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banalidades

por M.J., em 28.04.17

a empregada veio uma vez e desistiu.

avançou dias depois com um imprevisto de vida e não sei se acreditei ou não.

- questiono-me às vezes se não me terei transformado numa picuinhas desgraçada e se não será esse o facto que me faz sentir esta solidão gritante.

seja como for voltei a procurar outra. não tenho nesta fase tempo nem paciência para me preocupar com vidros e armários, roupas e chão, mesmo que me apoquente ver pós e desarrumação.

a saga da procura parte cinquenta, talvez, deu pano para mangas. das centenas de respostas que recebi só contactei umas seis e só metade se mostrou interessada. as pessoas têm uma estranha forma de se relacionar nestes tempos modernos. respondem com "quanto pagas?", "dá-me mais informações", "quantas horas queres" mesmo que nunca me tenham visto nem saibam quem sou, o que sou ou onde estou. a essas nem respondi e das outras três que decidiram vir falar comigo apareceu uma: as duas que não vieram, sem um aviso, sem uma palavra, deram-me depois exactamente a mesma resposta:

"problema com o carro". 

constato que isto está bom é para os mecânicos. ou para o gepeto.

 

ainda assim uma está escolhida, a ver se não desiste.

 

não é que procure uma companhia, invés de uma senhora que me limpe o chão.

no entanto há qualquer coisa de reconfortante em estar no escritório, concentrada no que faço, e ouvir no resto da casa um sacudir de tapetes, um arrumar de roupa, água a correr, arrastar de móveis.

como se estivesse na serra, um calhamaço de livros ao lado, a lareira a crepitar aos pés e ao longe a mamã numa lufa lufa de limpezas, o cheiro da lixívia e limão a escorrer pelas paredes. 

e depois um beijo com pão fresco e marmelada. 

 

tem dias que me sinto absolutamente só e hoje embrulho tudo no mesmo saco, com e sem empregada.

levanto-me da cadeira e estico as pernas.

murmuro que a vida é uma inutilidade e perda de tempo e vou à varanda. há um vento corrediço que lambe a roupa já seca na corda. o silêncio atroa pela encosta, mesmo que isto tenha outro nome qualquer. passa um carro e uma rola arrulha num dos cedros.

 

tem dias que sinto que a solidão me come a alma e tenho vontade de comer tudo para matar a solidão que me consome. 

é triste.

 

como é que me transformei nisto e não dei conta?

 

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oh vai ver ali:

sobre essa coisa da ansiedade

por M.J., em 28.04.17

"amanhã pode acontecer tudo, incluindo nada".

 

o ansioso nunca acredita na segunda parte.

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sobre isto da escrita em blogs

por M.J., em 27.04.17

uma pessoa com quem não falava há mais de um ano disse-me olá através do chat do facebook.

não foi alguém minimamente marcante na minha vida. conhecemo-nos num contexto banal, pediu-me amizade no facebook e depois deixamos de falar, porque o acontecimento que nos ligava terminou. nada mais do que o normal nestas coisas das pessoas e do facebook e dos contactos.

com a excepção de que um ano depois pergunta-me como estou. 

estranhei.

não me lembro de ter sido simpática em demasia ou de ter dito ou feito qualquer coisa que levasse a que a minha pessoa, as minhas características, a minha maneira de ser pudesse ser marcante ou criasse empatia com aquela personalidade em concreto.

respondi portanto - um pouco desconfiada - o normal também nestas coisas: tudo bem e tu?

 

nesse instante foi como se tivesse aberto uma torneira cuja água jorrava com tanta força que fechá-la só com a ajuda de uns braços capazes.

em cinquenta linhas contou-me o último drama. todo. completo. acontecimentos de uma vida. com lamentos, impropérios, dores e quase lágrimas. a mim. com quem não falava há um ano e que apenas retribuí a pergunta por cortesia.

foi altamente constrangedor.

primeiro porque eu não sabia o que dizer e as palavras fugiam-me por entre os dedos.

depois porque fui assaltada por um misto gigantesco de emoções em que sobressaía uma pena terrível por alguém cuja necessidade de falar levava a que expusesse a praticamente um estranho uma vida inteira.

respondi coisas triviais:

"lamento",

"que chato",

"que situação",

"há-de passar",

"tu és capaz".

aqueles chavões retirados da bíblia do "ajude o outro" que aprendemos - uns mais cedo do que outros - a dizer em situações em que não há nada a dizer.

não sei se percebeu. a conversa morreu por ali.

 

depois constatei, uns dias mais tarde, que aquilo que faço e fazemos todos nós que temos um blogue e escrevemos a vida e sentimentos e dias e horas e sensações, tudo isso não é muito diferente daquele desabafo cego à primeira pessoa que respondeu a um "como estás?".

parte da mesma premissa de necessidade de desabafo. de conseguir criar empatia. de criar laços com outros, mesmo que muito ténues, mesmo que se desfaçam cinco minutos depois.

 

felizmente ao longo destes anos de letras e palavras a descrever dias e emoções tenho encontrado gente extraordinária.

gente com quem nunca falaria de outra forma.

gente que me fez e faz crescer com uma intensidade que não esperaria jamais.

gente que pega no que escrevo e transforma à sua medida retribuíndo depois, só porque sim. 

 

acho que é nesse exacto ponto que se distinguem uns e outros:

os que escrevem na procura de desabafo e não encontram nada mais do que palavras banais de circunstância - quando não é só silêncio - e os que escrevem e encontram, sem perceber como nem porquê, gente gigante do outro lado. 

como raio estou eu neste segundo ponto?

obrigado. 

 

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hoje encheria todas as ruas de sardinheiras.

pegaria nas flores das jarras, das noivas, dos altares e das varandas e trocá-las-ia por hortênsias.

azuis.

transformaria todas as árvores em áceres de outono.

encheria todos os lugares, por onde passasses, de beladonas a escorrer memórias.

mataria qualquer resquício de calor sufocante.

encheria de berlindes, repletos de fios coloridos, todos os bolsos dos bibes das crianças

substituíria o dicionário pela palavra avô e todos os avós veriam que o teu coração é um deles.

 

hoje faria ressoar em cada hora, num lamento corrido mas de esperança, que avec le temps nem tudo vai, nem tudo desaparece:

tu - em quem tocas, a quem sorris, a quem amainas, a quem suavizas, a quem socorres, a quem te entregas, a quem és - permaneces.

 

nas 24 horas de hoje eu moldo o mundo à tua medida. 

mesmo que tão longe.

mesmo que só em palavras.

 

parabéns meu amor.

não haverão jamais palavras que descrevam quem és. 

 

(*talvez estas, de alguém melhor do que eu)

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oh vai ver ali:

e de crianças a cães, e de jornalismo entre aspas a citar raças perigosas e de meio mundo que não gosta de animais a criticar o outro meio mundo que delira com os ditos, apraz-me dizer uma coisa:

 

antes de abaterem os cães, eduquem os donos.

 

a raça mais perigosa de entre todas é o ser humano:

é a única que conheço capaz de maltratar, matar, torturar e provocar sofrimento pelo puro prazer de maltratar, matar, torturar e provocar sofrimento.

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oh vai ver ali:

casamento

por M.J., em 26.04.17

no sábado fui a um casamento.

há quem diga "tive" um casamento mas eu já me deixei de pretensões acerca de ter seja o que for. 

tirando o facto de que que me deixei de cabeleireiros, maquilhadora e roupa nova para o efeito - na constatação de que se torna uma perda de tempo e de dinheiro, tudo muito alinhado depois no armário e em fotos que nunca mais vou ver - fui ao dito com um misto de nostalgia, nas minhas roupas domingueiras mas banais, cabelo escorrido e com brancas e uma borradela nos olhos que, se olhassem com pouca atenção, podia passar por maquilhagem.

deixei de ver os casamentos com a mesma beleza que os encarei outrora.

as flores parecem-me sempre murchas, mesmo que muito viçosas.

os cânticos parecem-me sempre os mesmos, mesmo que muito diferentes.

a comida sabe toda ao mesmo, mesmo sendo distinta.

as pessoas são mais do mesmo, na conversa do mesmíssimo, mesmo que sejam diferentes.

 

talvez porque eu própria casei.

talvez porque o tempo passou.

talvez porque com a idade adulta as coisas me aparecem mais secas de paixão, sem a ingenuidade de brilhos e flores.

talvez porque com a vida vou percebendo que os dias especiais não são os que planeamos durante outros mil dias, mas aqueles que nos são dados sobretudo quando não esperamos.

 

a idade vai-me trazendo brancas, rugas, um ouvido interno que enjoa nas curvas e um cinismo seco que se aprimora que é um mimo. 

ainda não vou nos trinta e é como se me pesassem nos ombros sessenta. 

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publicado às 10:06

25 de abril

por M.J., em 24.04.17

a primeira vez que soube do significado do 25 de abril tinha 9 ou 10 anos e uma quadra da escola para fazer em casa.

o título seria qualquer coisa como "o 25 de abril para mim" e depois de concluir pela rima com "jardim" fiz um longo poema sobre rosas e malmequeres, abelhas e morangos.

 

a avó leu as palavras alinhadas e escritas com uma letra gigante muito desfeita, muito feia, um esbardalhanço de tinta e borrões,

escreve tão mal, esta miúda,

e abanando a cabeça com desilusão no olhar perguntou:

mas tu sabes ao menos o que é o 25 de abril?

e eu que não, que não sabia, achava que era feriado mas haviam tantos e tirando o natal escapavam-se-me todos.

uma consumição já aos oito.

 

a avó sentou-se comigo num murito do quintal.

haviam laranjas numa laranjeira antiga, galinhas ao fundo e uma ameixoeira grande.

o silêncio era atroz - algo que não lembro mas depreendo, que nunca se queima o silêncio na aldeia - e contou, muito séria, muito longa, muito solene, o que fora a revolução.

contou baixinho, quase em surdina, olhando de soslaio possíveis escutas porque há hábitos que não morrem e medos que não desaparecem:

enumerou dias e torturas.

falou de gente que eu conhecia e do que passara.

contou acontecimentos com conhecimento de causa e autoridade.

respondeu a todas as perguntas de infância de quem não entendia o que era "não poder falar", "não poder pensar", "não poder ser diferente".

revelou segredos antigos de família, que eu não compreendera por criança, e levou-me a crescer muito rápido naquele dia.

 

o meu poema, alinhado e grande, letra desconchavada e tinta borrada, foi o melhor segundo a professora, que me presenteou com uma estrela (ou seria uma cara sorridente?) colada no canto da folha:

o meu prémio, o meu troféu por qualidade. 

 

mas não me lembro de festejar.

foi o meu primeiro contacto com um medo superior do homem na impotência do próprio homem.

foi a primeira certeza de que os adultos não podem tudo, não conseguem tudo, não são tudo.

foi a primeira ideia de que havia no mundo uma coisa chamada "ditadura" e que ia muito para além do "come e cala-te, vai para a cama, estás de castigo".

foi a primeira sensação de que o homem tortura o homem, no significado da palavra.

 

só anos mais tarde compreendi a total beleza rara do 25 de abril, o seu significado como um todo e onde nos trouxe.

 

e hoje tenho tanto medo que o mundo se vá esquecendo dele, encaminhando-nos cada vez mais para aquele meu terror primitivo, num dia à tarde, com uma avó destemida e aterrorizada, a contar-me sobre a privação da liberdade de ser. 

 

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não sei que título dar a isto

por M.J., em 24.04.17

 agradecia a colaboração.

 

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