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cheguei do cabeleireiro.

por M.J., em 14.07.17

não tenho brancas, é certo (viva!) mas tenho:

  • uma brutal dor de pescoço (rais parta as cadeiras estranhas de lavar as melenas),
  • uma seca descomunal no lombo e,
  • sei tudo acerca dos três filhos das meninas que me atenderam.

 

ainda dizem que envelhecer graciosamente é fácil.

 

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publicado às 17:01

vou pintar o cabelo, decisão que tenho vindo a adiar por vários motivos mas, cujo principal, está no tempo perdido, num salão de cabeleireiro, num silêncio constrangedor de quem não sabe fazer conversinha para encher silêncios.

digam-me:

devo levar o pc e trabalhar enquanto me põem coisas nas melenas?

um livro?

um letreiro na testa de "sou muda?"

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envelhecer em conjunto

por M.J., em 13.07.17

estamos a envelhecer em conjunto, concluo, olhando para estes quase seis anos juntos.

estamos a envelhecer mesmo que a palavra velho pareça deslocada nesta fase.

estamos a envelhecer porque os dias correm e nos fazem mais rugas, mais brancas e a ti menos cabelo.

porque já não celebramos meses de namoro mas anos.

porque já sabemos de antemão o que sentimos só de nos olharmos.

porque procuramos no outro o refugio do que nos falta na completude que somos juntos.

porque evitamos dizer o que sabemos já, de ginjeira, que pode magoar.

porque pomos de lado as coisitas minúsculas que incomodam, na certeza que são só assim, minúsculas.

porque nos vemos sempre, um e outro, a caminhar no mesmo passo na procura do que nos espera.

porque assumimos como de ambos falhanços e vitórias, concretizações e degraus caídos. 

 

estamos a envelhecer em conjunto.

já não guardo todos os recibos, papelinhos e coisitas da vida num caderno de anotar quem somos porque são tantos que não faria sentido.

já não penso em fugir no desencontro de opiniões.

desfiz-me da mochila preta e penso em momentos de referência estando lá tu.

é incrível.

tu estás.

tu amas.

tu sentes por mim, em reflexo diário, uma imensidão de amor que me constrói, comove, consola, mantém, e me faz viver em pleno.

 

estamos a envelhecer em conjunto.

e juro-te que não faço a mínima ideia como seria se não fosse assim. 

 

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oh vai ver ali:

coisas que só a mim

por M.J., em 12.07.17

por vários motivos - muitos mesmo, incluindo satisfação pessoal - tenho estado em contacto com manipulação de imagens, noções básicas de fotografia, cores, conteúdo digital, entre outras mil coisinhas que são um mundo.

 

um dia destes, quietinha em casa, recebi um e-mail propondo a frequência de uma formação de photoshop. delirei: cinquenta horas gratuitas e validação a nível de ufcd, pós laboral, pertíssimo de minha casa era um  achado. 

oh lá, lá, disse em alto e bom som, finalmente fui bafejada pela sorte dos deuses do photoshop? pelo que, sem grandes delongas me inscrevi.

seleccionada para frequentar a coisa apresentei-me no dia, consciente da minha vontade de aprender mas, sobretudo, do meu total desconhecimento de como a coisa se processava... pelo que, enfim, quando sentada na cadeira comecei a perceber que o pessoal dominava o assunto  muitíssimo bem, ainda antes do formador começar a falar, comecei a sentir um ligeiro desconforto.

 

pois muito bem, aquele era apenas um resquício do que aí vinha. 

 

boa tarde, disse o formador, na área reservada irão encontrar uma montagem com o antes e depois de uma fotografia. por favor peguem no antes e transformem-no no depois. têm 45 minutos. 

sem delongas, pega, toma lá que já almoçaste. 

mas...

mas...

mas como assim? pensei eu, como assim imagem, mudar, quarenta e cinco minutos?

como...?

de que...

hã?

se eu nem sabia como raio abrir a fotografia, como iria melhorá-la?

sim senhores! lindo serviço!

como coisas drásticas exigem respostas mais drásticas, afastei ligeiramente a cadeira e fiz aquilo que me recusei a fazer durante 16 ou 17 anos de estudo: copiei os passos da colega do lado, pelo canto do olho, abrindo a fotografia no ecrã.

pronto, pensei, a partir de agora é sempre a melhorar. 

só que não:

na minha frente uma tela cinzenta, uma imagem e um montão de botões que não fazia a mínima ideia para que serviam.

assim, eu e a foto de uma senhora, pejada de borbulhas, ambas ali as duas, a olhar uma para a outra, sendo que ela devia ficar mais bonita pela minha acção, contando com as minhas capacidades para lhe subir a auto-estima e corrigir a acne. e o fundo onde estava. e o cabelo.

oh meu deus!!! pois se nem o meu próprio cabelo eu consigo corrigir, como raio faço ao alheio??????

 

quinze minutos depois, passados em intensa agonia,

vou embora ou fico?

levanto o rabo, finjo que preciso de atender um telefonema e desapareço?

caio e desmaio?

digo que não percebo um cu disto?

o quê?

meus deus, me dê uma santa luz, alguém que me ajude a não fazer figura de ursa,

cada vez mais pálida e quieta, o formador aproxima-se de mim, o resto da sala em frenética actividade, cliques daqui, cliques dali, risadinhas, mais cliques e pergunta:

- domina photoshop?

e eu, a voz a tremelicar, mais corada que uma camisola do benfica depois de um jogo de noventa minutos:

 - não...? acrescentando, numa réstia de desculpa, por isso é que me inscrevi?

e ele, voz cansada, como se aquilo fosse um erro comum e banal:

- sabe que isto é photoshop nível avançado, não sabe?

e eu, ai meu deus que agora além de feia, burra nisto e corada ainda vou passar por iletrada:

- não?

 

e o homem, voz levantada, a pergunta em alto e bom som:

- alguém mais aqui nesta sala que não domine o básico?

e eu, a praguejar feio na cabeça, isso chama aqui a gorda de atrasada, isso, a única que não sabe ler.

e mais três mãozinhas, muito tímidas, na parte de trás da sala, levantadas em riste, numa confissão:

eu não!

 

pronto.

é isto.

saíamos da sala os quatro, expulsos muito dignamente.

as nossas mulheres ficaram nos pcs com as suas borbulhas, uma esperança do que poderiam vir a ser se não fossemos tão incapazes e o formador recomendou que nos inteirássemos de tutoriais online antes de lá voltarmos. 

não voltei.

ainda estou a recuperar do choque de ter feito exactamente o contrário daquilo que apregoo:

ler tudo muito bem e inteirar-me totalmente das coisas antes de me meter seja no que for.

quando contei ao rapaz, engasgou-se com rir. 

eu mereço.

é que sinceramente.

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M.J. também opina

por M.J., em 11.07.17

1 - a carolina patrocínio mostrou uma foto da filha, de um ano, bronzeada. como ilustração da coisa os jornais usaram esta foto:

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se esta criança é branca e tem um ano, eu sou o martin luther king e em vez de ter trinta, tenho o sonho de ter 15.

 

2. o pessoal abespinhou-se todo porque o ronaldo alegadamente comprou dois ou três filhos.

diz grande parte do ruído que não é lógico nem moral comprar-se crianças, mesmo que o esperma seja dele, porque à partida recusa-se a mãe a um filho. ou dois. ou vá, três.

eu cá acho que se a maioria do pessoal tivesse feito os divórcios e as regulações de responsabilidades parentais que eu fiz, não só dava graças pela ausência de um progenitor, como percebia que dois pais, duas mães ou um de cada biologicamente não são nadinha importantes ao lado da presença funcional enquanto a criançada cresce.

não vale de nada ter um pai a mais, ou uma mãe em excesso quando, na maioria, só servem para destruir em vez de instruir.

ou acham que temos tantos adultos disfuncionais porquê?

(então e mulheres que têm filhos e não dizem quem são os pais? a permissa não é a mesma?)

 

3. os truques da imprensa portuguesa assumiram quem são as pessoas por trás da página, finalmente, depois de especulação cerrada.

um portista e um lisboeta, muito bem ambos os dois, com ligações políticas e futebolistas que levaram à insinuação da alegada isensão dos dois.

para mim, saber quem são não altera nada o conteúdo da página mas a maneira como se desenrolou a coisa é de uma ironia fantástica:

os truques da imprensa fizeram uma página que releva os truques da imprensa sendo que esta, por sua vez, revelou os truques dos truques.

não é bem?

 

4. o sobral falou em peido e o mundo abespinhou-se.

que o local não era indicado e que a frase soou de uma arrogância atroz disso não há dúvida. mas meus senhores: julgar toda uma personalidade musical por um peido não dado, transformando-o numa besta quadrada é exactamente igual a igualá-lo a herói por ganhar um festival de histerias.

tudo normal, portanto, nenhuma contradição.

em boa verdade o homem foi a personificação da fama sem o proveito: 

não peidou mas levou com as consequências como se tivesse intoxicado o país com o cheiro.

 

5. por falar nisso: o milhão e tal dos heróis portugueses já chegou às vítimas ou ainda está parado na casa santa da misericórdia à espera de ver o sol por trás dos tecidos que compõem aquelas coisas úteis nas calças?

 

contai-me: qual a vossa opinião acerca disto tudo?

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resumo

por M.J., em 11.07.17

fiz uma pausa nos blogs, nos bolos, na leitura e nas saídas.

não vi grande tv e passei largas horas na varanda a ouvir a noite. vi os vizinhos irem de férias, voltarem de férias e usarem o berbequim às onze da noite de uma sexta. achei que seria festa mas era só parvoeira. a fulana da rua que anda de pijama todos os dias às onze da manhã, com um cão pela trela e dois soltos, continuou a vir todos os dias pela rua, cigarro na boca,  gritando aos cães como se fossem pessoas e obrigando o trânsito a parar na rua principal, porque um dos cães se senta a meio e não há quem o arranque de lá. há dias fiz uma aposta comigo mesma para ver qual dos cães era passado a ferro primeiro.

até agora estou a perder. 

a empregada veio uma vez e outra não pode. tenho um monte de roupa por arrumar, dentro de um cesto. pus-lhe um urso de peluche gigante em cima, a ver se passa como decoração mas não estou muito certa disso. deixei de me pesar e meço diminuições e aumentos através da roupa. para grandes males grandes remédios e entrei em desamizade com a balança.

era a rutura de relações ou a morte dela. decidi ser suave.

comi melancia, mirtilos e pêssegos. tentei que jantássemos na varanda, a ver a noite chegar mas o rapaz chamou-me de louca, no medo pelos mosquitos. se o visse pela primeira vez ia achar que, em alguns aspectos, era um menino bem nascido e criado na cidade em vez de na aldeia. mas bem, depreendo que as pessoas se moldam, não é?

 

um dos gatos da mamã desapareceu, o outro engordou. deduzi que o que talvez tivesse comido o irmão mas ninguém me deu atenção. vi casas para mudar, fosse arrendamento ou compra e desisti. sou a pessoa mais picuinhas da face do universo e não há casa que se adeqúe ao que procuro. talvez compre um campo de futebol, no meio de um campo escondido e mande construir uma mansão. até lá convivo com vizinhos loucos e gente amalucada. 

acho que vou acabar os meus dias na serra, num lugarejo desabitado.

não nasci para multidões.

és muito comichosa, disseram-me, e concordei em pleno. sou sim senhores. demasiado espaço quando crescia. uma personalidade moldada no silêncio da leitura e nos campos com vento e pássaros. a vida é melhor quando podemos ouvir os nossos pensamentos e não somos obrigados a ouvir os passos das pessoas que não conhecemos mas que dividem a mesma caixa de fósforos montada do que nós. 

 

tenho uma coisa muito importante para acabar que me tem moldado todos os bocaditos do dia. passo ainda mais tempo sentada e compramos uma cadeira decente que a outra estava a dar-me cabo das costas. carinha que deus me livre mas confortável que só visto.

vou passar o próximo fim de semana numa pousada de portugal. não da juventude, deus me livre, antes dormir num carro fechado que partilhar beliche.

até lá pondero seriamente desligar novamente. 

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publicado às 11:15

contem-me: o que de especial se passou?

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ódio

por M.J., em 10.07.17

a primeira vez que senti ódio visceral tinha sete anos e andava na escola primária.

eu era, como sou, uma trapalhada ambulante: gordita, mau feitio, ar mandão, rezingona, carente, chata, cabelos sem graça e uma péssima conjugação de roupa, que oscilava entre a vontade da mamã e o que a avó achava adequado, numa conjugação estranha de fatos de treino rosa neón dos power rangers com uma blusa de linho de formidáveis golas de renda.

 

a mamã trabalhava o dia todo, naquela época, numa fábrica de confecções longe da aldeia. era o tempo áureo da indústria e por todo o lado havia um armazém com centenas de máquinas de costura e mulheres sentadas, dobradas, o dia todo a cozer.

o facto de estar o dia todo longe da minha mãe causava-me ânsias.

sempre fomos apegadas de uma forma primitiva com sentimentos estranhos que iam do desespero a uma angústia sem nome sempre que ela se atrasava ou não respondia aos meus chamados durante a noite. coisas que, creio, a terapia explicaria, se me desse a vontade de voltar.

 

aos sete anos a mamã, longe de mim durante o dia, fazia questão de me mostrar que eu estivera nos seus pensamentos: um punhado de rebuçados doces quando chegava; um livro sobre os amigos da floresta no fim do mês; uma caixa de cereais que não se vendia na aldeia de vez em quando e, um dia, um elástico para o cabelo que ela mesma fez na fábrica, na hora de almoço. era um elástico estranho. funcional, lá isso era, mas no tecido e padrão com que costuravam na época: militar.

talvez hoje estivesse na moda, quem sabe*, mas na altura não estava.

usavam-se saias coloridas - nunca mais esqueço a saia amarela de uma amiga ainda hoje, com as suas duas tranças compridas e uns olhos gigantes, o mais bonito ser que eu achava existir na minha infância - elásticos com bolinhas azuis e combinações de cores, num pandã adequado.

já eu usava as combinações esquisitas de duas vontades de ferro da mamã e da avó e o meu elástico da tropa no cabelo. 

 

um dia, na hora de almoço, a cantina térrea ao lado do campo de terra, as árvores ao fundo, a menina bem da escola, filha de uma personalidade ilustre da aldeia, sabedora da sua posição - as crianças sabem sempre - apontou o meu elástico e gozou, muito alto e muito bem, sem a minha alarvidade ou espalhafato, sorrisinho ao canto do lábio e cabelo impecavelmente alinhado. gozou forte e feio, mas em bem, com o elástico que a mamã me dera, dias antes e que simbolizava a certeza de que pensava em mim constantemente.

foi a primeira vez que senti o tal ódio profundo.

um sentimento atroz que me fez dores de barriga e lágrimas abundantes, mesmo que eu já soubesse muito o que eram umas e outras, e me perseguiu durante muito tempo, numa conjugação estranha de factores ao longo da vida.

 

lembrei-me disto na semana passada, como tantas outras coisas que o cérebro me recorda quando preciso de clarear a mente e descobrir onde estou.

é estranho que me venham à memória dias que não sabia já terem existido, momentos que pensava não serem importantes ou horas perdidas que nem sabia que me podia lembrar. 

 

conto isto não com o objectivo final de "e olhem onde estamos as duas hoje" (até porque não acredito que quem fomos aos sete anos e as acções que por ali tomamos, desta pequenez, sejam reflexo do que somos e fazemos aos trinta) mas porque me lembrei que a primeira vez que odiei alguém, num sentimento de antipatia que me perseguiu o resto da vida - se me perguntarem da moça hoje em dia, que nem sei onde para, não sinto grande coisita por ela - foi porque apontaram o dedo ao amor abismal que sentia pela mamã.

pensando bem nisso, parece-me um dos motivos mais válidos para odiar. 

 

*fui ver à net, numa pesquisa curiosa: parece que se vende hoje, até, como uma coisa bonita. nunca tão bonito como o meu mas, ainda assim, aceitável aos olhos da moda. 

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acho que estou a voltar

por M.J., em 10.07.17

broa de milho da avó com doce de maçã e canela. café quente. rua silenciosa. bossa nova.

senti saudades vossas.

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banalidades

por M.J., em 03.07.17

às vezes dá-me para desistir.

acordo de manhã e penso não quero. dói-me a vida e tudo é tão claro que bate nos olhos e cega como um sol forte de verão ao meio dia.

não quero, penso, por feitio ou doença. não quero respirar, sentir o coração a bater ou mexer os braços e as pernas no prosseguir da vida.

não quero e o não querer consome porque é ingrato e doloroso.

 

 

não quero, concluo.

acordo e sei que não quero. olho-me no espelho e digo: que tens reservado para hoje sua anormal? às vezes são adjetivos menos simpáticos porque gosto de chamar as coisas pelos nomes corretos e os que se adequam a quem sou nunca são os bonitos.

e não sei responder. não tenho nada reservado, penso, porque não quero. e digo-me adeus ao espelho. tenho quase sempre vontade de me dizer adeus. olho os meus olhos, a minha cara e conto todas as imperfeições. são muitas e encontro sempre mais. e quase nunca sei responder à pergunta do que tenho reservado porque só a faço nos dias em que não sei. são dias de sol abafado que cega, já disse? fecho as janelas e cerro a vida na esperança de um dia cinzento e chuvoso. não resulta.

 

não quero, penso.

e ninguém respeita o meu não querer. sobretudo eu:

continuo a respirar, a sentir o sangue a correr e a avançar pela vida.

 

não quero, sei.

e quando chegar o dia em que o queira mesmo, já não é possível porque é sempre assim.

mais vale nunca querer, digo-me ao espelho enquanto insulto nariz, lábios, dentes e queixo e me aceno em adeus. 

mas nunca me respondo de volta.

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