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empire state building

por M.J., em 26.06.18

quando tinha uns dez anos descobri lá por casa - numa casa muito parca em livros - um volume de uma colecção das maravilhas do mundo.

não sei hoje que colecção era e perdi o rasto ao livro. mas lembro que ele estava numa estante ao lado de uma série de documentos e, na altura, apoderei-me dele como se fosse meu.

contrariamente à casa da minha avó - que tinha uma caixa enorme de papelão repleta de livros guardados como tesouros, aos quais só podia aceder com a devida autorização - em minha casa os livros que existiam eram os que eu, desde muito tenra idade, comecei a coleccionar, comprados na escola com o dinheiro do almoço ou oferecidos por quem sabia que eu gostava da coisa.

aquele volume portanto, das maravilhas do mundo, de capa dura e frases pomposas, com fotografias enormes e um papel suave nos dedos, assemelhava-se a uma relíquia, a um milagre estranho, ali depositado na prateleira dos documentos a que, supostamente, eu não devia ter acesso.

 

durante umas férias inteiras de verão - sem certeza, mas creio que as férias que marcaram a passagem do ensino primário para o ensino básico - eu apoderei-me do livro sem ninguém ver, colocando-o depois no sítio com muito cuidado. e li-o praticamente todo. é verdade que as primeiras páginas foram lidas por necessidade: não tinha mais nada para ler, nem sempre a minha vizinha podia andar na brincadeira comigo, o sol abrasador serrano não permitia que estivesse sempre na rua e não tinha irmãos com quem brincar, numa altura em que estando os meus pais a trabalhar fora de casa, não havia problema de eu ficar sozinha. no entanto, as  páginas seguintes foram devoradas por gozo, mesmo que algumas coisas eu não conseguisse entender.

tentem contextualizar: não havia Internet, não tinha acesso à biblioteca durante as férias, a TV passava apenas um canal e os livros eram limitados. aquela informação ali, das maravilhas do mundo entrou na minha mente e deu-me mais cultura do que a outro miúdo, nas mesmas condições que eu:

  • fiquei a saber, por exemplo, da história de tutankamon e daquele grande tesouro encontrado por um explorador. ou seja, eu, que mal sabia o que eram faraós aprendi ali, numa tarde de calor, tanta coisa acerca deles e jurei que a minha primeira viagem seria ao Egipto.
  • soube também da barreira de corais da Austrália e durante muito tempo quis fazer mergulho.
  • descobri ainda que a ponte 25 de abril era uma maravilha de arquitectura na europa - a única coisa que aparecia do nosso país - e que, anteriormente se chamara ponte salazar.
  • e tantas outras curiosidades que não lembro agora, perdidas na memória.

mas o que descobri e que me encheu a imaginação de histórias e possibilidades remotas foi acerca de um dos maiores (ou maior na altura, não sei) edifícios do mundo: o empire state building. um edifício tão grande, dizia o livro, que poderia assemelhar-se a uma cidade inteira dentro de outra cidade. e o exemplo que me fazia sonhar e abrir a boca de espanto era, segundo o livro, a possibilidade de alguém poder viver dentro dele sem dele sair: havia uma zona de habitação, escritórios e serviços que iam desde cabeleireiros a clínicas médicas, restaurantes e tudo o que alguém precisava para viver.

esta era, para mim, a maravilha mais maravilhosa de todo o sempre.

numa aldeia onde para ir ao hospital precisávamos de andar quilómetros (muitos), onde para ir à escola tinha de apanhar o autocarro, onde não haviam supermercados, veterinários ou grandes fontes de divertimento que não a igreja, um edifício que tivesse nele tudo o que era preciso para viver, sem necessidade de entrar em camionetas bafientas, sem ser preciso apanhar chuva e frio nos dias de inverno com guarda chuvas que se partiam em rabanadas de vento, e ainda aceder a todas as necessidades através de um elevador (algo que eu só entrei umas duas ou três vezes antes dos 15/16 anos) era o expoente da vida. nada mais seria necessário para fazer alguém feliz.

e durante muito tempo passei largas horas fantasiando na minha cabeça, fazendo histórias mentais imensas de como seria magnífico viver num sítio onde recolhida dos elementos da natureza, teria acesso a tudo.

quão maravilhoso seria a possibilidade de ir ao médico descendo as escadas?

ou à biblioteca de elevador?

era como estar dentro de uma casa onde se podia andar de chinelos e pijama para fazer tudo o que era preciso:

poderia ir à escola sem mudar de roupa ou apanhar quilómetros de geada nas costas.

era o sonho: a minha casa seria a minha cidade.

 

com o crescimento, o acesso à informação, a maravilha da Internet e a minha intensa curiosidade, percebi - claro - que nada seria assim linear.

que mesmo que existam prédios cidades a minha vontade será sempre fugir deles e viver numa casa isolada, com acesso a um quintal e grande terreno, sem problemas de andar quilómetros para aceder ao principal.

no entanto, sempre que a vida me apanha na esquina, lembro-me da minha fantasia de infância e, numa espécie de metáfora da imaginação, recolho-me em mim como se eu fosse, sozinha, uma cidade.

eu sou o meu empire state building nos dias das surpresas e nos momentos em que deixo totalmente de saber lidar com o que me rodeia e o que preciso de enfrentar.

fecho-me e ando de elevador dentro de mim, em pijama constante e chinelos, sem precisar de sair do que sou para continuar a viver.

deixo de falar, interagir, reagir com o outro ou ao outro.

se ficar quieta dentro do que sou, constato, a vida percebe que não entra e volta tudo ao que era.

só que não.

 

nestes últimos meses em que deixei de escrever, a vida deu-me vida.

e eu, que julgara já ser impossível, na impaciência de que sou dotada, entrei num pânico cego e doloroso:

nem a minha vida sei viver, tratar ou enfrentar... como ajudar a viver, tratar ou enfrentar a vida alheia que a vida pôs dentro de mim?

recolhi-me portanto ao meu edifício.

fiquei fechada no que sou.

passei dias na escuridão de um quarto negando a possibilidade do que me ocorrera e que eu jurara querer.

as inseguranças de que o meu edifício, tão alto agora, cada vez maior, ruísse entraram em mim e percebi que as fundações próprias do que sou são frágeis e eu continuo avessa à mudança, seja ela qual for, mesmo aquela que acho querer.

não foram meses bons, ainda que o custe admitir na certeza de que não é suposto sentir isso.

foram meses de intenso sofrimento físico, em hormonas e vómitos, enjoos e incapacidade de comer, a consequente fraqueza e o ciclo vicioso do choro fácil e da incapacidade de comunicar.

fui eu, fechada no prédio que sou, sozinha nas escadas, a viver todos os dias nele sem precisar de sair à rua ou falar com o outro.

qualquer que fosse o outro.

 

como sempre precisei de abrir portas e janelas.

o meu empire state building começou a ser pequeno para albergar as mudanças que iam crescendo, aos poucos, em mim.

precisei de sair, arejar, tirar o bafio e a naftalina dos medos e das inseguranças.

precisei de ir às varandas apanhar o sol deste verão tardio e falar com os vizinhos que me compõem os dias.

 

saí.

estou novamente fora de mim própria, completa na integralidade de um todo.

deixei de recolher só ao que sou, no mais escuro do que tenho.

na verdade, o meu empire state building não consegue albergar-nos aos dois, por maior que seja:

a mim e à vida que em mim cresce.

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agora que a poeira baixou

por M.J., em 22.06.18

choveu e acalmou, talvez seja hora de voltar.

haverá ainda espaço?

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Banalidades

por M.J., em 25.05.18

Às vezes quando sentimos que estamos em casa, na vida, sendo casa a metáfora de lar que apenas alguns sortudos conseguem ter, constatamos, num empurrão seco e sem som, que afinal estamos no lado oposto do que acharámos estar.

 

Não escrevo porque já não sou eu. Não falo porque as palavras já não são minhas. Perdi irremediavelmente quem fui, no momento em que finalmente era. 

 

A  todos os que passaram por aqui à minha procura; a todos os que mandaram e-mails querendo saber de mim; a todos os que perderam minutos a perguntar onde estou; a todos os que se lembraram... Obrigada. Mas já não há MJ. 

 

Vamos ler-nos por aí, quem sabe, um dia destes.

Um bem haja. E que a vida seja para vós muito mais do que as banalidades que é para mim.

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é spam para todos menos pró sapo

por M.J., em 18.04.18

tenho contas de e-mails que passam pelo gmail, hotmail, zoho e outros que não recordo.

mas só no sapo consigo ter um filtro spam que passa tudo o que me faz rir.

desde promessas de dinheiro a rodos num português manhoso;

a contas de ebay que vão ser desactivadas todos os dias (quando nunca me registei);

a gente que descobriu que vai morrer e me quer deixar a herança;

a... pasmemo-nos... fotos de uma traição qualquer num espanhol estranho:

 

¡Conseguí las fotos de los dos juntos!
Me puede considerar una amiga porque he pagado a un detective y te estoy mandando por buena voluntad.. También me traicionó y estoy muy triste. Tiene fotos en el motel, en su casa.. no se asuste, yo no esperaba menos!!

 

filha, se contrataste um detective pede-lhe para tentar encontrar aqueles vinte euros que perdi na queima das fitas, em dois mil e nove, e que nunca mais encontrei.

parece que não mas sempre iam dar jeito. 

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casos de sucesso

por M.J., em 11.04.18

há uns tempos fui convidada para falar num workshop, de um instituto público, sobre o meu testemunho enquanto caso de sucesso a nível de empreendedorismo.

fico sempre de pé atrás com a denominação caso de sucesso.

nos dias de hoje, em que palavras e expressões como startup, inovação, disrupção, tecnologia, empresarial, vinte vinte,  incubadoras e... enfim, essas coisas, estão na moda, acho que se perde um pouco do foco daquilo que é realmente sucesso e daquilo que poderá vir a ser, um dia, quem sabe, depois de muito trabalho árduo e capacidade de resiliência.

 

fui convidada, como dizia, para dar o meu testemunho.

falar um pouco do meu percurso desde que bati com a porta e decidi mudar de vida.

falei, portanto.

expliquei os termos da moda que referi acima, incluindo incubadoras e tudo (e não, não se relaciona com os tratamentos de fertilidade e putos prematuros) e continuei pela minha aprendizagem. que, verdade seja dita, aprendi muito desde que decidi fazer-me à vida de uma forma diferente para que fora formatada. passei pelos clichés todos: vontade de sucesso rápido, desânimo nos primeiros falhanços, incapacidade de tomar decisões estruturais, vaidade nas primeiras conquistas, horários desregulados de trabalho, vontade de desistir, orgulho na capacidade própria, certeza de que, voltar a trabalhar para outrem e ver o meu tempo moldado em função de um salário igual, independentemente do meu muito ou pouco trabalho, jamais.

(ah, e a aprendizagem de que jamais digas, ou escrevas, jamais).

 

enfim, fui falar então.

contei da desistência, do primeiro passo, das portas a que bati, dos apoios que tive e concluí referindo a aprendizagem maior que obtive destes últimos anos:

o resultado não é o mais importante. o que interessa é o caminho percorrido e o que dele retiramos.

é verdade.

podem acreditar.

(a título de exemplo: passei toda a minha vida estudantil a pensar nos resultados. notas. médias. passagem de anos. fui formatada, ensinada que o mais importante eram os resultados. a aprendizagem era feita em decorrência do que me iriam perguntar e avaliar. a avaliação servia não para constatar a minha aprendizagem, mas para moldar como devia aprender. tudo errado. anos e anos em que o único foco eram notas, valores finais, médias, resultados. perdi tanto. deixei tanto para trás. ficou tanto no meio que seria de sobremaneira importante para vingar não só enquanto profissional, mas como pessoa. aprendi isso aos 30. pior seria se o tivesse aprendido aos 60. ou nunca: o mais importante é o caminho, não a meta. a vida vive-se pelo caminho, não na meta).

 

no final da sessão, acompanhada de outros potenciais casos de sucesso, foi dada a palavra a quem assistia.

adultos, pessoas mais velhas, mais novas, gente a entrar na reforma, gente a sair da faculdade.

um silêncio abismal, nada que não estivesse à espera e depois surgiram as primeiras perguntas:

apoios.

dinheiro.

massa.

pilim.

como chegar aos resultados.

que se lixe o caminho.

e logo a seguir, perguntas mascaradas de queixas:

de que não havia suporte para pôr ideias em prática, de que era impossível seguir sem salários, de que era muito bonito falar se não houver ajuda, etecetera e tal, amem, que há contas para pagar e enfim.

 

desisti.

ninguém queria saber da minha história, do meu testemunho ou do raio que me parta.

ninguém estava interessado nos meus ensinamentos, na minha experiência ou onde cheguei. o que interessava era que dinheiro eu fizera, como o conseguira, a que portas batera e se, eventualmente, podia dar emprego a um ou dois:

dinheiro. metas. resultados.

 

e percebi depois, de sobrolho franzido e sem saber o que dizer, que talvez aquelas pessoas fossem mais empreendedoras do que eu:

punham na ponta da suma importância o que faz girar o mundo, o que move o destino.

e que talvez eu, com  esta dose ainda de ingenuidade tacanha, esta ideia pequenita que sem dinheiro não faço, mas só com dinheiro também não, estou condenada a ser para sempre raia miúda, micro, insignificante, passando férias na praia da esquina, comendo ovos com arroz e contentando-me com café de cápsula, detergente de marca branca e serões no sofá já velho. estou condenada a não sair disto e à incapacidade de me tornar numa empresária gigante, vestida de saia casaco beije e cabelo com laca. 

 

e ainda assim, mesmo condenada a não atingir o auge, juro, ainda que repleta de hormonas que não são minhas, repleta de trabalho que me impede de ler sem ser aos bocejos e dias que passam a correr... nunca estive tão satisfeita com quem sou, o que faço e para onde vou.

 

(isto, provavelmente, até ao próximo falhanço. ou à próxima injecção de hormonas). 

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atualidades

por M.J., em 10.04.18
  1. o bruno de carvalho encarnou o trump e deseja ser o hitler (com banhos de gás e tudo) do facebook. apostamos em como será o primeiro banhado?
  2. o lula entra na cadeia e diz que passa o tempo a ler, depois de afirmar categoricamente que não gostava dessas coisas de letras impressas e juntar palavras. o que o tempo a mais faz a uma pessoa!
  3. ninguém dá um chavelho furado pelo jardim que se escolheu para o festival da canção. não estranho! coisinha mais deslavada e enjoadona não havia. alguém que vá buscar a susy de mini saia, que sempre tem mais gosto. (na volta, com tanta chuva, o jardim alagou).
  4. os artistas do país lutam por um por cento de cultura sendo que não vai um por cento da população ao teatro. confesso: a última peça a que assisti era do josé luís peixoto e adormeci. 
  5. há crianças a receber tratamentos de quimioterapia nos corredores de hospitais. por mim, o meu um por cento para a cultura pode ir para aí. 
  6. há quem discuta com letras maiúsculas no facebook por causa da chuva a mais e a menos. a sorte é que a china vai fazer chuva artificial e as discussões vão-se ser evitadas. 
  7. o facebook andou a espalhar dados pessoais. se espalhou os meus é bem provável que andem a circular conversas minhas, de dois mil e doze, em que me mandavam pontapés no cu e eu pedinchava amor. vão à procura. nunca se sabe. será uma comédia, mesmo sem um por cento do orçamento. 

 

ai!

e tanta, mas tanta coisa para dissecar e... eu sem tempo.

valha-me nossa senhora do futebol!

não é o bruno de carvalho que vai entrar em burnout. 

sou eu!

(talvez pudesse contratar o lula).

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que cheguei a uma fase em que a vida é regrada a litradas de café.

se o café acabasse no mundo era menina para ficar mais perturbada que o bruno de carvalho. 

juro. 

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banalidades

por M.J., em 06.04.18

estive em lisboa nos últimos dias.

aproveitei o hotel pago do rapaz devido às mil reuniões dele, colei-me que nem uma lapa à possibilidade de ir também e passei o tempo em que ele trabalhava entre almoços (no singular) com a magda, passeatas junto ao tejo, horas de sono numa cama gigante, banhos longos com muita espuma (nunca tinha entendido o objectivo da coisa até decidir apostar num. ou dois. ou três) e jantares em tascas.

foi bom numa pausa mais do que merecida para respirar, depois de uns dias azedos de auto-comiseração, hormonas infernais e sensação de falhanço total. 

 

lisboa, no entanto, não consegue deixar-me com vontade de lá passar mais do que dois dias.

lisboa provoca-me sensação de claustrofobia, por muito grande que seja, em prédios, pessoas, calçada à portuguesa e um trânsito infernal, de apitadelas constantes quebradas pelo barulho de sirenes e aviões. 

não consigo sentir-me em casa ou achar que poderia ser ali minimamente feliz.

mesmo num bairro do bem, com betos que tocassem piano e dançassem balé, calçados com sapatos de vela e cabelo ao lado. 

em lado nenhum, na verdade.

 

olho para a maioria das casas, umas em cima das outras, muito alinhadas, todas juntas, numa espécie de gaiola que não termina e penso quantas vidas ali estão alinhavadas, ao monte, numa privacidade que não existe, numa corrida qualquer de gente e vidas e constante atropelo.

entro no metro, num empurra e foge em hora de ponta, um cheiro que não termina a gente e odores maus, a necessidade de me agarrar a mil bactérias de mil mãos que ali se agarraram e tenho tremeliques, soltando na minha voz serrana interior um muito alto e histérico:

deus me livre e guarde, pelas alminhas!

 

e de todas as vezes que ali vou, ou a outras capitais europeias, sinto na pele todos aqueles ditos que me foram inculcados quando crescia:

quem nasce lagartixa não chega a jacaré;

não chegarei, jamais.

 

o meu corpo grita por casas perdidas em curvas apertadas.

por longos silêncios, por gente parca em conversas e bons dias a todos.

por fruta colhida no quintal, batatas e cebolas vindas da terra do lado e uns quantos frangos ao fundo a fazer companhia a um porco.

quem sou espera por gatos à dormir à sombra de árvores que são minhas e não de todos, em parques de cidades povoados de cocós de cão, agora mais na moda que a própria moda. 

a minha alma grita pelo sino da igreja a marcar o compasso das horas, pelo som dos grilos a avisar que é verão e pelas rolas na cerejeira do vizinho a lembrar-me que estou viva.

mesmo que não haja teatros, turistas, metros, centros comerciais e mil hospitais. 

mesmo que demore horas para ter acesso ao que se poderia aceder em segundos.

 

não sou, não fui, não serei de cidade.

e anseio pelo dia em que regressarei a casa.

mesmo que, durante anos, tenha achado que aquela nunca poderia ser a minha casa. 

 

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banalidades

por M.J., em 28.03.18

não foi uma ausência decidida.

as coisas foram passando, os dias rolando e a vontade de esvaziar sentimentos diminuiu.

ou talvez não tenha diminuído mas deixou de haver vontade de o fazer em palavras veladas, dizendo sem dizer, na vontade de explicar não explicando. 

não leio blogues, talvez, desde o início do ano. ou pelo menos, não estes blogues, de gente que desabafa e fala da vida.

fui deixando passar.

os dias correram e correm e não sei onde se metem nas tantas coisas que tenho de fazer.

a minha vida profissional deu dois saltos e de repente estou cada vez mais atolada em coisas que cada vez gosto mais de fazer.

perdi a vontade de aqui vir, foi o que foi, ainda que esta noite tenha sonhado que aqui escrevia, um texto simples cheio do tempo em que eu comandava o tempo.

 

os tratamentos prosseguem.

há o sentimento entranhado de uma culpa cega, colada aos ossos, ainda que eu saiba que não há uma culpa evidente. 

no dia em que percebi que tínhamos de voltar ao mesmo, noutro ciclo, arrastei-me até à cama carpindo sem carpir, que não tenho tempo para o efeito, e senti o peso da culpa entranhado em cada centímetro de mim.

e se eu tenho centímetros!

é então assim, a vida, isto, eu, nós, as decisões.

e não há como sentir que não sou culpada.

sou, penso.

culpada de todas as vezes que jurei que não o faria. de todas as  vezes que pensei que comigo não. culpada de não poder decidir e não ver isto como é, mas antes uma tarefa.

o meu cérebro diz-me: não consegues. és apenas metade. és incompleta mesmo que, neste momento já não o seja.

a médica diz: um ano. casais que tentam dois anos. normal. nova. sem medos.

e eu sei mas o meu cérebro, sempre a lutar contra mim diz-me: é uma tarefa que não consegues. bem feita, não consegues. e ri-se muito alto, apontando-me os dedos que são meus.

e isso faz-me querer ainda mais, numa espécie de contrariedade. não quero aquilo que os outros querem nisto.

quero apenas saber que consigo. que não há um divino castigo. 

ou isso, ou esquecer. 

sei da pequenice deste sentimento. sei que estamos há tão pouco tempo nisto e é a minha ânsia da contrariedade que obriga a que saltemos dois passos. ou é ou não é. não há metades, ir vendo, um dia de cada vez e essas baboseiras a que nos habituamos para lidar com as merdinhas da vida.

 

vem aí a páscoa.

sonhei uma noite destas com procissões, gente antiga, pessoas que não vejo.

sonhei com velas na mão, o padre a apertar-me as bochechas, roupa nova, missas longas, flores cor de rosa, camélias no chão. 

 

o futuro é agora e eu só penso no que foi.

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banalidades

por M.J., em 16.03.18

quando a vida me bate com muita força e o meu cérebro se alia a essas circunstâncias para me deixar num estado de auto-comiseração e lástima, troco meios serões por meias manhãs.

ou meias manhãs por meios serões.

não é difícil quando temos a possibilidade de fazer os nossos próprios horários, conseguimos marcar reuniões - seja presenciais, seja online - para horas menos matutinas, organizar prazos e comunicações e continuar a trabalhar depois do jantar, noite dentro.

não digo que seja melhor.

em boa verdade, não é.

essa troca de ritmos e horários deixa-me mais molenga e exausta, confunde as horas e os momentos. mas, conhecendo-me vai fazer trinta e um anos descobri quais as estratégias que funcionam comigo e o que posso e devo fazer para enfrentar os dias.

 

sou dotada de um traço depressivo (ou personalidade. ou feitio. ou maneira de ser. ou defeito. ou o que se quiser chamar) que me faz sempre ver o copo meio vazio e, em alguns dias, sem água alguma mesmo que chova a potes.

 

é nesses dias, sobretudo, que levantar de manhã é uma tortura.

e nem sequer está relacionado com o sono, a vontade de ficar no quente dos lençóis ou a preguiça.

é somente a total incapacidade de passar de um estado de pausa na vida para o pleno do dia.

para tomar decisões.

para prosseguir com os minutos.

para encarar quem sou, onde estou e para onde vou.

essa necessidade que nos faz quem somos, esse imperativo que é sacudir os lençóis, tomar um banho e pôr a máquina a funcionar de maneira a levar as coisas em frente não é - em alguns dias - algo que consiga fazer como o comum dos mortais.

 

nesses momentos a única solução é adiar o óbvio, ficar muito quieta olhando o tecto, contar muitas vezes até dez e dizer a mim própria, numa espécie de lista mental, todas as tarefas mais básicas que farei, nos dez minutos seguintes a estar levantada.

resulta porque começo a transformar o turbilhão de pensamentos soltos no meu cérebro em planos concretos, que posso assinalar à medida que vou cumprindo, como se cada tarefa tão básica que uma criança de dois anos faz sozinha, fosse uma conquista maior do que algo que tenha conseguido na vida.

 

normalmente a sensação de absoluta inércia e angústia e inutilidade e ansiedade - e todas essas coisas que os sortudos da vida não sentem - acaba por acalmar depois do pequeno almoço.

o cheiro do café e das torradas tem propriedades calmantes e a capacidade de suavizar pensamentos e emoções que, juro, não têm qualquer razão de ser que não o facto de habitarem mim. 

beberico café aos golinhos, como um alcoólico cura a ressaca com álcool.

vou à varanda, olho o dia e digo a mim própria que é menos um.

rego uma planta, mesmo que esteja já inundada e, se houver roupa no varal, encosto-me na procura do cheiro a amaciador e a flores. 

 

depois disso, a corrente lastimosa é quebrada e torno-me meia normal.

dou seguimento a coisas, bato com força no teclado, atendo telefonemas, resolvo problemas, cumpro prazos e objectivos.

às vezes paro para olhar pela varnada do escritório onde as árvores, em frente, dançam a mesma dança rotineira desde que para cá vim.

em dias de vento, como estes últimos, gosto de sair para me sentir viva, mesmo que saiba, muito por dentro, que provavelmente sou daquelas pessoas que nasceu já morta e que, se me descuidar, consigo trazer para isto quem me rodeia.

não o digo a ninguém, no receio que a vida me trouxe de concretizar em palavras os medos obscuros. 

 

e à noite, quando me deito, esgotada de uma luta mental que domino, finjo que não sei já tudo o que terei de fazer, no dia a seguir, para poder prosseguir com os minutos. 

é que juro, tenho a certeza, alguns deles colam-se em mim e param o tempo.

 

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