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o começo

por M.J., em 31.10.15

não creio que o resto do mundo seja assim mas perco o rumo com muita facilidade.

é sempre da mesma forma. o que antes me fazia rir às gargalhadas torna-se indiferente; um sabor que me acalmava dores e horrores torna-se insípido; uma música que me fazia sentir paz transforma-se num remoinho de sons irritantes que me consomem paciência. quando me apercebo não gosto de onde estou e o que era antes um objectivo torna-se desprovido de qualquer importância.

fico cansada. custa colocar um pé à frente do outro, no seguimento as horas. os dias são grandes de pequenos. em nada sinto consolo ou objectivo. deixo de sentir o sabor do chá: não me aquece a alma como me aquece o peito. afasto com uma barreira impenetrável gente, conhecidos, amigos. afasto-me dos outros porque só me afastando dos outros me afasto de mim. constato tudo o que podia ser e não sou, o que podia ter e não tenho, onde podia estar e não estou. durmo mais horas. como mais ainda que tudo me saiba ao mesmo. 

começa sempre da mesma forma. 

não queria nada que recomeçasse. 

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tem dias que me sinto tão perdida que jugo ser incapaz de me sentir diferente. como será saber de onde, onde e para onde se vai?

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mas, assim como assim, deixo as linhas orientadoras cá do sítio:

 

há sardinhas assadas no tempo delas. o vinho é carrascão feito em lagares de aldeia pelos homens de barba rija. que ainda os há. há sempre pão fresco que o padeiro passa todas as manhãs. no expositor alinham-se moelas, rojões, pataniscas e iscas de fígado. às sextas acrescenta-se rissóis e bolinhos de bacalhau que se tem de aproveitar as sobras das semanas.

temos clientes habituais. uns que estão sempre no canto, em pares, a jogar à bisca. e à sueca. como ficamos em frente a uma paragem de autocarros costumam ir à porta, por volta do almoço e às seis da tarde ver as miúdas que vêm do colégio. que elas agora usam decotes e mini saias e muitas carnes à vista pelo ar.

é bonito.

quando os velhos chegam, de manhã, bebem bagaço, escarram para o chão e palitam os dentes com um palito que está invariavelmente posto atrás da orelha. quando está frio e chuva agreste de inverno sentam-se em frente à salamandra do canto e tiram as botas esticando os pés, em meias esburacas, para as brasas quentes. um cheiro ácido de chulé espalha-se pelo ar enquanto reviram as botas e tiram as meias.

fala-se do tempo, de politica e de futebol. às vezes comenta-se as vergonhices da aldeia ou as novidades da serra. no verão os velhos saem para a árvore da esplanada, sentados nuns bancos de pedra a jogar dominó. bebem lentamente copinhos de vinho mau e cervejas servidas em copos fundos, muito sujos, muitos gordurentos. têm todos conta no tasco, apontada numa letrinha miudinha num caderno seboso. pagam invariavelmente ao fim do mês depois de ir aos correios levantar a reforma. 

a dona do tasco bamboleia-se no espaço com gosto. tem o cabelo apanhado no alto da cabeça e põe as mãos no bolso, em frente à porta a ver as vizinhas. serve o vinho aos velhos que nunca lhe levantam a voz, nunca a desrespeitam numa cumplicidade de parolos. às vezes espanta as moscas que teimam em pousar nos pratos, nas pastilhas gorila, na máquina de café. quando tem tempo limpa os copos, muito devagar, com o mesmo pano. lança grandes frases e sentenças do alto da sua ignorância e sorri muito, ri mesmo alto com os poucos clientes que vão passando numa caridade simpática.

(e às vezes, depois de jantar, quando os velhos vão para casa dormir cedo, põe a tocar samuel barber, stravinski e outros que tais enquanto lê eça, saramago e outros que não são tão chiques bebericando chazinho com os lábios muito esticados. nessa altura a tasca está deserta e não evita sentir, mesmo na sua solidão, uma completude de paz. e pergunta sempre, muito pensativa, do que vai fazer agora à vida.

arruma a resposta com um encolher de ombros murmurando um sei lá.)

 

assim é a tasca. quereis mesmo passar por aqui?

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#rumoàfamaàglóriaàriqueza

por M.J., em 30.10.15

descobri agora que me falta um gato, uma polémica de futebol, uma gaja nua e uma foto viral, de um concurso para partilhar.

 

porra, porra, porra, porra.

 

E AGORA?

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 (não têm de quê).

 

#rumoàfamaàglóriaàriqueza.

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*olha os fãs a chegar, olha eles a vir todos, em resmas! é hoje meus senhores, é hoje.

 

a liliana aprochimousse dele e disse que queria.

ele decidiu precionar o seu membro dentro do centro dela para fazerem o amor.

acontece que ela era muito apertada pelo que ele teve muito cuidado antes de se derramar dentro do seu centro encaracolado. depois deulhe com um sinto pra mustrar que a amaba.

quando terminaram ela não tinha mais folgo mas não queria que acaba-se.

 

ele levantousse, deichou cinco euros em cima da mesa e foi embora. 

fim. 

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tem uma dedicatória especial*

 

 

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queria dizer-vos uma coisa

por M.J., em 30.10.15

hoje é sexta.

acho que se começar a entrar na corrente esta coisa torna-se mais famosa.

daqui a um bocadinho venho aqui deixar-vos Toni.

mais logo uma citação do cifras e depois mais para o fim actualidades dos três programas em horários nobre dos domingos.

para finalizar o dia vou presentear-vos com as promoções do pingo, do continente, do mini e do lidl.

 

hoje cinco gatos pingados... amanhã o mundo.

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tenho a certeza que este antro

por M.J., em 30.10.15

nunca passará a botique. 

que dizer, cento e trinta e oito likes no facebook? quando a outra tem quase dois mil?

ora porra! estou aqui estou a servir-vos bolinhos de chocolate, em pratinhos gigantes, com riscas pretas em vez de pataniscas e copos de vinhaça da boa.

se não me espera a glória, se não me espera a consideração dos meus pares, se não me espera a admiração dos clientes de que vale alimentar a puta da tasca?

 

já nem um haterzinho? nem uma?

oh foda-se. estou aqui, estou a suicidar-me. depois, não vale a pena virem para a minha campa, com crisântemos fora de moda, secos nas folhas, a chorar pela minha falta.

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bom dia e até logo

por M.J., em 30.10.15

 (obrigado. faz agora parte das minhas orações. mais sentidas que avé-marias).

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