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da participação

por M.J., em 30.01.15

e pronto, como o prometido é devido, eis que fica aqui o poema, na tentativa de que se enquadre em poesia contemporânea, com que vou tentar fazer parte dos mil poetas portugueses que falei atrás:

 

ode ao sono e ao sonho

 

são três e meia da manhã

e não consigo dormir

ouço o vizinho a mijar

e só me apetece fugir

 

dei mil voltas na cama,

mudei o pijama.

tirei as meias,

contei as teias.

chove lá fora,

quero-me ir embora.

ele puxou-me os lençóis,

isto não chega para nós dois.

se não pára de roncar,

asfixio-o até se calar.

 

é por isso que desisto,

da tentativa de dormir.

vou tomar alprazolan,

e a seguir conduzir.

 

e se fores como eu

e o sono para ti é tudo

toma este medicamento

desde que não tenhas glaucoma de ângulo estreito agudo.

 

 

 

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sim, sim, vou editar um livro!

por M.J., em 30.01.15

uma vez, nos meus longínquos vinte anos, enviei uma merda que tinha escrito para a chiado editora. era quase uma criança com um sonho prestes a ser concretizado pois lera na net que uma editora estava disposta a receber as merdas que escrevíamos e as editava caso achasse que tinha qualidade.

e sim, propuseram-se a editar as minhas tretas (só de as ler agora quase que morro de vergonha) desde que eu comprasse, depois, uma série de exemplares (acima dos duzentos e cinquenta). basicamente era o meu pagamento por ver as minhas letras impressas.

achei aquilo obtuso e comecei a escrever num blog.

a questão é que desde essa altura sou presenteada no meu mail com coisas lindas como "cursos de escrita criativa: vinte euros por mês e torna-te o próximo m. tavares"; frases do chagas, muito bonitas, nada repletas de lugares comuns e numa literatura lindíssima (“o orgasmo devia ser considerado serviço público e as prostitutas deviam receber louvores e reconhecimentos – não conheço nada que faça tão bem ao stress.”) e coisas como o e-mail que segue abaixo e que podereis apreciar:

 
"Caro(a) Autor(a),
 
É com muito prazer que a Chiado Editora anuncia que se encontra a organizar o VI Volume da Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea: "Entre o Sono e o Sonho". A selecção dos poemas a constar da obra será de Gonçalo Martins e o lançamento realizar-se-á em Março de 2015, celebrando o Dia Mundial da Poesia!
 
O objectivo da obra é ser verdadeiramente representativa do trabalho que os Poetas Contemporâneos Portugueses estão a realizar, pelo que, na continuação dos anteriores volumes, a obra irá antologiar mais de 1.000 Poetas!
 
Desta forma, estamos convidá-lo(a) a enviar um poema para que seja apreciado e, eventualmente, fazer parte do VI Volume da Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea: "Entre o Sono e o Sonho".
 
Para tal preciso que me envie, até ao próximo dia 5 de Fevereiro, um poema seu, que considere ser representativo do seu trabalho, com um limite máximo de 30 versos, contando com o intervalo entre linhas. O mesmo deverá ser acompanhado do nome de autor(a) que deseja que figure na obra, bem como a cidade de residência do(a) autor(a).
 
Aos Autores antologiados não será solicitada nem oferecida nenhuma contrapartida para a participação na obra, não serão igualmente ofertados exemplares da mesma.
 
Fico então a aguardar o seu poema.
 
Com os melhores cumprimentos,"
 
portanto, basicamente, todos nós podemos ser poetas contemporâneos (já existiram cinco publicações antes. c-i-n-c-o) desde que consigamos escrever um poema lindo. melhor que isso. todos nós veremos o nosso poema editado e poderemos comprar o livro onde aparece o nosso nome para mostrar aos amigos como somos bem.
ou seja, se o exemplar fabuloso onde escrevemos, e do qual nem sequer nos é oferecido um único para guardarmos como recordação, custar digamos... 20 euros (mil folhas é muita folha, ou quinhentas vá) os senhores da editora ganham, garantidamente, 20.000€ (para esta não precisamos de calculadora). e mais! possivelmente os avós, tios, primos, namorados e pais irão comprar o livro, no orgulho desmedido de o pôr na estante principal da casa, ao lado da enciclopédia adquirida a prestações, para mostrar a toda a gente que têm alguém na vida que é famoso, pelo que o valor garantido da editora aumentará. 
conclusão deste romance: sai para as livrarias um mamarracho gigante, a aumentar o ego do pessoal, num lucro desenfreado para uma editora que concretiza sonhos. não é bonito?
 
eu por mim, no respeito do tema, vou já fazer uma ode ao alprazolan, sem levar em atenção a bula, pois claro, que só pode ter trinta versos. 

ah o sonho, assim concretizado, numa pernada só!

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boa noite

por M.J., em 29.01.15

 

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estranhamente, repara, é como que se jamais tivesses feito parte da minha vida. e houve um tempo, tu sabes, foste tudo nela. amigo, irmão, pai, mãe. foste, naqueles anos de descoberta e crescimento o pilar vital que me suportou viva na desgraça que haveria de acontecer depois.

acredito, ainda hoje, que se estivesses do meu lado, anos mais tarde, a dor não teria atingido os graus que atingiu e tudo teria sido incomensuravelmente diferente.

recordo de ti todos os pequenos pormenores que uniram as nossas vidas. não penses que sou ingrata e me esqueci dos passos que demos, das confissões que trocamos, da aprendizagem mutua, dos abraços, das horas.

sei exactamente o tom dos teus olhos. que clareiam no verão, num verde quase translúcido e ficam vermelhos, às vezes, só porque sim. sei o cheiro do teu perfume ainda que não lhe consiga dar um nome. sei dos teus medos, se ainda forem os mesmos. sei dos teus defeitos. sei do teu sorriso, grande, num som que ainda me inunda, quando preciso de me lembrar de ti. e é sempre do teu sorriso que recordo primeiro.

lembro da tua voz. acredita que a sei na exacta tonalidade. sei das tuas ânsias. sei como precisas de rodear-te de pessoas, na certeza da aprovação por aqueles a quem te dedicas sem pedir nada em troca.

conheço melhor a tua bondade que a minha. acredito mais na tua inteligência que tu mesmo. tenho presentes todas as tuas qualidades. continuo a desculpar os teus defeitos. mais do que os meus. desejo, ainda que esconda, esqueça, calque, numa idiotice qualquer que me faz como sou, e tu sabes, que sejas incrivelmente feliz, mesmo que isso seja uma banalidade e tu estejas reservado para coisas extraordinárias.

por mais que o tempo passe, por mais que os anos se metam entre nós e as árvores vão mudando de folhas e os nossos cabelos fiquem mais brancos (e os teus inexistentes), por mais pessoas que nos cruzemos na vida, por mais objectos de que nos rodeamos, eu serei sempre aquela que te ouviu, longas horas, na angústia do não saber o que fazer. eu serei sempre aquela que te mostrou as incríveis capacidades que tinhas. eu serei aquela que te puxou ao limite para cumprires um objectivo. serei aquela a quem telefonaste centenas de vezes apenas para falar. aquela que abraçaste e secaste lágrimas. aquela que ensinaste a ser adulta. aquela a quem mostraste a verdadeira dimensão do amor fraternal e desinteressado.

e por mais palavras que não digamos um ou outro, por mais coisas que não saibamos um do outro, eu saberei sempre o tamanho dos teus braços e e tu saberás o dos meus, num abraço de irmãos, num dia solarengo, na véspera de mais um objectivo.

e eu saberei sempre da emoção, que não irás jamais esquecer, daquela luz, inexplicável, a descer sobre ti, numas escadas simbólicas, num dia de comemoração.

e tu sabes quem és e eu sei que tu, algum dia, de alguma forma, irás ler isto.

 

e para já isso basta.

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da dieta

por M.J., em 29.01.15

sim, sim, eu sei que o verão ainda está a anos luz de distância e que, se calhar, é um pouco cedo para corrermos todos ao ginásio, mas a verdade é que, mais uma vez, a gerência desta tasca está de dieta.

tudo começou num dia à noite, quase de madrugada, quando sem sono revia merdas no youtube (a sério meus senhores, atentem no youtube, melhor que qualquer canal de tv, excepto claro tvi, que não há canal nenhum no mundo que bata, quer dizer, talvez tlc) e uma senhora brasileira apareceu-me a falar de coisas fabulosas como "eu perdi trinta quilos em dois meses". é claro que fiquei a pensar que para perder trinta quilos a senhora tinha de ser, obviamente, uma espécie de bisonte com muito, mas muita carne, e que possivelmente as dietas seriam mais fáceis com ela. ainda assim, espantada com tamanha transformação, que punha mulher de biquini, sem uma rede de celulite nas coxas, abri o vídeo. e posso garantir, segundo ela, que todo o peso perdido, assim, evaporado que nem água choca em dias quentes de verão, deu-se devido à fabulosa dieta do limão.

encantada com tamanha coisa revolucionária, esta missionária aqui, a pretender mudar as vossas vidas, foi à procura da dieta, tendo o prazer inusitado de encontrar umas outras na pesquisa, que por amor a vós, passa a enumerar:

1- dieta do limão: consiste numa coisa muito simples. abastecem o frigorifico de limões e vão comendo-os como chocolate. quer dizer, não tanto assim, a não ser que sejam diabéticos chocólatras. sendo mais minuciosa a dieta é nada mais nada menos do que beber um limão (o sumo, evidentemente, que não sei muito bem como se bebem aquelas cascas) diluído num copo de água (e a doutrina divide-se quanto ao facto de ser morna ou gelada), em jejum. a quantidade de limões vai aumentando diariamente até chegar aos quinze limões, espremidinhos, de uma vez só. claro que como todas as dietas tem inconvenientes e no final pode acontecer uma de três coisas: i) o vosso figado se transforme ele mesmo num enorme limão que podem espremer também; ii) os vossos dentes estejam agora completamente fabulosos, sem esmalte, o que acabará por vos fazer poupar dinheiro em pastas de dentes; iii) o vosso estômago não aceita mais nada o que, bem vistas as coisas é bom, pois que ajuda no emagrecimento. e também quem é que precisa de fígado se pode perfeitamente caber num vestidinho fino, comprado nos saldos? hum, hum?

2. dieta da maçã, ou do abacaxi (analisei e vi que era basicamente a mesma coisa, ainda que com frutos diferentes). muito simples. basta comer uma maçã quinze minutos antes de cada uma das três principais refeições. ao comer maçã antes das refeições, as fibras da fruta agem promovendo saciedade, evitando que camam demais. ou seja, esta dieta agradar-vos-á sobremaneira porque podem, evidentemente, enfardar uns quantos milka de caramelo e avelãs desde que, evidentemente, comam uma maçã quinze minutos antes. e quem diz chocolate diz um belíssimo big mac com batatas fritas das grandes pois como todos sabemos a maçã ou o abacaxi estarão de prevenção, no nosso estômago, com grossas redes que envolvem todo o chocolate e o levam directamente ao recto, sem que o intestino consiga absorver seja o que for.

3. dieta da proteína. o céu para quem gosta de carne e nem por isso de arroz e massa e legumes. nesta os milagres são garantidos. as pessoas enfardam muita carne, poucos legumes e nada de hidratos (pelo menos numa primeira fase) e perdem quilos como quem perde cocó quando anda de diarreia. evidentemente que os rins não ficarão sobrecarregados nem nada. mas também, quem precisa de dois rins quando facilmente pode viver só com um? eu confesso mesmo que já pensei vender um, não só devido ao peso de que me livraria (e todas as gramas contam) como pelo dinheiro que podia ganhar.

4. dieta da água - só tenho uma coisa para vos dizer:f-a-b-u-l-o-s-a! quer dizer, é tão simples que basta beberem dois copos de água antes de qualquer refeição e emagrecem garantidamente. portanto, nunca mais terão de recusar um rojãozinho, uma alheirinha, um pastelinho de nata ou um arrozinho de cabidela se tiverem a capacidade de beber dois copinhos de água antes. a dieta não explica se pode ser água da torneira ou necessita de ser comprada numa garrafinha, mas podeis pesquisar.

agora imaginem que bebem dois copos de água com quinze limões juntamente com uma maçã antes de comer cada refeição só constituída por carne? tenho a certeza que ficarão enxutas! magras! divinas! de (a) morrer!

 

eu por mim encontrei a dieta certa que aconselho: jejum! jejum por uma semaninha para habituar o corpo à falta de comida. é evidente que a minha dieta tem possibilidades de ser quebrada sem que vá tudo por água abaixo. quer dizer podem comer uma dentada de qualquer coisa sempre que se sentirem desmaiar: uma dentada de uma empada de galinha ou uma dentada de esparguete à bolonhesa. se forem pessoas empenhadas em levar isto até ao fim depois de comerem a dentada deverão dirigir-se ao sitio mais resguardado possível e vomitá-la. mas se fizerem as coisas bem feitas o vosso próprio estômago se encarregará disso mesmo e, tenho a certeza, no final do décimo quinto dias estarão deslumbrantes, mais leves que nunca!

a não ser que morram. mas, nesse caso, ficarão sempre com a felicidade de ser a pessoa mais magra no vosso próprio funeral.

e isso não é bem?

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dos monstros

por M.J., em 28.01.15

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 (porque não sei quem sou)

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da descoberta

por M.J., em 27.01.15

podia ser cansaço mas não me sinto cansada. apática, talvez. sem sentido, com todas as certezas. perdida, completamente. não me arrependo minimamente da decisão que tomei e alterou a minha vida. mas ainda assim tem dias que não consigo evitar o "e se..."

ainda assim, descubro tristemente que à medida que vou envelhecendo encontro uma perspectiva maior na resolução dos problemas, olhando-os como um todo, numa maturidade que não sabia que tinha, perdendo o fulgor, o entusiasmo aliado ao desespero cego, como um todo, na ideia de que o agora é o passado, presente e futuro.

tarda nada tenho a sensação que ando por ai a bambolear-me numa barriga gigante e a dizer frases como "as crianças são o melhor do mundo".

espero que alguém me mande com um quilo de batatas nas trombas antes disso.

 

 

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publicado às 23:25

boa tarde

por M.J., em 27.01.15

 

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publicado às 12:34

do café

por M.J., em 26.01.15

cismei porque cismei, depois de jantar, que queria ir tomar café à rua. não vale de nada uma pessoa ter a porcaria de uma máquina de café e montes de cápsulas de marcas diferentes quando o que se quer mesmo é sair de casa, pôr a cabeça na rua e fingir que a vida é uma coisa catita.

saímos. logo na rua um deus que me acuda que não sabemos onde devemos ir. uma pessoa descuida-se e quando dá conta tem cinquenta anos e não sabe quais os sítios que pode frequentar, os que são recomendados à sua idade, a uma segunda feira à noite, ficando indecisa no meio da rua, com a possibilidade triste de entrar num bar de adolescentes, repleto de fumo e alcool, quando o quer mesmo é um copinho de leite e bolachinhas.

como o frio apertava e não faziamos ideia de onde ir atracar o rabo, acabamos por decidir pela opção mais segura, onde era certo que nunca cairiamos no risco de sermos atropelados por cinquenta estudantes em praxe e fomos ao "chocolate, chocolate" que hoje me pareceu surrealisticamente idílico, as cadeiras muitos juntas, ornamentado com flores, ursos e canecas de chocolate, um gato extraordinariamente obeso numa poltrona e música clássica a ecoar ao fundo, num ambiente de total descontracção, como se a vida fosse fácil e pacifica, desastres não acontecessem e houvesse uma coisa tipo deus.

só porque o ambiente convidava esqueci-me da possibilidade de obesidade mórbida, diabetes de tipo três, ataques cardíacos e botijas de oxigénio e enfardei um crepe com chocolate e morangos.

acabei por não tomar café.

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publicado às 22:50

da constatação

por M.J., em 26.01.15

pior que ser meramente comum, como eu, é ser nada mais do que comum pensando sempre ser extraordinária.

 

andei uma vida toda enganada.

como que coberta por um pedaço normalíssimo de inteligência, a destacar-se num mundo de labregos e particularmente iguais aos outros todos.

julguei, numa ingenuidade triste só concedida aos tolos, que era um pouco mais:

  • um pouco mais sensível.
  • um pouco mais objectiva.
  • um pouco mais inteligente.
  • um pouco mais liberal.
  • um pouco mais culta.

e alimentei isso, como a minha vizinha da frente alimenta os gatos vadios da rua, na procura da sobrevivência.

 

uma merda muito triste.

 

a verdade, que dói como mil putos aos gritos na hora antes da sesta, é que sou banalíssima, sempre fui banalissima e nunca tive motivos para acreditar no contrário.

 

nunca ninguém me mandou um postal de amor.

fui sempre das últimas a ser escolhida nas aulas de educação física.

o meu primeiro amor adolescente trocou-me pela minha melhor amiga.

o namorado que jurou amar-me para sempre mandou-me um valente tacho de óleo a ferver nas trombas quando fiquei doente.

sou completamente obtusa nas relações com pessoas. quer as conheça bem ou mal.

agarro com força gente que gosto até as empurrar vida fora numa espécie de bungee jumping.

tenho vontade, às vezes, de atirar contra paredes miúdos irritantes que guincham aos meus ouvidos em situações inusitadas. ou as suas mamãs.

detesto frases feitas.

detesto livros da treta e vejo reality shows e todo o tipo de tv do mais baixo nível, só para me rir, como uma labrega, a boca toda aberta, da estupidez humana.

não gosto de fazer exercício. não gosto de gente que me manda fazer exercício. ou que inunda o facebook com fotos de exercício.

 

e sei, como sei das merdas todas que escrevi atrás, que estou condenada a acabar aí, num centro social qualquer, depois de resgatada da rua, a dizes caralhadas a todos os filhos da puta que me disserem que estou naquela situação porque decidi não parir, não fazer exercício físico, nem aturar as pessoas que tentaram com força fazer parte da minha vida.

 

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