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vizinha

por M.J., em 31.05.17

a sala fica na penumbra depois de jantar.

 

acende um candeeiro de pé, colocado estrategicamente ao pé da janela/porta. a luz é amarelada e trémula. da parte de fora, quando passamos, antevemos por entre as cortinas a pacatez da sala. o sofá grande e largo ao canto com a tv em frente. um tapete felpudo e uma pequena mesa de apoio. um aparador e uma estante grossa com livros.

que não sei quais são.

a minha indiscrição nunca me permitiu ler as lombadas.

 

o que me agrada naquela pacatez, seja em dias invernosos ou de verão, a noite a começar, a tv ligada, a luz do candeeiro, é a sensação de paz. cada coisa colocada no devido lugar, numa rotina constante e eterna. com a sua serventia traçada e sem se desviar disso mesmo.

jantar - feito.

arrumar a cozinha - feito.

arrumar a sala - feito.

desligar as luzes - feito.

acender o candeeiro - feito.

correr as cortinas brancas - feito.

sentar no sofá - feito.

ligar a tv para o serão das novelas até à meia noite - feito.

levantar a meio para ir buscar um chá - feito.

ou um licor em dias festivos - feito

com a devida paz. a devida pacatez. a devida ordem - feito.

sem uma migalha fora do lugar. sem permitir a entrada de uma mosca - feito.

viver - feito.

 

sem o caramba que me atrasei para o jantar, vamos tomar café? bem que me podias ajudar a arrumar a cozinha, também tenho de trabalhar, vamos rever aquilo que está pendente? se vais ligar para um cliente vai para a sala, ainda não lavamos a louça, olha lá quando vem a empregada? regaste as plantas? são dez da noite e ainda não jantamos, esqueci-me de passar as camisas, liga-me aí a impressora, e se fossemos caminhar depois de jantar? chegas a que horas amanhã? já passa das onze e não arrumamos a cozinha, amanhã sempre vais para lisboa? há roupa na corda, dobras enquanto eu apanho? queria ler um bocado hoje, filme? qual filme? e se mandássemos vir frango? podíamos ir comer sushi, este chão tem migalhas, para quê as luzes todas acesas? olha as melgas, fecha as janelas.

 

sei daquelas rotinas da minha vizinha do rés do chão porque lhas adivinho, juntas com o que passa pela janela. e invejo aquela paz certa de quem encontrou o sítio das coisas.

em tempos, quando andava no segundo ou terceiro ano de faculdade, os primeiros indícios da depressão ou stress ou personalidade ou feitio - misturo tudo porque está tudo ligado - foram evidentes em mim. a sensação de perda era tão grande que não sabia um centímetro de quem era. nessa altura desenvolvera com as minhas vizinhas da avenida onde vivia uma amizade peculiar. não tínhamos nada em comum. eu era a garota da serra, bravia e mau feitio, desconfiada e triste e elas eram senhoras da cidade, citadinas e polidas. uma delas mesmo, com posses económicas, que nunca saía de casa sem estar maquilhada, crescera num tempo em que as senhoras tocavam piano e falavam francês.

não sei o que lhes podia eu agradar. mas um dia, quando a minha expressão estava mais triste, o meu ar mais pesaroso e a sensação de absoluta perda maior, essa mesmo, a mais polida, convidou-me a passar os serões com ela em sua casa. 

jantávamos às oito.

depois arrumávamos a cozinha, as duas, em conversas banais e sentávamo-nos nos sofás antigos da sala, às florzinhas, a ver as novelas que passavam. havia uma luz de um candeeiro, trémula na passagem do tempo. a meio bebericávamos chá e, em dias mais felizes, licor de laranja, de figo ou de café. falávamos dos dias de outrora e vivíamos as novelas como coisas sérias e seguras.

falei aqui do ínicio dessa amizade que se prolongou durante os anos de curso.

 

foi um dos tempos onde senti absoluta pertença mesmo que fosse tudo provisório, incerto e quase caridoso.

pela certeza de rotina. de segurança. de paz. 

 

quero acreditar que a minha vizinha do rés do chão, gorda e velhota, que alimenta os gatos vadios das redondezas e fica na varanda, às vezes, com uma grande barriga a ver passar as tardes, tem esta mesma paz, segurança e rotina.

é que, se analisar bem as coisas, ela está a mostrar-me como serei daqui a uns (poucos, bem mais poucos) anos. 

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uma vez conheci uma senhora

por M.J., em 30.05.17

que dizia sofrer de tantas dores numa mão que perguntou a um médico se não a poderia cortar.

achei a mulher maluca.

até ontem.

altura em que mandei com o dedo mindinho do pé esquerdo, descalço, numa porta.

 

se houvesse algum médico de bisturi na mão ao lado estendia-lho de bom grado. 

 

(pimenta nas partes dos outros...)

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o problema da convivência é, na maioria das vezes, o embate da personalidade de cada um aliada a uma centena de emoções, grandes ou pequenas, que nos trespassam as horas e nos fazem ser assim ou assado quando, na verdade, se formos pensar bem, queríamos era ser cozido.

e às vezes, sem percebermos bem como, em dias mais quentes e cores vermelhas, depois de levantar cedo e cavalgar as horas com a necessidade de ir para algum lado, na rotina do dia a dia, ora isto, ora aquilo, agora mais isto e mais aquilo, um telefonema de trabalho fora de horas, a mesa mal posta para o jantar, o almoço que está insípido, uma toalha caída no chão e ali esquecida, uma pergunta que se fez sem resposta, um correr de pequenas coisas normais e que nada afectam, em boa verdade, quem somos e onde estamos, tudo aquilo, na gota que faz sempre transbordar o copo, se transforma numa pequenita guerra dentro de casa, em trágicas proporções domésticas.

esquece-se a verdadeira dimensão das coisas.

chispam os olhos e há uma chama acesa de raiva em proporções desajustadas ao crime cometido.

sobe um calor pelo peito.

há uma vontade louca de esbracejar e equipara-se uns chinelos fora do sítio a uma deslealdade e traição sem precedência.

há uma tendência a aumentar o tom de voz.

cruzam-se as mãos e aperta-se o peito numa explosão sem sentido.

por nada.

por absolutamente nada. 

 

as pequenices do dia a dia são uma prova às nossas decisões e àquilo que sentimos.

achamos que estamos preparados quando juramos a eternidade de sentimentos - que todos juramos, mais cedo ou mais tarde - para as grandes catástrofes. sabemos de antemão que estaremos ali, erguidos como guerreiros antes da guerra, prontos a passar pelas tempestades mais fortes. preparamo-nos para tudo e traçamos, mentalmente, os nossos limites. dizemos, mesmo sem saber, isto perdoo, aquilo não, isto é grave, aquilo nem por isso. 

temos plena convicção que sabemos até onde ir. 

e depois não sabemos nada.

não percebemos que a constância das pequenitas coisas, a puta da toalha esquecida no chão, os chinelos perdidos ao acaso, os carregadores de telemóvel em qualquer lado, aquela pergunta sem resposta, aquele tracito de personalidade que não é nada, aquelas insignificâncias que não nos incomodavam ou nem sequer dávamos conta delas, são o raio de um rastilho prestes a acender para uma raiva cega que, em algumas pessoas, se transforma num vulcão de palavras, esquecidas cinco minutos depois do desabafo.

 

quando somos adultos e estamos seguros do que queremos e de quem somos e da realidade das coisas, e conhecemos o Outro na sua imensidão, aprendemos a reconhecer esses momentos em que a gota transborda a colher de café.

bufamos, rogamos umas pragas, esperamos que o vulcão de nada desapareça e percebemos, horas mais tarde, no retorno da tranquilidade, que era tudo uma piada: desde a raiva sem sentido, ao gatilho que a fez despoletar, à merdinha sem lógica que colocamos acima da importância que tem.

nessa altura, se não tivermos provocado a catástrofe de dimensões épicas, retorna tudo ao normal.

as palavras não foram ditas como facas cortantes.

não houve acusações nem silêncios maldosos.

não se esgrimiram argumentos que, analisados a frio, são comédias.

passou. voltou-se ao que é.

não há a necessidade de dissecar "mas tu disseste" e "estava a quente, não queria ter dito", "mas foi dito e o que foi dito foi mais grave do que o cometido".

 

agora problema está naqueles que, dotados de um egocentrismo desmesurado, não só não o conseguem ver e permanecem colados a nada, cegos ao tudo que interessa e convencidos que uma toalha húmida no chão é a desgraça plena e o fim da eternidade jurada como, depois de terem percebido isso, constatam que a guerra provocada tem proporções descomunais e a situação inverteu-se no que foi dito, nos argumentos usados, no que veio de onde em palavras arremessadas como tijolos.

palavra dita não se desdiz.

 

e se tivessem assistido a um terço dos divórcios a que assisti concordariam comigo.

 

 

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publicado às 10:00

banalidades

por M.J., em 29.05.17

passei o fim de semana a fazer muito e a não fazer nada. 

tive reuniões de trabalho. duas. dormi. de noite, na manhã toda de sábado e na tarde de domingo. transformei dois quilos de tomate em polpa. fiz um bolo de cerejas. comi cerejas. fotografei cerejas. li um bocado. esquartejei um galo do campo que a mamã me mandou. jantei na serra. fiz sopa de batata doce para a semana inteira. fui lanchar um croissant de ovo. fiquei enjoada com o ovo do croissant. ouvi bon iver. arrumei o armário do meu quarto. pensei no passado. uma, duas e três vezes. ou mais. fiz o almoço de sábado. e de domingo. vi três episódios da série "por treze razões". fui ver os spoilers da série "por treze razões". concluí que a "serie por treze razões" é absolutamente idiota e não recomendável a adolescentes impressionáveis. que é como diz a maioria. tive uma terceira reunião de trabalho. passei roupa a ferro. praticamente toda a de verão que retirei do armário depois de ter sido lavada e secada. lembrei do tempo em que passava os serões de domingo num bar com vista para um jardim com um lago. fiquei triste por esse tempo ter passado. constatei que não sei se me insiro muito bem neste tempo. entristeci por estar a envelhecer na consciência da irreversibilidade do que ficou para trás. concluí que não envelhecerei com graciosidade. fui convidada para um baptizado. organizei uma das estantes com livros. tive uma insónia terrível na madrugada de domingo. ouvi johnny cash e bebi um cálice de vinho do porto. estive na varanda às três da manhã.

 

o dia está soturno. 

o fim de semana também esteve.

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oh vai ver ali:

ontem à noite

por M.J., em 29.05.17

a tvi passou uma reportagem no seu telejornal onde constava - entre outras coisas o seguinte:

  • passos coelhos a falar à darth vader com uma narração que o chama de arrogante;
  • costa a saltitar de um lado para o outro com uma narração que diz, assim, preto no branco, que ele não tem vergonha na cara e brinca aos caciques eleitorais;
  • dois ministros soturnos a que a narração chama - seja cão se não é verdade - de bucha e estica;
  • marcelo de capelinha em capelinha, com ar contrito no santuário de fátima - e esta é a melhor - ao som de da música "meu amor tem sempre a vela acesa" da rosinha, esse ícone.

independentemente da veracidade - ou não - da coisa, incluindo a vela acesa do marido da rosinha aliada ao marcelo, não consigo deixar de ficar estupefacta.

 

a tvi tem um telejornal que é um sketch de comédia.
a tvi repescou o prédio do vasco e pôs a judite a apresentar.
a tvi reciclou os batanetes e pôs-lhe o nome de jornal das oito.
a tvi quis mostrar à sic que consegue fazer melhor do que os malucos do riso.
a tvi provou à rtp que consegue fazer melhor do que o eduardo madeira e o beauté a trocar ameaças no facebook.

 

a tvi - de uma penada só - mostrou sem medos que bate aos pontos o microfone da cmtv. afastem o ronaldo da estação!

 

 

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banalidades

por M.J., em 26.05.17

está cinzento e fresco, o que é um alívio nos últimos dias de deserto sufocante. 

abri as janelas todas pela manhã enquanto via a neblina nos cedros. um dos vizinhos da rua passeava o cão castanho que farejava a vida numa excitação contagiante. arrumei a cadeira na varanda onde jantei ontem, sozinha, a ver a mundo que adormecia. às vezes pergunto se é real esta paz, esta serenidade, ou se tudo cairá na brisa mais forte, como o cheiro de um perfume num frasco mal fechado.

 

tomei café e um pão escuro com manteiga.

escolhi um livro ao acaso e li o fim depois do primeiro capítulo, na excitação de perceber se vale a pena e se o posso correr em segurança. não posso controlar todos os imprevistos da vida, mas estes consigo.

 

percorro a lista de coisas a fazer escrita à mão numa letra escangalhada e torta.

quando era criança olhava com descrença a letra do meu pai, apertada e feia e achava que não escreveria assim, nas minhas lides de adulta. foi uma promessa que cumpri porque escrevo pior, uns gatafunhos imprevisíveis, letras que não são letras, desenhadas num turbilhão de quem não tem paciência para moldar cada palavra até ao fim, rabiscando aqui e ali na espera de ser legível. nem sempre é.

 

o problema de sentir esta paz, este conforto nos dias que passam, os cafés na varanda, o trabalho que se faz para mim no ritmo necessário, a ausência da interminável ansiedade que me queimava o peito em úlceras de medo, é - que há sempre um problema - a liberdades da mente para escarafunchar ao sabor de uma espécie de vento incontrolável. na dor da ansiedade, da inconstância, do medo do depois, da sensação de perda de controlo há uma incapacidade quase física de olhar muito para trás ou para a frente. lidamos com o dia na sua completude ampliada porque aquilo já nos dá muito que fazer e não há espaço para mais. agora tenho possibilidade de ir mais além. e se é esse facto que me permite - juro que sim - crescer na sensação de conhecimento próprio e do outro, também me leva por caminhos tortuosos de recordações a esquecer, pessoas que ficaram, momentos que me mataram um bocadinho e aos quais não pude fugir.

e dá-se o caso, nessas alturas, em que arrumar uma cadeira de braços numa varanda deserta, de manhã, numa neblina fresca e desejada, enquanto se repara num cão a farejar a vida com excitação, se transforma numa pequenita experiência de retorno, num voltar a algo que se deixou para trás mas que agora aparece, saltitante e contente a mostrar que enquanto estiver dentro de mim, na recordação do que foi, continua.

 

é por isso que as pessoas também têm filhos, não é?

permanecem neles - numa imortalidade rebuscada - tanto quanto eles permanecerem também. 

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oh vai ver ali:

contem-me

por M.J., em 25.05.17

dos livros lidos este ano, qual o melhor? qual recomendam? porquê?

(sejam os critérios de qualificação do melhor quais forem).

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eu tinha, juro que tinha

por M.J., em 25.05.17

uma cena catita para escrever, muito interessante e engraçada e assim, como é habitual (lol - sempre quis usar a palavra lol e hoje foi o dia) mas depois li que as (in)capazes escreveram que a solução para os problemas do mundo é os homens brancos não votarem durante vinte anos e esqueci-me de tudo ao meu redor.

 

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até do facto de que ao escrever sobre isso estou a dar-lhes exactamente o que elas querem: atenção à sua imbecilidade.

 

oh gente do catano.

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para quem pergunta

por M.J., em 24.05.17

(mesmo não sendo humor para todos, eis um pedacito de um roast).

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oh vai ver ali:

leio por ai gente indignada com as piadas feitas à roupa da miúda vestida de algodão doce. que é terrorismo fazer isso a uma criança e que terroristas não são só os que as explodem mas quem goza com isso também. 
 

 

vamos lá ver:
 
* só gente com graves problemas psicológicos pode pôr no mesmo nível mortes de crianças e críticas humorísticas ao que elas vestem. 
 
** ninguém criticou a criança. evidentemente que a criança não ia sozinha para a festa nem tinha vontade - ou autonomia total - sobre o que vestia. as críticas eram para quem a levou naqueles preparos.
 
*** alguém levar uma criança vestida com aqueles trajes carnavalescos a uma festa de adultos, onde estará toda a comunicação social e achar que não pode ser alvo de críticas é só obtuso, sobretudo quando a própria festa é um reflexo dessas críticas.
 
**** a sério que se põe no mesmo nível a vida humana tirada por um terrorista louco, com piadas acerca de uma fatiota?
 
***** o ser humano é maluco.
 

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oh vai ver ali:

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