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#30por30 - blogs e provérbios - 28

por M.J., em 31.03.17

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inspirado em que provérbio?

quem adivinha?

 

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páscoa serrana

por M.J., em 31.03.17

a serra tem um silêncio que não encontrei, jamais, em qualquer outro lugar.

ouvimos, com clareza transparente de riachos puros, o som dos pássaros, dos cães ao longe, de uma mosca melancólica no vidro.

 

na páscoa o silêncio aumentava numa dimensão de milagres santos.

os dias eram mais claros e azuis na primavera que chegava. as trepadeiras da varanda, em mil gomos lilases lançavam um cheiro adocicado e disputar com as amêndoas doces espalhadas em pratos. limpava-se a casa, numa azáfama constante. a sala passava a cheirar a óleo de cedro e ananás, com uma grossa toalha de renda.

 

na quarta feira santa as confissões na igreja estendiam-se o dia todo.

eu arranjava mil pecados que não cometera para ir com a minha vizinha. demorávamo-nos no caminho, passando pelo carreiro cheio de ervas daninhas. 

fazíamos ramos de flores amarelas, silvestres, que escondíamos à entrada da igreja e que estava invariavelmente fria, com cheiro a lixívia e humidade. pálidos raios de sol entravam pelos vitrais fazendo brilhar partículas de pó. sentava-me num dos bancos cimeiros e ficava contando os pontinhos de luz que dançavam na minha frente.

 

na quinta feira o avô punha luzes na fachada da casa.

preparava-se o caminho da procissão da noite, com velas compradas na loja do lado da igreja, que enrolávamos em papel velho.

o padre fazia uma missa longa que eu não ouvia. sentava-me no muro do grande largo da igreja e ficava - calçando ou vestindo alguma coisa nova - olhando as pessoas, na procura de uma cara da escola.

às vezes comprávamos rebuçados e ansiávamos pela procissão para acender as velas.

 

na sexta feira era proibido comer carne.

a mamã escondia qualquer pedaço dela, para não nos esquecermos ou cair em tentação. o pecado mortal de comer carne jamais seria perdoado. 

comíamos arroz de polvo, invariavelmente ao almoço, numa festa de rancho melhorado. não conseguia perceber o contexto de penitência.

nem os papás.

o papá, do alto da sua voz grave, dizia que era um pecado hediondo comer carne, deus me livre, enquanto a mamã cozia o polvo. bem mais caro que a carne. um dia avancei que penitência era não comer uma coisa que gostássemos pelo que eu abdicaria dos chocolates.

foi-me dito para não dizer asneiras pelo que, para compensar, às três da tarde - quando no café do tio se exigiu um minuto de silêncio pela morte de jesus cristo - enfardei dois chocolates twix que a minha prima me deu.

 

à tarde outra procissão do funeral de cristo.

a multidão amontoava-se à porta de uma velha capela e pelo chão espalhava-se erva doce e flores silvestres. caminhávamos em silêncio, muito sérios e compenetrados.

a banda tocava afinada, na certeza de não fazer feio.

e no meio as mulheres criticavam roupas e cabelos, aquela que engravidara ou o outro que andava com a vizinha.

 

no sábado, antes de jantar, na igreja faziam-se cerimónias que se arrastavam noite dentro.

eu ouvia-as, de casa, os cânticos longos e desafinados e num dia de tédio decidi ir. acenderam uma fogueira à entrada e dentro cantaram desalmadamente durante horas. a meio fartei-me, enregelada e fui para casa maldizendo a triste ideia que se me dera. durou até às onze da noite, altura em que o sino tocou a anunciar a ressurreição.

 

no domingo o padre passava, com uma cruz, por todas as casas: era o compasso.

o papá insistia em pôr pétalas de camélia no terraço, contra a vontade da mamã. havia amêndoas em pratos brancos e uma toalha muito brilhante em cima da mesa. encostado a uma jarra de cravos, que a mamã ordinariamente comprava, colocavam um envelope selado com o dinheiro do folar a entregar ao senhor padre. nós ouvia-mo-lo à distância de uma campainha que um miúdo tocava. 

ficávamos quietos, cada um no seu sítio, quando o padre entrava.

uma vez, muito pequena, recusei-me a beijar a cruz porque me haviam dito que todos os velhos a beijavam - mesmo os sem dentes - e que o pano com que a limpavam era sempre o mesmo. quando o compasso saiu a mamã pôs-me de castigo.

mais tarde a avó disse-me que não haviam doenças nos pés de deus.

aquilo convenceu-me:

ainda hoje beijo.

ainda hoje não como carne à sexta feira.

ainda hoje sei de todos os pormenores, que me doíam à época, e que recordo com melancolia gritante de quem não volta a tempos em que o silêncio quebrava a dor e se transformava em coisas maiores.

 

continua tudo lá.

só eu não.

os mesmos rituais e procissões, compasso e envelope em frente ao jarro de cravos, a que assisto, muito ao de longe, sem assistir, na promessa feita.

há promessas que deveríamos estar autorizados, por nós mesmos, a quebrar.

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e vamos cá ver

por M.J., em 30.03.17

nesta minha ausência... comeu-se bem? 

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sobre a minha ausência

por M.J., em 30.03.17

a melhor maneira de manter um blog é tirar prazer dele.

não há mal algum que o prazer seja tinta da china para pôr nas vistinhas, comentários aduladores do ego ou simplesmente muitos ahahahaha e pisca pisca. não há mal porque cada um tira prazer do que bem entende e a máxima do "desde que não prejudique" aplica-se.

 

no meu caso o maior prazer está - ou costumava estar - em ler os meus próprios textos.

em divertir-me na escrita ou usá-la para exorcizar quem sou. ou para compreender melhor o que penso. ou para raciocinar sobre temas porque escrevendo penso duas vezes. ou em sentir-me absolutamente feliz por juntar palavras em frases e frases em textos e expô-los a quem quiser ler.

é esse o maior - e às vezes único - prazer que retiro disto e sem isso não vale a pena.

 

quando me farto e percebo que estou unicamente a escrever por obrigação, que as palavras não se atropelam e os meus dedos empancam nas teclas, enferrujados, apagando e voltando a apagar, colocando frases atrás de frases em rascunhos, numa vergonha que vejam o mundo paro.

paro e espero, aguardo nas sombras, muito baixinho, esperando sentir falta.

esperando sentir uma ponta de vontade de escrever.

esperando sentir a necessidade de juntar palavras corridas, umas a seguir às outras.

 

às vezes perco a identidade disto.

olho-me e tento perceber por que motivo dedico tanto tempo e dedicação a algo quando, em alguns dias, não retiro prazer nenhum. tento descortinar sobre o que escrevo, para que escrevo, do que escrevo, numa espécie de procura de quem sou. quando não descubro paro e espero.

 

parei uns tempos estes dias. 

e para minha confusão - e alguma tristeza - senti muito menos falta disto do que pensei. deixei prosseguirem as horas e os dias com coisas agendadas, mal olhando para palavras e frases e questionamentos, apercebendo-me de que não havia qualquer sentimento de falta. ou vontade.

achei que iria sentir saudades descomunais e que o meu prazer em voltar a escrever seria exponencial.

não foi.

 

pondero seriamente se não será hora de ultrapassar este espaço.

sem auto-comiseração, tentativas de afago ao ego ou deixa-te disso.

numa ponderação simples e muito minha: para quê manter algo quando a sua ausência não me provoca nenhuma comichão de saudades? nenhum formigamento de ânsia? nenhuma vontade de regressar?

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#30por30 - blogs e provérbios - 27

por M.J., em 30.03.17

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inspirado em que provérbio?

quem adivinha?

 

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#30por30 - blogs e provérbios - 26

por M.J., em 29.03.17

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publicado às 14:00

depois de um dinheirão em tratamento de cáries (sim, os dentes não doíam, não tinham aspecto de estragados mas havia ali bicheza a corcomê-los e eu não sabia);

depois de um dente do siso que deu ar de sua graça e me fez verter mais sangue que um pito em dia de matança;

depois de uma cena estranha na língua que vai ser tirada tarda nada e levada para análise (porque nestas coisas nunca se sabe, não é? a senhora compreende. não se preocupe muito que é - quase - só por segurança);

veio a avaliação do aparelho porque o dentista insistiu que eu tinha um grave caso de oclusão facilmente tratável.

 

desloquei-me à clínica a arrastar as pernas pensando:

  • que corro os dentistas todos do sítio e podia até, quem sabe, marcar um jantar com eles no fim a festejar, numa espécie de término de ano lectivo;
  • no meu aspecto ridículo se o aparelho fosse em frente;
  • no dinheirão que teria de gastar;
  • nas dores que aquela porcaria ia causar.

 

mas o que aconteceu senhores... pois bem, aconteceu algo que não podia imaginar - jamais - e para a qual não estava preparada:

é que, segundo a dentista, o aparelho não ia resolver nada. a melhorar o aspecto ia dar cabo da estrutura da boca (ou outra coisa qualquer que ela disse e não memorizei) e que portanto, tínhamos de pensar noutra alternativa.

 

não imaginem que tenho dentes de coelho, tortos de uma maneira descomunal que me impedem de fechar a boca, mantendo aquele ar aflito de quem vai roer qualquer coisa a todo o minuto.

aliás, tendo em conta a situação são até bastante discretos.

mas qual situação M.J.?

perguntam vocês aos saltinhos todos curiosos. 

uma situação delicada que põe quatro dentes a bater uns nos outros - atrás - e nada mais.

numa dentada aberta estranha que eu - na minha inocência de quem nunca apreciou dentes - achava ser relativamente normal.

 

só que não.

não mesmo.

e parece que a solução num primeiro diagnóstico é ir à faca.

ou neste caso à machada.

ou ao cutelo porque se vamos deslocar maxilares e voltar a recolocar não me parece que uma faquita seja eficiente:

é com machado ou cutelo ou serra. 

sim senhor. 

muito bonito.

 

dá todo um novo a sabor àquela coisa do "vou ali enfiar a cabeça debaixo de um camião e já volto".

só que desta vez posso não voltar. 

 

é que sinceramente!

 

(sim, eu sei, voltei, estava encerrada até à páscoa mas senti tanta falta que ressuscitei mesmo sem sexta feira santa- depois explico).

 

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oh vai ver ali:

#30por30 - blogs e provérbios - 25

por M.J., em 28.03.17

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#30por30 - blogs e provérbios - 24

por M.J., em 27.03.17

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#30por30 - blogs e provérbios - 23

por M.J., em 24.03.17

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