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por M.J., em 16.10.14

as partículas de pó pairavam em cores brilhantes na luz que entrava pela janela, cortando as nuvens cinzentas de outono. tu acendias a lareira, pela primeira vez no ano, mantendo-a depois acesa até ao regresso da primavera.

eu ficava sentada, quieta, no banco tosco de madeira vendo a chuva que teimava em cair. olhava-te concentrada, mãos finas, quase translúcidas, descascando os marmelos e falando do dia, comprido.

a água batia nas janelas, afastando a luz das partículas. cheirava a castanhas e a açúcar e a chá, que me estendias, doce, tão doce, com um sorriso brilhante. não sentia medo, nem ansiedade e sabia, ainda que não soubesse, que aquelas horas eram para sempre.

sentava-me na mesa da cozinha, tirava a toalha das flores e escrevia, com letra apressada nos livros da escola. tu não dizias nada. não te debruçavas sobre mim para perguntar se percebia, não escrevias com as tuas mãos as minhas cópias.

quando a marmelada ficava pronta, barravas um pouco, ainda quente, a borbulhar de açúcar, no pão que estava sempre no saco de pano, vermelho, atrás da porta.

às vezes pegavas nas minhas botas, molhadas da chuva, que eu sentia cair nas mãos, no corpo, nos pés, "abre o guarda chuva maria joão" e encostavas em frente à lareira. aquecias as minhas meias e calçavas nos meus pés, enquanto me fazias cócegas.

eu olhava-te, chuva a bater nas janelas, sopro quente do chá na cara e sentia que aqueles dias eram para sempre.

ainda que não soubesse o que era sempre.

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publicado às 21:48


1 comentário

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De Gaffe a 17.10.2014 às 11:17

Tão lindo, valha-te Deus!

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