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estava com dor de cabeça

por M.J., em 31.05.16

usei o amigo google para pesquisar sintomas do zika, visto que cabo verde tem disso.

neste momento, depois de ler os sintomas, não tenho só dor de cabeça. também me dói o corpo, tenho rigidez na nuca e posso jurar que vi aparecer três erupções cutâneas ali no braço, que desapareceram quando olhei com mais força.

não tenho termómetro mas sei que se fosse ver da febre estava cheiinha dela até aos olhos.

ah! por falar em olhos também sinto uma ligeira conjuntivite no esquerdo.

tudo no espaço de cinco minutos.

 

vou morrer.

VOU MORRER!

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em cabo verde... #1

por M.J., em 31.05.16

amanhecia tão cedo que, quando me levantava efectivamente, às sete e meia da manhã, já era tarde.

as nuvens corriam no céu à velocidade dos sorrisos. a vida repartia-se entre piscina, sol, praia e livros. estou agora a escamar pele no nariz e a diferença de cores no meu corpo, entre a pobre da pele que apanhou sol e a que não apanhou é tão grande como aquela senhora que vi no avião, na volta, com a cara preta e todo o redor dos olhos absolutamente branco, dos óculos.

juro que se me visse assim ao espelho tentava, no mínimo, uniformizar a coisa com base e, no máximo, nunca mais tirar os óculos de sol. nem no banho. ou na cagadeira.

 

no dia em que saímos do hotel, turistas armados em bons, água na mochila, em cima de uma pick up tivemos a sorte de encontrar um guia fantástico que nos fez partilhar a viagem com mais quatro pessoas.

não falava mais do que o estritamente necessário nem vendia banha da cobra.

as coisas eram como eram. agrestes. abafadas na sua aridez. sem nada. excepto cabras, areia e blocos de cimento.

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todas as cabras têm uma marca, disse-nos ele, mesmo aquelas que vagueiam sozinhas. algumas trepavam até ao hotel, para gáudio da turistada que lhes dava pão até vir um funcionário expulsá-las.

na primeira povoação onde paramos percebi que tinha a bexiga a dar de si. as possibilidades não eram muitas. tinha as casotas dos senegaleses que nos queriam impingir coisinhas à força. "bares" com matraquilhos e pessoas às portas. e cães, muitos cães, quase tantos como as cabras, deitados por ali.

depois de ponderar ir atrás de uma moita, encontrei casas de banho ao fundo da povoação (velha). à entrada uma senhora com uma criança ao colo disse-me somente "um euro". estendi-lho a assumir que se pagava. o guia disse-me depois que não. mas percebi, na mesma altura, que numa ilha onde o salário mínimo é de cento e cinquenta euros, um euro para mim não fazia grande diferença e para ela podia fazer toda.

não me queixei.

quando voltamos a circular, no meio do deserto, areia, pedra, areia e mais pedra, um castanho constante a inundar as vistas e a alma fui aos poucos deixando-me inundar por uma pequena depressão. era então aquela ausência de árvores e verde, de pessoas e cores que me fazia sentir abafada, pequena e ao mesmo tempo esquecida. de vez em quando, no meio do nada, como que ali plantados da mesma forma que as pedras, homens mandavam com enxadas no chão. ou picaretas. não sei. não percebi o motivo mas assumi o calor nas costas, a aridez, a desolação de tal trabalho.

meia hora depois a praia de santa mónica quebrava o castanho, num nome em desrespeito pelo local (o nome original da paria era "curralinho" até alguém se lembrar que santa mónica, por ser mais parecida com os states era melhor).

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o turista é impiedoso. apropria-se das pessoas, dos lugares e muda-lhes o nome. encolhe os ombros. dá trabalho aos locais, mata-lhes a fome e por isso pode mudar nomes antigos, alterar demografias e circular com a cabeça erguida de "quem faz o bem sem olhar a quem". sempre com muito boas intenções para conhecer e ajudar a povoação. como aqueles meus colegas de viagem que, na povoação em que paramos antes da praia, entraram dentro do jardim infantil e escola primária, com ar curioso, pouco se importando se aquelas crianças mereciam a privacidade de estarem a ter aulas. apenas porque podiam. apenas porque eram os turistas e, logo, podiam entrar, fazer perguntas, interromper e tirar - meus deus, nem acredito - fotografias, assim, num constante ininterrupto de flashes. 

aos poucos, a alteração da paisagem, ora castanho seco ora verde do mar foi-se-me entranhando até aos ossos. sentia-me asfixiada, um pouco calcada pela dimensão maior do que eu.

almoçámos num restaurante local. os meus colegas de viagem encetaram conversas com o guia. uma beleza que só visto. diziam coisas como "ah, lisboa sabes, a capital, uma cidade muito grande..." ou "nós também temos ilhas, sabes, os açores, que são um arquipélago formado por ilhas..." explicando as minúsculas coisas, como se o guia não tivesse televisão, como se não passassem os nossos canais por lá, como se eles não falassem o português e como se fossem de tal forma incultos que não soubessem o que eram os açores.

o almoço caiu-me mal. 

a tarde não melhorou grande coisa.

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não sei de onde veio a moda

por M.J., em 31.05.16

mas esta coisa de viver os lugares, os concertos, os momentos através de uma câmara fotográfica, com poses e ar feliz, sempre em constantes flashes, dá-me comichão nas palmas dos pés, enrodilha-me as unhas e espiga-me o cabelo.

não percebo.

as pessoas deixaram de ter memória ou perderam a capacidade de ver sem ser através de uma lente?

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houve casório #5

por M.J., em 31.05.16

quando a cerimónia acabou e nos dirigimos à sacristia para assinar os documentos da praxe, os padrinhos atrás, padre à frente, noivos no meio, o raio do vestido a passar por cima das velas, o rapaz a mandar pontapés às ditas e a calcar o vestido, tive o primeiro embate das pessoas que por ali estavam. não conhecia algumas. creio, na verdade, que não conhecia a maioria porque não tinha capacidade de ver ou conhecer ninguém. 

sejamos francos. sou uma anormalidade social e naquele momento vestia de branco e tinha velas no caminho. dezenas de pessoas espalhavam-se pelos bancos. a olhar. a mim. a noiva, pelos visto, com ar travestizado e brilhantes no cabelo. tudo junto para correr mal.

assinamos a papelada com ar estranho de quem não sabe o que nos espera, como numa situação social insólita em que fomos ali plantados sem perceber as pequenas nuances, as pequenas coisas, o passo seguinte. 

à saída o coro cantava aquele que é o meu fado.

as pessoas reuniam-se à porta e uma chuva de pétalas de flores caiu-nos na cabeça. nem um único grão de arroz. o fado continuava em pleno. fotografias e pessoas. irreal, de uma irrealidade extravagante. queria dizer olá a todos. explicar, atabalhoadamente que os queria ali todos e que estava eufórica por terem aparecido. subir novamente ao altar e dizer ao mundo, como um primeiro ministro recentemente empossado que seguiríamos juntos no projecto seguinte que era enfardar até cair. fiquei ali plantada, com sorriso amarelo, boca aberta até à campainha, a olhar os senhores do fado.

no fim, contrariamente às regras, bateu-se palmas. 

 

 

A noiva dos girassóis. #vaihavercasório

Uma foto publicada por Maria João (@emedjay) em

 

nota: bem sei que é um relato confuso, que só se fala disto nesta espelunca e que nunca mais se muda de tema. mas acreditai: escrevo para mim e para eternizar memórias, também aqui. estou-me minimamente a lixar se estão agradados ou não, com o relato.

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oh vai ver ali:

estou aqui a pensar na minha vida

por M.J., em 30.05.16

e tenho tanto que escrever que não sei por onde comece.

se calhar passava a bola para os senhores.

perguntas. alguém tem?

 

respondo às que entender serem perguntas com resposta.

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Vá, confessai-vos

por M.J., em 29.05.16

Foi um descanso para os vossos olhos esta minha ausência, não foi? Nada temeis! Não volto tão cedo.

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O tuga, ah o tuga!

por M.J., em 25.05.16

O tuga marca as espreguiçadeiras do hotel com vista para o mar, logo de manhã passando lá dois minutos dia.

O tuga é o primeiro a entrar no restaurante seja para o pequeno almoço, almoço ou jantar.

O tuga bate palmas com o corpo todo, logo ali nos cotovelos bamboleando a barriga com força.

O tuga olha com avidez para a comida do "tudo incluído" batendo o pé com impaciência quando o inglês da frente se serve dos camarões, acabando mesmo por dizer entre dentes "daqui a bocado leva-os todos".

O tuga dá nomes às filhas de Constança e Benedita mas finge que não vê quando elas guincham aos ouvidos dos antónios e manéis.

o tuga vai ver o espectáculo de música e dança da animação do hotel e depois de bater palmas com os cotovelos diz "até se esforçam, coitadinhos".

O tuga, ah o tuga.

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São oito da noite

por M.J., em 24.05.16

Calcorreei praia virgem.

Tive uma menina de um ano cheia de tranças no cabelo sentada no meu colo sem eu pedir, apenas porque se agarrou às minhas pernas sem medo.

Temos comido como se o mundo fosse só hoje.

Há um escaldão nos ombros e o tempo caminha em passo lento e escuro, gingando ao som da música que entoa e lembra luz e sol, sal e mar.

Há uma simplicidade mesmo no olhar daqueles que vestindo a farda no hotel são ensinados a ser diferentes.

Paramos na povoação mais velha da ilha.

Cinco crianças brincavam com dois cães. Sorriam com os olhos e o corpo.

O tempo demora.

As nuvens correm.

Estou apaixonada.

As coisas pequenas da vida todas completas em gargalhadas de sol.

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Podia tirar uma foto melhor #2

por M.J., em 23.05.16

mas não me apetece.

(já percebi: às sete e meia da manhã está sempre este tempo).

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mas não me apetece.

e não, não está frio apesar do cinzento.

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