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profissionalismo

por M.J., em 13.11.15

depois de três semanas de espera pelo resultado de um exame que pode dizer a uma pessoa

"tens cancro, o teu corpo está a matar-te numa revolta contra ti"

uma voz profissional, sem calor, sem tom, sem qualquer réstia de compaixão pelo outro, sem qualquer capacidade de se colocar na pessoa a quem se diz o que se diz avança

amanhã, sábado, apareça na urgência que o senhor doutor tem os resultados"

ignorando os prantos aflitivos de quem, do outro lado, olha para o corpo que poderá estar ou não a morrer, para o corpo que poderá revoltar-se numa guerra de químicos e dores e não avança resposta a nenhuma das perguntas.

com voz fria, profissional, usando dos obrigados, dos por favores e dos licenças. faltou apenas desejar um bom fim de semana, na constatação a tempo do ridículo incomensurável que seria.

ignorando, propositadamente, o que a frase "apareça amanhã, sábado, para saber o destino do seu corpo" provoca na pessoa que o ouve. 

 

a capacidade "profissional" do ser humano conseguir ignorar a ansiedade da dor do outro mata-me.

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publicado às 12:01


21 comentários

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De Sandra a 13.11.2015 às 12:11

M.J., que corra tudo pelo melhor. O hospital da universidade tem ótimos médicos. Confia neles, aconteça o que acontecer.
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De Maria a 13.11.2015 às 12:21

Que tudo corra bem.
Nem sei o que dizer, não sou muito boa nestas situações.
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De Vanessa a 13.11.2015 às 12:22

Não te admires, porque são todos assim. Médicos que dizem que alguém tem cancro como se lhes dissessem que apanhou uma gripe. Para eles é o mesmo que nada e para nós é como se nos lessem a sentença de morte. É muito mau, mesmo muito mau.
De qualquer das formas, fica calminha (o mais possível) e ouve o que te dizem.
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De Gaffe a 13.11.2015 às 13:27

São, no mínimo, um perigo estas generalizações.
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De Psicogata a 13.11.2015 às 14:11

Sim, não se deve generalizar. E penso que as pessoas se esquecem de se colocar nos sapatos deles.
Como acham que seria a vossa vida se fossem médicos e todos os dias se preocupassem, compadecessem e ficassem aflitos com as más notícias que têm de dar?
Eu sei que para quem recebe a notícia é complicado, mas compreendo a carapaça de quem as dá.
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De Vanessa a 13.11.2015 às 14:28

Até compreendo o vosso ponto de vista e compreendo plenamente que os médicos não tenham de "encarnar" a dor como deles, mas chegarem a uma consulta e dizerem-vos de caras "olhe, você tem cancro" e no caso de um amigo da minha família foi mesmo "você tem cancro em estado terminal e tem no máximo 2 anos de vida" (infelizmente depois de ser operado só aguentou 2 meses) não é fácil de gerir.
Eu sei que o cancro agora aparece quase como se fosse uma gripe ou outra doença comum qualquer, mas não é uma doença qualquer, a todos os níveis! Logo, deveria ser tratada com cuidado. Felizmente há médicos e médicos e no caso do meu pai foi tudo tratado com o máximo cuidado, e ainda bem.
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De Psicogata a 13.11.2015 às 14:50

Mas não há forma de dar uma notícia dessas. Aliás se calhar o melhor mesmo é ser direto. Não adianta muito estar com paninhos quentes.
É como dar a notícia de uma morte, não há nada que se possa dizer que vá melhorar a notícia.
As pessoas é que tendem a focar-se na atitude do médico porque a notícia é demasiado má.
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De Sandra a 13.11.2015 às 17:57

Queria só dar a minha opinião. Existem maneiras de se dizerem as coisas, e não custa ser-se simpático e, se possível, agradável para o paciente. Não lhes estamos a pedir que chorem por ninguém, estamos a pedir apenas o mínimo de simpatia.
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De me a 13.11.2015 às 18:30

True. A dada altura chego a essa conclusão. É suposto dizerem como? E fazerem o q? Criarem esperança onde sabem q não há?
É duro, bem sei...mas n creio q haja uma fórmula mágica p estas situações.
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De Me, myself and I a 13.11.2015 às 12:28

Pensamentos positivos M.J. Vai tudo correr bem! Beijinhos
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De meandmyboy a 13.11.2015 às 12:45

São insensíveis. Vou torcer para que tudo corra bem. Bjs
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De Sarabudja a 13.11.2015 às 12:50

Mas quê, achas que ao sábado dão más noticias? É que não estás bem a ver a coisa.
Ao sábado são chamados os que têm de ouvir: já vi um pedacinho seu por dentro, precisava ver tudo por fora.
Pois que encaroçaste uma ideia qualquer;é o que é.

Se for um cancro, tenta não te deixar viajar enquanto te explicam o que te irá acontecer enquanto travas a luta.
(sim, eu chamo as coisas pelo nome. Sou bruta, às vezes).
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De Cris a 13.11.2015 às 13:04

Espero que esteja tudo bem!
Beijinhos
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De Maria Araújo a 13.11.2015 às 13:10


Uma amiga minha ouviu isso, friamente, entrou em pânico, nada disse aos pais.
Ligou-me a pedir ajuda.
Afinal, e depois de ir a outros médicos e fazer mais exames, não era nada.
Triste, muito triste, o coração e a mentalidade de alguns profissionais de saúde.

P.S.: só depois de ler o post seguinte, vim ver o que escreveste antes.
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De Neurótika Webb a 13.11.2015 às 13:11

Vê o outro lado....
Tenho uma amiga que é neuro-cirurgiã. Lida todos os dias com doenças degenerativas, alzheimer e todos os tipos de demência.
Há 2 anos teve um esgotamento nervoso que lhe arruinou o casamento.
Porquê? Por detrás daquela capa de frieza, do distanciamento, estava tudo lá acumulado, o sofrimento dos outros, os doentes que lhe morreram ao fim de anos de acompanhamento em que é impossível não criar laços.
Lembro-me sempre do dia em que fui com a minha mãe ao Instituto de Oncologia comunicar ao médico que o meu pai tinha morrido. O médico era um bloco de gelo e eu detestava-o.
O homem desfez-se em lágrimas à nossa frente. Fiquei estupefacta!
Dizia que o meu pai era "O meu herói", tinha-lhe dado um diagnóstico de 6 meses de vida e ele durou 5 anos.
Percebi nesse dia que afinal, a frieza é um mecânismo de defesa, a única maneira de eles sobreviverem a tanta dor e a tanta morte.
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De me a 13.11.2015 às 18:32

Não consigo conceber o q seja a vida de uma pessoa q trabalhe, por exemplo, na ala pediatrica do IPO. Acho q deve rasgar uma pessoa, criem eles as carapaças q quiserem...
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De Neurótika Webb a 13.11.2015 às 18:41

as enfermeiras pediátricas do IPO lidam com os miúdos de maneira diferente.
e, sim, porque a taxa de mortalidade lá é muito mais elevada.
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De me a 13.11.2015 às 19:37

Sim, sim, do q sei são impecáveis com os miúdos, mas aquilo deve destruir, lentamente, uma pessoa por dentro. Admiro mto estas pessoas. E mm n sendo situações com tanta gravidade ou tão "sensíveis", n deve ser nada fácil lidar diariamente com estas coisas.
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De Psicogata a 13.11.2015 às 14:15

Vai correr tudo bem.
Sei que vale o que vale mas sofrer por antecipação é um desperdício.
Pensamento positivo.

Quanto à frieza como comentei acima e como vi em alguns comentários, nem sempre o que parece é.
É fácil atirar a primeira pedra mas eu não conseguiria lidar todos os dias com o sofrimento dos outros sem uma armadura daquelas bem espessas e fortes de distanciamento e frieza.

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