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banalidades

por M.J., em 09.03.14

estou sentada na minha varanda. é domingo de manhã. acabei de tomar um café, mesmo ali em pé, na cozinha. há um vento rebelde, chato mesmo, que bate na minha cara, frio, a fazer esquecer o dia quente de ontem.

odeio toda esta calmaria. ali em frente, na rua lateral, passa uma imensidão de gente a correr, numa maratona qualquer de fim de semana. não posso correr. mal seguro o rabo e as mamas, não tenho capacidade de me movimentar muito depressa. 

penso comigo mesma que devia estar ali deitada no sofá, a olhar a televisão, a sentir a magnifica vida que tenho com o caralho do cu (queria dizer apenas o cu, não confundir as coisas) alapado. devia lavar a louça do jantar, com um avental à cinta. e sentir-me muito alegrezinha, muito felizinha. tenho tudo o que sempre julguei que não iria ter.

sou uma enorme anormal.

há uma imensa, gigantesca revolta que me consome todos os poros. um mar de angustia que me obrigou a tomar medicação para dormir e para não me desatar a cortar, todo o pedacinho de pele visível.

olho em frente para os corredores que passam, magros, ligeiros, a fazer alguma coisa do seu domingo de manhã, e dou comigo chateada. não triste. não apática. mas revoltada com esta merda desta vida, com este contentamento em ser feliz com as porcarias que passam na tv, as séries que não me dizem nada, os filmes, que caralho, sempre iguais. o trabalho diário, matutino. 

devia jogar qualquer coisa, ler qualquer merda. fazer planos de vida. dar uso à barriga quem sabe, para não ter só banhas, mas mais um monte de carne lá dentro a crescer.

a repulsa que essa ideia me provoca. a mísera ideia de ter dentro do ser humano outro entra em mim como um nojo descomunal que não consigo explicar. como se alguém comesse ao jantar coxas e peitos e asas e de repente tivesse no estômago um puto, que não vomita, mas expele por baixo.

mas como é que essa ideia pode ser natural? 

enfim. estou zangada. não com ninguém. apenas comigo. não sei o que quero. nunca soube. nunca vou saber. não encontro satisfação em nada. farto-me das coisas a uma velocidade galopante. não tenho qualquer objetivo que seja. não me contento com nada. sinto um desprezo descomunal, e porque não admiti-lo?, por gente que se vai acomodando nas suas vidinhas pequeninas, no jantar de domingo, nos putos que parem como coelhos. por gente que faz planos de vidas idílicas, de momentos de cio e casamento posterior.

sinto e agora? que fazer?

são só palavras eu sei. daqui a pouco, quando os corredores acabarem de passar, levanto-me tranquilamente, faço o sorriso dos dias santos, almoço com a família. digo merdas como ah o trabalho... e ah as manifestações... e ah o futebol. acalmo o cérebro, com essas merdas pequenas, inúteis, manhosas, que não servem de nada. recebo amigos para o jantar. cozinho. quem sabe ate faço trico como uma anormal qualquer.

mas neste momento, nesta revolta só minha, nestas palavras que me saem todas, como vómito, como fel, sinto-me viva, mais viva que nunca. sinto-me livre, grande.

e invejo o caralho dos corredores, ali em frente. e as velhas que vêm da missa nas suas saias domingueiras e nos seus cabelos levantados.

uma inveja gigante, massiva, que me consome em cada poro dos pelos que me crescem.

talvez um dia eu corra. talvez um dia eu vá à missa.

talvez um dia seja um ser humano banal.

talvez.

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oh vai ver ali:

publicado às 10:49


3 comentários

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De Genny a 12.03.2014 às 17:24

eu faço-te companhia nessa revolta toda. se me permitires.
"não tenho qualquer objetivo que seja" - não me define melhor
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De M.J. a 12.03.2014 às 17:35

se calhar devíamos arranjar um, daqueles impossíveis à partida, mas para o qual nos sentíssemos obrigadas a concretizar.
acho que vou apostar no objectivo de ser lutadora de sumo.
o primeiro passo é engordar.
posso começar a enfardar oreos
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De Genny a 12.03.2014 às 19:40

Mas esse passo já eu dei, sou gorda e é o único objectivo deprimente que consigo alcançar!
Adoro oreos brancos.

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