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do divórcio

por M.J., em 30.10.14

conheço muitos casos, mais do queria, de gente que de um dia para o outro se decide divorciar. tudo vai bem, para pelo menos uma das partes. há planos, filhos, decisões conjuntas, um futuro em frente, cães, piriquitos e dividas ao banco. as pequenas coisas más que vão acontecendo são ultrapassáveis. uma das partes está plenamente confiante no amor pela outra, na vida como ela é a partilhar a almofada e a sanita.

e um belo dia, juro que conheço pelo menos meia dúzia de casos assim, uma das partes chega-se ao pé da outra e num abrupto, num momento de certeza, pois que me vou embora, refazer a minha vida, pois que adeus, foi um gosto, quero divorciar-me, fica lá com o cão, arranja maneira de dividirmos o puto. 

sou apologista do divórcio, sempre fui. mas cum caralho. quando penso em casos destes, dramáticos alguns, em que se discutem depois candeeiros e lâmpadas, cobertores e meias, filhos e dividas, em que se calca futuros e sonhos e se transforma a vida do outro num pequeno martírio, em que se diz a pés juntos que há que seguir a vida com quem se ama realmente, como se aquela pessoa com quem se partilhou anos e vidas fosse descartável, fico enojada. 

 

eu vi essas merdas todas na meia dúzia de casais que num belo dia foram desfeitos, sem uma das partes sequer imaginar, planeando arco íris e unicórnios para o futuro.

e estou em crer que se é possível recomeçar sem uma grande carga no lombo, sem necessidade de contactar com quem nos dá um pontapé bem dado nas nádegas, com filhos, dividas, cães, meias e candeeiros a partilhar  deve ser um esforço hercúleo voltar a reerguer-se uma vida.

 

digo eu, que não sei nada disto.

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publicado às 11:35

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por M.J., em 30.10.14

às vezes tenho a sensação que poderia permanecer aqui sentada toda uma vida. ganhando raízes e vendo o dia pela janela. bebendo chá e ouvindo música. 

tenho a sensação, às vezes, que a minha vida está toda aqui nesta cadeira.

 

e o tamanho do desperdício que é não se consegue descrever em palavras.

pobre cadeira.

 

 

imagem daqui

 

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bom dia

por M.J., em 30.10.14

 

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publicado às 09:35

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por M.J., em 29.10.14

As palavras aproximam:
prendem-soltam
são montanhas de espuma
que se faz-desfaz
na areia da fala

Soltam freios
abrem clareiras no medo
fazem pausa na aflição

Ou então não:
matam
afogam
separam definitivamente

Amando muito muito
ficamos sem palavras.

Ana Hatherly

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publicado às 17:03

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por M.J., em 29.10.14

tem dias que sinto que se pudesse dizer tudo de enfiada,de uma vez só, tudo o que sinto e me dói e não sei e dos medos e da ansiedade e de tudo o que me queima e gela e do frio e da ausência e da incerteza, se pudesse dizer tudo seria no fim uma pessoa nova.

e tudo seria mais fácil.

 

(é para essa merda que servem os psicologos não é? ou os amigos...)

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dúvidas, só dúvidas #1

por M.J., em 29.10.14

mas passar na rua e ouvir alguém dizer "oh jóia vem cá ao ourives" pode ser considerado assédio?

 

eu achava que era só estupidez... da pura é certo, mas estupidez!

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do empate

por M.J., em 29.10.14

caminho lentamente, passo pesado, zangada, em amuo com a vida, com isto. comigo. 

- pois que isto é como um jogo empatado,

eu ouço. caminham os dois, lado a lado no passeio. estou atrás dele, mala na mão, lancheira no ombro, casaco debaixo do braço. a minha cara é fechada de trombas do dia, que está solarengo, mas me passa distante, amuada a desejar chuva e dias feios, na igualdade do espirito. 

- o jogo acaba e vai-se para prolongamento,

sou obrigada a ouvir, que estão mesmo à minha frente e tenho preguiça de me mudar, de os ultrapassar. ajeito melhor a mala, o casaco, abrando o passo, olho pela primeira vez na manhã o céu límpido de azul, translúcido em poeiras que vagueiam pelo ar, brilhantes do sol.

- e no fim do prolongamento continua-se empatado e em vez de se ir para penaltis não, prossegue-se o jogo.

não percebo de futebol, mas ouço. vejo ao longe as noites sentada no banco, almofadado e pequeno, na cozinha, manta no chão, a olhar a televisão, futebol, vozes alteradas. marca, marca, dizia e alguém marcava e ganhava.

- e ninguém ganha, percebes? continua-se em prolongamento até o pessoal estar esgotado de desemprego, fome, miséria. esta merda é um jogo de futebol empatado, ouve o que te digo.

faz-me sentido, ainda que não faça. caminham os dois sempre no mesmo passo, cabelos grisalhos, casacos idênticos, sapatos desportivos. o que fala gesticula muito, tem a voz seca, longa, arrastada na manhã. não deram conta que estou atrás, quase param na conversa.

- então e quando o pessoal estiver esgotado?

a pergunta, feita pelo outro, no ar.

- aí a malta revolta-se e mata o árbitro. nessa altura o jogo começa outra vez. 

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publicado às 12:38

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por M.J., em 29.10.14

tenho o caralho de uma dor de cabeça. perdão. não são palavras de uma ilustre como eu. tenho uma filha da putissima dor de cabeça. mas dói de tal forma que me sinto capaz de a pôr debaixo de um camião, caso o encontre.

seria bem viver sem cabeça. nunca gostei muito dela na verdade. a gostar de alguma coisa em mim, tenho predilecção pelas minhas mamas.

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publicado às 11:21

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por M.J., em 28.10.14

em raiva pela vida dei um grito enquanto conduzia. assustei-me com o som que ouvi, saído de dentro da alma, numa angústia que nem sabia. agora doi-me a garganta.

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publicado às 22:17

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por M.J., em 28.10.14

hoje vi uma puta. aliás, duas putas. este meu fascínio por putas é recente. olhar gente a vender-se, ao quilo, na estrada deixa-me muitas questões das quais, em dias de chuva como estes, me põem a pensar. é que vejamos, a puta tem necessariamente família. tendo em conta o preço do gasóleo, e o facto trabalhar na borda (a palavra borda foi aqui propositadamente indicada) e não numa casa ao domicílio, é significado de não ter dinheiro para grandes deslocações. significará isto, que se vende perto do sítio onde vive.
questão: a família da puta não a encontrará na beira da estrada? e vendo-a, o que pensará? olha ali está a minha prima-sobrinha-tia a pegar agora ao serviço?

estranho mundo.
depois, mais estranho que este confronto de terceiro grau entre eventualmente a puta e a sua família são as questões de logística da coisa: uma puta de beira da estrada terá um kit de higiene? ou será assim, tudo a avacalhar? assim, lubrificando de um lado para o outro?
questão legítima que qualquer pessoa pode colocar. se pensarmos no assunto e não nos deixarmos influenciar por preconceitos e nojos.
fiquei sobretudo a pensar, porque a puta que eu vi era nova. tinha uns dezasseis anos, ou cara disso pelo menos. e estava ali, do lado da estrada, a olhar com ar vazio, na primeira chuva da tarde. há minha frente o filho de mil carros ferrugentos de um veiculo vermelho, virou para o lado esquerdo, sem fazer pisca. quase que lhe batia, também distraída a olhar a puta. e um pouco mais à frente um senhor vendia, veja-se a poesia do assunto, batatas.
o homem do veículo saiu, a puta foi ter com ele. depois não vi mais nada, que cheguei ao fim da recta. lembrei-me apenas que aqueles quilos todos de carne, que ela ia vender de barato, talvez tivessem mãe, ou pai, ou tios, ou caraças (reparem que não disse caralho) simplesmente alguém que um dia, andou com ela ao colo e sorriu, por tê-la posta no mundo de graça.
e ela, vende-se, pelo sítio idêntico onde nasceu.

é isto.

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