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... não chega a jacaré.

por M.J., em 28.02.17

acho que já contei isto, mas permanece sempre atual.

 

quando comecei a trabalhar num escritório enquanto advogada estagiária, um mês depois da faculdade terminada, não me conseguia habituar ao selecto tratamento de doutora. era doutora por extenso, abreviado ou substítuido por colega para aqui, para ali, para acolá. como que fazendo parte do meu nome, numa espécie de prefixo que eu não acrescentara mas que alguém me colocara para me fazer lembrar onde pertencia agora. a validar-me porque sem ele eu não estava completa e só eu não chegava.

confesso que olhando agora para trás, era minha obrigação ter logo percebido: não estava talhada para a coisa.

 

assim, num almoço de domingo, comentei isso com a mamã, lamentando-me que não passava de uma serrana saloia e que nem a uma coisa supostamente boa achava graça e que não havia meio de me habituar e que às vezes chamavam-me e eu ficava sempre à espera que estivessem a falar para outra pessoa qualquer, olhando de soslaio por cima do ombro para confirmar. 

 

umas semanas mais tarde a mamã ligou-me para o telemóvel e não atendi.

como o assunto era urgente ligou para o escritório.

- estou sim - murmurou na sua voz mais doce - seria possível falar com a Maria João?

e a funcionária logo, pelo na venta, lição estudada, respeito não é respeitinho, de supetão:

- olhe, a senhora vai-me desculpar mas não trabalha connosco nenhuma maria joão.

e a mamã:

- ai desculpe, se calhar enganei-me no número.

e a funcionária, toque de mestre, uns quantos anos a ensinar maneiras às pessoas:

- ou se calhar queria falar com a doutora maria joão. é que, de facto, trabalha cá desde setembro a doutora maria joão...

e a mamã contente, toma lá que já almoçaste, estás mesmo onde queria:

- ah desculpe - a voz visivelmente atrapalhada - deve ser ela sim. mas sabe, quando eu a baptizei a rapariga ficou a chamar-se de maria joão. se agora mudou de nome para doutora e não me avisou vai ter muito que contar.

 

quem nasce lagartixa...

 

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oh vai ver ali:

há poesia na lingua mãe para acompanhar dias cinzentos.

 

(e outros)

 

baladas para um dia triste,

sempre que sentirem que ninguém sente o que vos dói.

 

(é consumir com moderação).

 

de nada. 

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publicado às 14:00

não sejas bicho do mato rapariga e vai à missa,

mas antes da missa era a catequese.

nós, que nos conhecíamos da escola, chegávamos mais cedo e ficávamos no átrio em correrias de brincadeira.

a catequista era uma miúda nova que se aperaltava na honra concedida e lia-nos o catecismo que comprávamos no início de cada ano.

uma vez cortei as imagens do catecismo todas, e colei-as num caderno velho, na minha própria história, ao lado de outras cortadas de uma revista que os senhores jeovás deixavam lá em casa, antes da mamã os expulsar.

de vez em quando, o senhor padre, calvo, afável, maneiroso, baixinho, pequenino, voz felina, barba feita perguntava-nos o credo, fazendo cara feia quando não sabíamos.

o padre está num lar, faz mais de dez anos, acabado de velhice.

 

não sejas bicho do mato rapariga e vai à missa,

mas quando podia, depois da catequese, fugia da igreja:

corria desalmadamente e ficava na terra em frente de casa, fazendo bolos de lama ou escondida no meio do milho até ver a dona lurdinhas, que mais santificada naquela hora, bamboleava-se afirmando ao mundo que ia fazer o arrozinho.

a dona lurdinhas morreu, vai fazer três anos. 

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas quando não podia fugir ficava ao lado dos outros todos, bem alinhados, mesmo na primeira fila.

a meio da igreja o coro cantava, desengonçadamente, num orgulho desafinado dos seus membros em trajes de domingo.

eu levantava-me quando me tinha de levantar e sentava-me quando tinha de me sentar.

os minutos arrastavam-se na voz monocórdica do padre. e na hora da saudação eu ia muito saltitante dar beijinhos a conhecidos e família, que a mamã assim ensinara, incluindo ao avô que me segredava piadas.

o avô morreu, vai fazer dois anos.

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas dizia-se que o padre tinha um filho e muitas amantes.

dele só sabia que falava baixinho e que apertava as bochechas com muita força. e que tinha uma irmã que nos esperava na saída da escola, só para conversar.

a irmã do padre desapareceu, vai fazer dez anos.

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas nunca ouvi uma palavra do que era dito, fosse em que altura fosse.

conseguia escutar as primeiras leituras, em pessoas que saiam dos seus bancos e liam alto, depois de pigarrear muito, numa honra de distinção.

depois as palavras uniam-se umas nas outras e eu precisava de contar os azulejos, as flores pintadas no tecto ou os botões do sacristão, na camisa branca.

o sacristão desistiu, vai fazer tantos anos que nem sei. 

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas alguns domingos, quando ficava sentada na ponta, conseguia fugir a meio, por uma das portas laterais. nessa altura refugiava-me na lojinha do lado, povoada por homens que falavam, riam alto e diziam palavrões, numa socialização normal.

eu pedia um rebuçado de caramelo, ao dono que era surdo, e ficava num canto, esperando que chegasse ao fim para, minutos antes, entrar devagarinho.

o dono morreu, vai fazer mais de quinze anos.

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

e eu ia.

mas deus nunca me agradeceu.

 

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oh vai ver ali:

pérolas a porcos

por M.J., em 27.02.17

 

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publicado às 20:00

na saúde e na doença,

por M.J., em 25.02.17

disse o padre, e em aplicações de telemóveis que não lembram ao demónio também.

 

explico:

é um despertador que ao despertar vem acompanhado de enigmas matemáticos, problemas de lógica e merdas do género.

e enquanto aquela porcaria não for resolvida o filho de mil animais quadrúpedes do despertador não se cala.

em gritos sonantes de desespero.

 

e depois dizem que as pessoas se divorciam por dá cá aquela palha!

 

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#30por30 - blogs e provérbios - 5

por M.J., em 24.02.17

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inspirado em que provérbio?

quem adivinha?

 

explicações e afins na caixa de comentários.

 

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Não me julguem

por M.J., em 24.02.17

Ando com um gel antibacteriano na mala, para desinfetar as mãos. E uso. Muito mais vezes do que seria suposto. Faltará muito para me fechar em casa e não contactar com absolutamente ninguém?

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17/02/2017 

- hora do almoço: acabei de ler "a incrivel viagem de arthur pepper" e não me apetece ler mais romances. não sou de diálogos forçados e fins evidentes, do viveram felizes para sempre. mesmo assim peguei no "viver depois de ti" que a magda me emprestou. diz que não é bem um romance e estou disposta a tentar.

 

- depois de jantar: li cinco capítulos na hora de almoço. não encontro aqui grande romance e percebo que gosto porque passei o jantar todo a olhar de soslaio para o sofá, onde o pousei descontraidamente.

é intenso q.b. e conseguiu fazer-me mergulhar na história, sem vontade de submergir. 

li mais de metade do livro. tem uma intensidade única.

 

lana del ray e chá preto de maçã canela. (ou infusão).

 

18/02/2017 - avancei uns quantos capítulos ao pequeno almoço.

 

 

Aos sábados há pequenos almoços demorados. #breakfast #book📖

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acordei relativamente cedo para um sábado e fiquei sentada à mesa, em frente para a janela da cozinha, com ele na mão.

comi uma tosta mista e leite com café.

o cinzento da manhã entrava porta dentro e o silêncio foi apenas cortado por dois ou três pássaros. derramei umas quantas lágrimas e dei um salto quando o rapaz entrou interrompendo-me no mundo onde me senti fazer parte.

 

a incapacidade de parar de ler é o sinónimo de que o livro vale a pena.

não foi propriamente uma surpresa o desenrolar da história mas os diálogos não são forçados e o sentido de humor da personagem principal também não.

não há a sensação de que se trata de algo romantizado e - tirando o cliché "homem rico-menina pobre" - sentimos que podia acontecer a qualquer um.

antes dos últimos três capítulos li o fim, numa antecipação do esperado. 

fiquei amplamente deprimida. 

 

ouvi os pássaros nos cedros em frente à varanda da cozinha. 

 

19/02/2017

acabei enquanto esperava que o almoço se fizesse.

cheirava a assado domingueiro, pela casa toda, e os miúdos do rés do cão brincavam na rua em frente.

senti-me profundamente triste, num turbilhão de melancolia provocado pelo livro, mesmo sendo só um livro

nunca é só um livro quando nos dá a sensação de viver outras vidas, pois não?

 

gostei mesmo muito. 

e ultimamente isso tem sido uma raridade no que leio. 

 

___________________________________

* na incapacidade de falar sobre os livros, em si, falo sobre o que os livros me provocam na companhia da música com que os conjugo e do tempo em que neles permaneço. 

 

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#30por30 - blogs e provérbios - 4

por M.J., em 23.02.17

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inspirado em que provérbio?

quem adivinha?

 

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