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Dei de frente com duas adolescentes

por M.J., em 30.11.16

Na hora de almoço, na casa de banho de um centro comercial: cantavam alegremente, foram ambas à retrete, saíram, ajeitaram os cabelos, falaram de maquilhagem, uma passou cor nos lábios da outra e saíram. Por esta ordem. Nenhuma lavou as mãozinhas. Ai papás, papás que ensinam tão mal as crias!

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#30por30: trinta

por M.J., em 30.11.16

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oh vai ver ali:

dez minutos

por M.J., em 30.11.16

dez minutos de espera numa fila monumental perto de uma escola, porque os pais empancaram o trânsito a deixar os meninos.

dez minutos num dia sem chuva.

dez minutos porque um sem número de energúmenos acha que não há mal nenhum parar em segunda, terceira ou quarta fila se houvesse para deixar as crias que, cortadas nas patas, não podem caminhar dez metros.

já agora ponham os adolescentes com barba dentro de um carrinho e empurrem-nos até à sala, deixando indicações aos professores para, ao mudarem-lhes as fraldas, terem cuidado em não entalar os pintelhos.

dez minutos!

 

oh gente do catano!

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oh vai ver ali:

não sei.

por M.J., em 30.11.16

encolho os ombros em  cada ausência de pessoas na minha vida. sei - como sei tanto acerca de mim, mesmo não sabendo nada - que é uma defesa: as pessoas vêm, vão, ninguém morre por isso.

no entanto, tem dias, sou consumida por eternas dúvidas de como seria agora se não tivesse deixado ir quem queria, na época, que permanecesse comigo.

queremos sempre pessoas mais do que outra coisa, não queremos?

então porque encolho os ombros à sua partida?

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#30por30: vinte e nove

por M.J., em 29.11.16

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oh vai ver ali:

inverno

por M.J., em 29.11.16

há dois tipos de pessoas no mundo: pessoas inverno e pessoas verão.

eu sou uma pessoa inverno. de chuva e aquecedores, mantas e cachecóis e dias pequenos que se arrastam na noite.

árvores dançando na janela, despidas de castanho, erguidas em direcção ao céu, na clemência de uma vida nova.

chás quentes ao entardecer, queimando a língua, os lábios e as mãos.

lençóis lavados com chuva em prantos à janela.

chocolate quente polvilhado com lágrimas e lamentos da falta de sol.

comida no forno, manhãs inteiras, num cheiro de canela que se espalha pela casa.

mar revolto, em ondas bravas que rebentam na praia deserta de pessoas.

dias soturnos, cinzentos, despidos e vazios onde a mais pequena luz faz renascer sorrisos.

 

eu sou inverno a implorar pelo verão que nunca chega. 

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asfixia

por M.J., em 29.11.16

caio na falácia de achar que viver na aldeia onde nasci e cresci seria algo a pôr-me toda contentita.

descaio a cabeça ligeiramente para a esquerda, roo uma unha e ponho-me a pensar, toda tolita, que aquilo podia ser o paraíso se ligado a uma boa rede de internet e uma casa com vista para o rio.

depois a realidade atropela-me com a mesma força de um camião conduzido pelo kanye west paranóico e passa-me logo.

 

cresci rodeada de árvores no meio do nada.

para onde olhasse havia um manto verde e uma velha vestida de preto a opinar sobre a vida alheia.

a mulher era como a galinha, ao pôr do sol recolhidinha, e menstruada estava proibida de entrar no lagar, em altura de fermentação de uvas.

a violência doméstica imperava pelas casas como pó dos pinheiros.

vagueava-se livre na ida para a escola e encontravam-se colegas que andavam com piolhos no cabelo até ao ensino secundário.

falar da família do outro era passatempo nacional e na missa apontava-se, com sabedoria, fatos menos adequados. comentava-se, como quem comenta jogos de futebol, quem ganharia na rixa entre os grupos da terra e sabia-se de antemão quantos filhos tinha o padre que, no seu poderio provinciano, se recusava a crismar gente sem modos.

uma grandessíssima bosta.

mas sobretudo, o que me transformou numa adulta incapaz de lidar com a ansiedade normal dos dias, num temor do incerto, foi o crescer no meio da total incapacidade de olhar com perspectiva.

o mundo era traçado numa linha e cada desvio, por mais pequeno que fosse era maior do que uma guerra de proporções nucleares. tudo tinha o seu rumo e cada escorregadela era mais do que uma desgraça: ultrapassava mil refugiados mortos no mediterrâneo ou cinco mil criancinhas em agonias de fome. 

cada imprevisto, cada pequena coisa que não se podia ver (e tanta coisa era não era visível na asfixia das árvores de uma serra fechada) assoberbava os minúsculos mundos da vida onde a minha se inseria. 

sou uma pessoa tendencialmente difícil. o meu feitio assemelha-se a um dia nebuloso com pequenos raios de sol tendo em vista tempestades de trovoada. mas garanto, com a sinceridade com que me garanto coisas (não me minto na assumpção do que sou) que a ansiedade que não soube lidar foi-me inculcada na claustrofobia de uma vida fechada.

não. nunca seria lá feliz.

e é uma pena. 

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oh vai ver ali:

das coisas feias da vida

por M.J., em 28.11.16

pessoas com mais de trinta anos, vestidas para contexto profissional, a mascar pastilhas de boca aberta.

 

vacas a ruminar no pasto conseguem manter um ar mais profissional. 

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#30por30: vinte e oito

por M.J., em 28.11.16

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oh vai ver ali:

sem título

por M.J., em 28.11.16

morreram as flores nos olhos.

não há um ponto de alegria nas rugas do canto.

arrasta-se pelos caminhos. a voz envelheceu, as mãos envelheceram, a vida envelheceu, quase morta.

tem saudades tuas.

tudo nela luta para permanecer mas sente, diariamente, uma imensa falta dos teus passos. 

 

se a vês tens obrigação de lhe reavivar as flores do olhar e abrir estradas limpas nos caminhos que percorre pela tua ausência.

por ela avô, não a mates de saudades. 

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publicado às 11:30

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