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(noi)telegrama

por M.J., em 31.08.16

no sofá a ouvir "no fim do céu" em loop. Absurda sensação de vazio. Detesto estar tanto tempo com pessoas. Assusta-me perceber as suas merdinhas, vidinhas e coisinhas e perceber que, mais cedo ou mais tarde, acabo igual. Chocolate sem açúcar da canderel. O livro dos Baltimore vai a meio. Passei dia com sono: ceterizina tomada a meio da noite por crise alérgica deu sono o dia inteiro. Se houvesse a capacidade de apagar aquele pedaço de cérebro que nos mantém memórias, pessoas e coisas que precisamos de descartar...

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oh vai ver ali:

o "michel tu vas tomber" tenho - pasmem-se - a capacidade de sentir empatia por aqueles que sentem saudades das saudades do tempo em que não havia saudades porque se estava em casa.

 

até para o ano a quem vai. 

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os compromissos da vida

por M.J., em 31.08.16

sou uma medricas da eternidade.

olho para mim e o meu percurso nas cortinas da vida e questiono-me da motivação para cada compromisso tomado, para cada salto dado, para cada pedaço de responsabilidade que assumi. há alguns muitíssimo claros, outros muito dúbios e ainda aqueles que afirmo, juntando os dois pés quase num saltinho, que não assumirei jamais.

uma medricas, diz-me a mamã, sem compreender. 

uma medricas, é certo.

assusta-me o definitivo. não ajudou nadinha de nadinha a minha formação académica nem experiência profissional. não ajudaram as dezenas de execuções feitas em nome de bancos ("e depois, sabe, o ideal era mesmo comprar casa, uma pessoa "ajuntou-se", assentou na vida, ia pagar renda o resto do tempo? o banco emprestou mas agora... como? o que é o spread?"), as dezenas (quase centenas) de insolvências ("a conjectura, foi o que foi, que fiz tudo a pensar na família. correu mal o negócio mas se corresse bem era para todos. o que é isso da exoneração do passivo restante? tenho de dar dinheiro a quem?"),  os mil divórcios ("oh, sabe como é, há sempre qualquer coisa. uma pessoa descobre que afinal não somos o testo da panela e agora temos de nos desfazer da casa mas enquanto não aparece comprador vivemos nela, os dois, e eu até já lhe perdi o medo... quanto é que se paga à conservatória? tanto? e se ele não quiser assinar os papeis e for para tribunal?"), as inúmeras regulações de responsabilidades parentais ("como? cento e cinquenta euros de pensão de alimentos? está maluca? mas algum dia o meu filho precisa de trezentos euros por mês? isso é para mantê-la, é o que é, e eu cá não encho a barriga a pançudos)... entre mil coisas.

 

assusta-me porque, na maioria das vezes, a corda parte do lado mais fraco.

parte do lado que assumiu os encargos ("repita lá isso!? o banco fica-me com a casa e eu ainda tenho de pagar o resto da dívida? então mas se me emprestou o dinheiro para comprar a casa..."), do que acreditou no negócio ("tenho de dar o meu rendimento a um fiduciário? mas quem é esse? mas porquê?), daquele que não tendo culpa nasceu das loucuras (às vezes amor) de dois adultos que mal sabiam o que é sacrificar-se por um terceiro ("não o vejo há seis meses. a mamã diz que se ele não paga não tem direito a estar comigo".)

 

assumo que não tenho a maturidade para comprar casa.

não tenho a estabilidade emocional (nem onde cair morta, verdade seja dita) para passar uma vida inteira a pagar por quatro paredes. e se um de nós desistir? e se um de nós acordar uma manhã, pegar na mochila preta e for ver o mundo? sabem quantas pessoas o fizeram? e se o desemprego bater à porta?

e se... e se... e se? 

não tenho a capacidade definitiva de trazer ao mundo um pedaço autonomo de mim. e se a doença voltar? e se perceber, de um trago, enquanto bebo uma cerveja, que ainda não vivi metade do que era suposto e não o posso fazer com um ser nos joelhos? e se tomar consciência que seria muito mais feliz, muito mais livre e sem amarras, se não tivesse aquele pedaço descomunal de responsabilidade a depender do que sou?

e se acabar, como tanta gente - mas tanta - na contradição do dizer (e sentir) que gosto muito do puto - o mais importante da minha vida - mas tudo seria muito mais fácil sem ele?

 

ninguém pensa nos e ses da vida? ou serei eu que penso tanto neles que me assumo total e completamente incapaz de alguns compromissos eternos que não têm a mínima possibilidade de serem revertidos?

ninguém vê os telhados do vizinho a arder?

assume-se, com encolher de ombros, que tudo se faz, tudo se paga, tudo se cria, para tudo há uma solução, até para a morte (que passa por morrer)?

 

acredito - claramente - que deixar-nos bloquear pelos e ses das inseguranças incapacita a vida. 

mas tomar decisões estruturantes sem olhar para nenhum deles, assumindo que somos diferentes, especiais, melhores, maiores, mais fortes, mais capazes, mais eternos, é tão ingénuo como a história do porco que queria ter asas.

 

equilíbrio é o caminho, não é?

é que acreditem, nas mil atrocidades que fui vendo na vida, não houve nunca - e foram tantas minha santa inácia - uma pontinha que fosse de equilíbrio.

não houve nadinha de pensamentos dos "e ses".

e a conclusão nunca foi bonita. 

 

[1. sim, meus senhores, casei! sabem quantas noites passei a pensar nisso antes de o decidir? quantos e ses pus em cima da mesa?

2. para que fique claro: nenhum dos diálogos entre parêntesis existiu realmente.]

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oh vai ver ali:

o mesmo estado que quer que os senhorios sirvam de estado social, congelando as rendas de idosos, deficientes e afins (pouco se importando que o senhorio entre também nessa categoria) é o mesmo que entende que nosso senhor jesus cristo é tão pobre que não pode pagar IMI das suas milhentas propriedades?

é, não é?

 

e aquela coisa do estado laico e afins?

 

portanto cai-se em cima dos capitalistas ricalhaços dos senhorios, esses fascistas hediondos e salva-se a fé na pobreza e despojação de bens materiais?

 

estou tão confusa!

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talvez ainda não saibam...

por M.J., em 30.08.16

mas há #banalidades

 

há cedros erguidos em morte anunciada como vista da varanda #banalidades

A photo posted by Maria João (@emedjay) on

 

e #telegramas 

 

 

#telegrama

A photo posted by Maria João (@emedjay) on

 

no meu instragram.

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E então MJ?

por M.J., em 30.08.16

Já fizeste amiguinhos nessa tua nova ocupação?

NÃO.

 

Deus! Já me tinha esquecido da dificuldade de não revirar os olhos constantemente.

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é mais ou menos isto

por M.J., em 30.08.16

depois de anos de terapia - sim, sim #soudessas - descobri algo que se tornou essencial na permanência dos dias e na continuação da vida sem me despedaçar em trevas: a inutilidade do sentimento de culpa.

a não ser que o usemos para nos martirizar, para despedaçar a consciência tranquila, para não adormecer, para sentir montanhas de peso nos ombros, para nos impedir de ter perspectiva factual sobre as coisas... a culpa não serve para nada.

é um peso morto. um pedaço de peso a lembrar pedregulhos de granito, a encurralar-nos a visão clara das coisas e a fazer tremelicar a água do reflexo límpido dos acontecimentos.

e às vezes, meus senhores, é tão mais fácil intoxicarmo-nos dela, na impotência do baixar os braços e permanecer num canto escuro, lambendo feridas e desistindo de arregaçar as mangas que só vos posso dizer:

comei o filho de duas traças sifiliticas do chocolate sem pensar em mais nada!

 

a ponderação sentimental é antes de o comer! não depois!

 

 

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publicado às 09:31

(noi)telegrama

por M.J., em 29.08.16

acordei cedíssimo. ainda nem havia luz. café com pão de centeio e queijo fresco. novo café na pastelaria debaixo de uma das torres mais feias da cidade, cheias de apartamentos: numa varanda uma mulher tirava macacos do nariz. num dos apartamentos do rés do chão, uma outra muito gorda atirava comida a gatos vadios.

almocei tarde: novo café - junto com bolachas sem açúcar - na varanda com cigarra em banda sonora.

lanchamos gelado depois de uma das reuniões. 

comecei a ler "o livro dos baltimore". detestei "lua de mel em paris" (iniciativa livro secreto): definitivamente boicoto romances de cordel. 

ouvi amália enquanto fazia o jantar. 

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oh vai ver ali:

juro!

por M.J., em 29.08.16

critico - de alguma forma - gente que escreve blogs para obter latas de feijão em troca.

 

depois, percebo que seja para isso, seja para pensos higiénicos, seja para viagens à brandoa, desde que assinalado, ninguém tem dois chavelhos furados a ver com isso. 

vir alguém do alto da sua sapiênica - como eu o faço (já estou a chicotear-me)- dizer que "não podemos escrever com o objetivo de ganhar dinheiro" é a mesma coisa que dizer ao bobi que não pode lamber os tomates com o objetivo de os ver crescer.

lá lamber pode. não quer dizer é que cresçam!

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há uns anos valentes encontrei uma conhecida numa choradeira sem fim por que, segundo me disse entre soluços - um dos seus filhos tinha sido alvo de um castigo cruel no jardim infantil.

munida de um espírito crédulo - e ainda distante dos exageros femininos actuais no que diz respeito às próprias crias - fiz um filme desmesurado na minha mente. imaginei a criança alvo de palmadas quase em sangue, ostracizada dentro de um armário ou com o dedo apontado por todos em uníssono a dizer "tu és burro(a)".

 

vai-se a ver e não foi nada disso.

 

a história é rápida:

a criança - naquele dia de poucas abelhas - decidiu que a sopa de repolho não era do seu agrado (acreditai, nunca era do meu e cheguei a pôr goelas cá fora quando me obrigaram a deglutir tamanho acepipe) e começou a espalhá-la pelo chão. uma colherita agora, outra daqui a bocado e outra daqui a dois minutos. não satisfeita, quando a educadora a mandou parar, pegou na colher e vai colher e sopa e prato nas trombas da mulher.

poderia ser eu com alterações hormonais, mas não. 

 

 

a professora, educadora ou lá que se chama, de sopa nas trombas, decidiu castigar a criança de uma forma original: o resto do almoço foi passado em pé, de cara para o chão a ver a sujeira que tinha feito, comendo o resto da sopa, que - tendo em conta a posição - até desceu mais rápido. 

pois meus senhores, na mente daquela mãe, obrigar o(a) seu/sua filho(a), anjo de candura e de inocência, a engolir o repolho em pé quanto todos os outros estavam sentados era uma tortura quase comparável a chuveiradas de gás tóxico.

o problema não era obrigação de comer o repolho mas ter de o fazer em pé.

(vai-se a ver e era a preocupação pelas dores das artroses dos joelhos, que a idade não perdoa). 

 

uma tragédia dolorosa a clamar por indemnizações, interdições de funções, incapacidades para o exercício de profissão sensível que obriga ao amor invés do castigo.

uma atrocidade daquelas merecia a julinha, o goucinha e o hernâni (lembrei-me agora que uma vez ameaçaram levar-me ao hernâni e foi só por isso que soube quem era. saudosos tempos) e toda a opinião pública a clamar em manifestações de nojo a dor da criança por ter passado vinte minutos em pé a comer.

 

lembrei-me disto porque, feita tola comentei há umas semanas com uma recém mamã a história - só os factos sem a minha opinião pessoal. pois meus senhores, a mamã olhou-me com instintos assassinos:

"e essa educadora continuou em contacto com crianças?" perguntou, quase em sobressalto, imaginando que aos seus anjos poderia ser imposto tamanha coisa.

 

não entendo.

desde quando nos tornamos tão exagerados que achamos que um castigo, uma palmada no momento certo, uma proibição, um não, o "ficas em pé até perceberes que não se desperdiça comida" é uma atrocidade? desde quando transformamos crianças em objectos inertes, com incapacidade de passar por frustrações, por dificuldades, por limites, por imposições?

quantos de nós apanharam nas trombas por serem mal educados? ficamos traumatizados? quantos de nós ouviram dezenas de nãos? foi tão marcante que nos obriga a ir ao psicólogo hoje em dia? quantos de nós ficamos de costas contra a parede? quantos de nós fomos obrigados a comer o que não queríamos? não fomos, portanto, educados?

educar passa apenas por dizer sim, sim, ver a criancinha sorrir e passar à frente?

 

educar passa por tentar afastar uma educadora que, como castigo, pôs um puto de pé durante vinte minutos?

que devia ter feito ela? "menino mau! menino mau! não podes fazer isso mas se fizeres não tem mal por que qualquer coisa que eu faça ou diga é uma atrocidade quanto à tua personalidade! e mais a mais, alguma empregada de limpeza vai limpar a porcaria que tu fizeres!"

 

pois meus senhores: é essa ideia de que "toda a merda que faças vai ser limpa por alguém" que dá no que vemos: completa percepção de (falsa) impunidade. 

 

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oh vai ver ali:

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