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de alguém que dizia que se uma criança tem direito a chorar depois das dez da noite, um cão tem direito a ladrar depois dessa hora também visto que o barulho é idêntico.

como?

o quê?

hã?

desculpem?

quando?

como é que é?

quanto a vocês não sei, mas acho muito menos irritante o cão do vizinho do lado a ganir do que os putos do rés do chão a gritar golo enquanto atiram com coisas esquisitas contra a parede.

isso e gente que compara cães a crianças:

por favor não ensinem os vossos filhos a lamber o anus depois de ir ao penico.

 

era só isso.

regredi, eu sei. 

 

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sabem aquelas pessoas

por M.J., em 04.01.18

chatas como o raio que as parta, que se estão sempre a queixar de trabalho e afazeres e que não fazem isto e aqueloutro porque estão muito ocupadas e qualquer coisa serve para lançarem cansaço em palavras?

eu sei e não queria ser uma.

 

mas a empregada avisar no próprio dia que afinal não pode vir ao mesmo tempo que há uma pilha interminável de roupa no cesto, de modos que se me enfiasse nele era capaz de desaparecer para todo o sempre, perdida no labirinto das meias, e o trabalho que constantemente aumenta faz com que, enfim... vocês sabem. 

 

pois. não estou cansada. nadinha. nem tenho nada para fazer. claro que não. 

o ano só começou esta semana?

estava capaz de dizer que já tens uns trinta.

séculos. 

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publicado às 15:20

vera

por M.J., em 04.01.18

às vezes falo com a vera via whatsapp.

são conversas em que colocamos nas palavras um turbilhão de coisas imensas que nos consomem a vida e que raramente desabafamos com outros alguéns.

 

espatifamos nas teclas ou nos telemóveis um sem número de pensamentos, medos, anseios e coisitas, maiores ou menores, que por norma estão bem fundo dentro de quem somos, na certeza de que não podem ver a luz, olhos e ouvidos de toda a gente.

são frases enormes, linhas cortadas, autênticos textos seguidos e ininterruptos das coisas que nos cercam os dias e que pomos ali, a olho nu, numa fúria desmedida, certas e seguras que do outro lado está alguém que nos conhece desde há tanto tempo, que passou por coisas idênticas e que sabe, quase sempre, que aqueles desabafos servem para equilibrar os tormentos de que somos feitas mas não passam disso.

 

às vezes olho para a conversa toda a pergunto se alguma de nós está realmente a ler ou se aproveitamos para escrever tudo, como quem deita fora num detox à pressão coisas tóxicas que consomem, sabendo de antemão compreensão e ausência de julgamentos.

 

são sempre frutíferas, as conversas com ela, mesmo que sinta que estou a falar comigo própria.

e não estando, porque somos absolutamente diferentes - ela é muito mais bonita - pergunto-me às vezes se consigo compreender a verdadeira dimensão deste espaço, onde a partilha de um ou outro pensamento me traz pessoas para o outro lado da vida, onde por norma não partilho nada com desconhecidos.

 

acho que são oito anos Vera, os que podemos contar nesta partilha. 

oito anos de absolutas confidências sem nunca ter ouvido a tua voz, visto a tua letra ou sentido o teu olhar a partilhar um café. oito anos em que o nosso desconhecimento é proporcional ao conhecimento de quem somos.

começa a ser tempo de mudar isso. 

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oh vai ver ali:

é sério

por M.J., em 04.01.18

quantas passas conseguiram comer na passagem de ano?

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tempo

por M.J., em 03.01.18

creio nunca ter tido tanto trabalho como aquele que está neste dias pendente.

nem mesmo quando trabalhava doze horas num escritório havia tantas coisas alinhadas à espera de serem feitas.

é engraçado isto do tempo.

entre os meus doze e dezoito anos jurava a pés juntos que era possível ter tempo para tudo e não entendia as queixas de

o tempo passa demasiado depressa,

ou sequer achava piada às exclamações de quem me via raramente,

tão grande, credo como o tempo passou.

 

o tempo era na altura perfeitamente divisível e havia sempre possibilidade de o esticar, mesmo que a hora de deitar nunca passasse das dez e meia (a mamã era a general de um exército de um único soldado: eu, e não havia margem para resmungo); eu tivesse sempre coisas demais para estudar; ou apanhasse um autocarro velho que demorava quarenta e cinco minutos em cada viagem.

o tempo chegava.

chegava para tudo e ainda sobrava, dobrado em tardes de fim de semana longas e cheias de tédio, em minutos que se prolongavam tão lentos como quando temos uma espinha em pus e lateja mas não rebentamos. 

 

com a faculdade a dimensão do tempo alterou.

já não havia tantas horas para tudo, dobradas em trabalhar numa fotocopiadora (em 2005 os apontamentos eram mais usados na FDUC do que qualquer livro ou internet), a dar explicações, a ir às aulas todas com uma mochila cor de rosa e a estudar em eternidades que se amontoavam em palavras gigantes e feias.

o tempo não era tão grande mas ainda assim não o sentia a fugir, na certeza de que era moldável no futuro, na convicção de que era só uma fase e depois tudo voltaria a ser como dantes.

uma colega minha, com quem partilhei casa uns meses, avisou-me um dia que não. que isso era uma utopia. e que mais tarde, quando começasse a trabalhar, o tempo seria indomável e veria que não faria dele o que fizera outrora.

não concordei na altura mas dei-lhe razão há uns quatro anos.

esse foi um tempo negro.

um tempo em que o tempo não era meu mas das pessoas para quem trabalhava.

o tempo todo que tinha era de outrem, que o moldava à sua vontade, em horas que não passavam e não eram minhas, sentadas atrás de um pc, a bater nas teclas com uma fúria de prisioneira.

nenhum tempo era meu.

nem a hora de almoço, que fugia entre os meus dedos, nem as horas de dormir, sempre curtas e que me punham na inconsciência de um outro dia a esperar-me logo a seguir. 

 

eu era uma prisioneira do tempo e o sofrimento que isso me causou é inenarrável.

de todos os meus tormentos e dores e angústias, doenças e traumas, angústias e desesperos, aquele tempo que não era meu foi o que mais me doeu, consumiu em chama lenta, numa espécie de queimadura a comer a pele e a lembrar-me, por trás de uma janela em frente, que eu não era senhora para apanhar sol, ler meio parágrafo de um livro ou fazer uma chamada.

não me interpretem mal.

não tenho problema nenhum em cumprir horários e em trabalhar.

sou dotada de uma capacidade de concentração bastante grande e faço o que me proponho com gosto, mesmo que não goste do que esteja a fazer.

mas aquilo, aquelas doze horas intermináveis, longas, em que me era vedado sair sem perguntar, em que para ir a uma consulta ao médico precisava de pedinchar e receber um resmungo em troca, em que nenhum minuto me pertencia... foram das horas mais tristes que vivi até hoje.

deixei de ler, de sair com amigos, de ter tempo para tomar um café numa esplanada ou apreciar o correr dos dias.

deixei de ter possibilidade de viver e passei a sobreviver, numa aparência bonita de quem faz o que escolheu.

 

o tempo é mais relativo do que o conceito da relatividade.

e só quando o perdi e o meu deixou de ser meu, é que percebi que não estica, não somos capazes de o moldar e só é nosso quando temos a coragem, a possibilidade ou a ajuda de o reclamar para nós.

 

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a espinha

por M.J., em 02.01.18

nunca ninguém diga que bem está,

dizia e diz a mamã sempre que algo inesperado acontece, uma notícia menos simpática, "a ti maria bateu a bota", mesmo que a maria tia já tivesse mais anos dos que eu vou ter um dia e fosse esperado o final; ou o aviso de um acidente de tractor do senhor qualquer coisa que, mesmo mais do que avisado, vai para montes e vales de máquina em riste sem condições de segurança e fica depois debaixo dele enquanto o resto da aldeia diz, 

coitado, tão novo, morrer assim, a trabalhar,

e a confirmação,

nunca ninguém diga que bem está,

dizia e diz a avó, agora mais velha, mais triste, mais saudosa, a ter na pele o mundo em revolução, o fim sem contar daquele que era a sua vida, certa no que diz,

nunca ninguém diga que bem está,

disse eu ontem, depois de ver a morte passar-me em frente aos olhos quando, enquanto jantava um peixe para desenfastiar das festas e dos exageros, a concentração na tv, o último episódio da voyager quatro meses depois, e pumbas, uma espinha entalada na garganta, vá-se lá entender como, uma das grandes, de tal forma que, tenho a certeza, isto não é a minha hipocondria a falar, podia senti-la do lado de fora se colocasse a mão, e o rapaz a olhar nos primeiros segundos para a minha aflição com ar de descrença, a pensar nos exageros dos meus aneurismas imaginários que me fazem náuseas que não existem, e eu já com as lágrimas a correr pela face, a sensação de algo muito mau na garganta, espetado de um lado ao outro, a tentar explicar que era sério, aquilo a doer e levanto-me meia cega e ele, convencido da minha aflição,

vamos já para as urgências,

e eu sei que vou estar horas numa espera, ao lado de vírus e gripe e pessoas tristes doentes, enquanto um médico irá depois, cansado e sem paciência, enfiar-me algo pela goela abaixo,

deixe-se de mariquices, é só uma espinha,

e nesse momento, numa espécie de adiantamento, sinto a dita espinha a mexer-se, como se um rasgão descesse esófago abaixo, oh meu deus, é este o fim, M.J. morre no primeiro dia de 2018 em pijama e robe, enquanto come dourada e o resto das batatas fritas de ontem, é castigo, tem de ser, por todas as mensagens de natal que não respondi, todos os votos de ano novo que ignorei, todas as pragas que roguei a musiquinhas de natal e chocolates e,

espera, talvez não seja preciso,

digo, enquanto ele se veste num rompante, aquilo a arranhar e a descer, como quando bebemos chá muito quente e sentimos queimar, e pronto, desceu e era como uma dor apertada que ficou no peito, longe de angústia ou do medo do recomeço de outrora em cada novo ano que começava, uma coisa física, uma espinha que abriu um rasgo de dor num esófago triste.

passou?

perguntou ele, as minhas lágrimas já secas, o meu suor na testa.

e eu que sim, sentada, pálida, a vida a passar-me perante os olhos, um médico a cortar o que fosse preciso cortar para tirar uma espinha de uma pessoa que, claramente não sabe comer.

passou,

respondi enquanto bebia um pouco de água que doía como mil espinhas na passagem onde a outra deixara marca.

passou,

concluí depois, já com a cor no rosto,

mas que nunca ninguém diga que bem está.

 

se 2018 continuar como começou tenho 364 dias de ensinamentos da mamã e da avó para aprender na pele.

e não quero.

oh senhores. 

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no mural do facebook

por M.J., em 01.01.18

descubro que 2017 foi para TODAS AS PESSOAS um ano repleto de altos e baixos, com coisas boas e más sendo as más superadas.

que houveram dias melhores e piores, estradas com curvas e rectas, dias de sorrisos e outros de lágrimas.

que se perdeu coisas e gente mas o que interessa é o que ficou.

que se aprendeu com as derrotas, que o que não matou fez mais forte e que as pedras estão a construir os castelos.

que o essencial é invisivel aos olhos e que a vida é uma benção. 

que se tiraram fotos bonitas e outras menos bonitas que não vêem a luz nem a ribalta de uma legenda que toda a gente escreve, em todas as fotos, iguais, de quem contempla isto e aquilo, com olhos postos em todo o lado menos na câmara, para dar a entender que não se percebia que alguém estava a tirar a foto por si pedida. 

 

no mural do facebook, do instagram e das conversas que ouço, em testamentos resumidos de 2017, constato que foi um ano igualzinho para todos, que as mesmas lições foram aprendidas e que as metas feitas agora para os 365 dias que começam são iguais aos milhões de euros queimados em fogo de artifício por esse mundo fora:

  • distraem durante um bocado de tempo;
  • são muitos bonitas;
  • iluminam as pessoas de esperança;
  • mas não duram mais do que quinze minutos até serem esquecidas em fumo e nevoeiro nas trivialidades dos dias que nos fazem. 

 

olá, o meu nome é M.J. e voltei.

como estão todos?

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nunca recebi tantas

por M.J., em 19.12.17

intenções de me "beijarem o coração" como este ano.

é e-mails com beijos no coração, pessoas a quererem dar-me beijos no coração, marcas a desejar-me boas festas com beijos no coração.

 

pessoas:

acreditando que eu aceito como é que pretendem concretizar a coisa?

estão dotadas de uma machadinha para mo tirar cá para fora?

e vão ser beijinhos suaves ou mais intensos, para não destoar da sanguinária toda?

não me deixem nesta inquietação.

 

ele há cada moda.

qualquer dia começam a do: cumprimentos ao teu intestino, queres ver?

 

oh senhores!

entre esta e a do top (o meu coração é top) ao menos esta última sempre era menos evasiva.

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sexta é dia de dar música

por M.J., em 15.12.17

e oh, que música!

 

 

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publicado às 17:31

madeira

por M.J., em 15.12.17

faz hoje uma semana que aterrei na madeira. 

podia vir falar-vos dos sítios que vi, numa espécie de roteiro, recomendando comidas, hotéis, sítios interessantes e qual a melhor maneira de ver a ilha.

mas disso há aos montes pela internet fora. são posts extremamente úteis mas que não consigo fazer, pela falta de habilidade.

hoje quero escrever, para recordar mais tarde, aquilo que senti naquele fim de semana, demasiado curto, a "escapadinha" em que mais senti pena de voltar.

 

mal aterrei e respirei o ar da ilha fui inundada por uma sensação de pertença.

de repente tinha voado para o meio do atlântico e o cheiro do mar misturava-se com o cheiro da terra, tudo junto, como se me abraçasse a dar as boas vindas.

quando fui a londres na páscoa, a sensação que tive, o tempo todo, foi que jamais poderia pertencer ali, ainda que toda a gente ali pertencesse.

o mundo movia-se numa espécie de máquina oleada, as pessoas sabiam quem eram e onde se dirigiam, todas sabedoras da dimensão do tempo e do espaço da cidade e eu tinha um sentimento de que estava a mais mesmo que, valha-me deus, ali ninguém pareça não caber, na imensidão de gente em todo o lado.

e quando aterrei na madeira, mesmo que sendo sítios completamente distintos e impossíveis de comparar, a primeira sensação que senti foi o contraste com a última viagem.

eu podia pertencer ali.

podia ter uma casa, numa qualquer espaço da ilha, mesmo mais a norte onde o nevoeiro impera e o cinzento corta os dias.

eu podia pertencer ali.

tinha serra e árvores e uma imensidão de água a perder de vista.

tinha um sotaque cantado, gente com roupas coloridas a lembrar os ranchos folclóricos do sítio onde nasci.

tinha o cheiro a qualquer coisa de primitivo, que nos acolhe com uma espécie de solenidade mas, ao mesmo tempo de cumplicidade. 

 

não sei do que gostei mais.

se das curvas por toda a ilha, se dos frutos exóticos que comi, comprados a um senhor na parte norte, se do mar a virar a cada esquina, se das pessoas que, mesmo nos sítios mais recônditos me diziam bom dia.

era como se pudesse entrar em casa, sentar-me à janela e comer um pão com manteiga e uma grande malga de cevada.

era como que se estivesse em casa.

 

foi, na verdade, um regresso a uma casa que não é minha.

mas que senti que era. 

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