos, na pele e na alma.

e depois tu apareceste e eu sinto, às vezes, na ingratidão, que se não tivesses vindo, podia não sentir, em alguns dias, a absoluta frustração de ter no peito um batimento constante.

e depois tu apareceste e eu sei que, desta vez, se fores também, serei só vazia. só oca.

só, desta vez literalmente, nada. 

 

(há quem cante odes ao amor. que diga, sem pejo, que o amor transformou os dias banais em brilhantes, a rotina em excitação, a chuva em sol. eu digo, baixinho vê bem, que o amor pôs na minha vida a banalidade, a normalidade, a rotina e a chuva que permitem viver.)

 

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