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desde que sobreviva

por M.J., em 19.01.15

estava escuro na rua e tinha o quarto todo, numa dimensão negra, à minha frente.

a cama encostada à parede, vazia de mim, entrava toda vista dentro, quase a estrangular-me de angústia numa imensidão de ausência de corpos.

 

caí suavemente numa dor tétrica e só minha, encostada à parede nua, perdida num mar de miséria que me congelava de tristeza. sentia, sabia que todo o meu corpo ia explodir de ansiedade e dor, num tremor, num torpor todo meu.

sabia que eu própria era um pedaço do que poderia ser e que, se não esbracejasse, se não me revoltasse, ia afogar-me no mar de dor que me engolia, sem medo.

 

em cima da mesa, colada à parede nua onde me deixara escorregar, estava uma faca.

comprida.

de lâmina romba.

 

e foi no primeiro corte que descobri, sentada num chão sujo de um quarto velho, que poderia controlar a morte de dor, provocando uma dor menos profunda, mas mais acutilante.

não foi uma boa decisão.

mas permitiu-me sobreviver.

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publicado às 21:34