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banalidades

por M.J., em 05.09.17

acordei enjoada tarde e más horas.

não que interesse. depois de um fim de semana - que incluiu a segunda - a dormir pouco mais de duas horas por noite, achei que podia dar uma de louca e levantar-me às nove na terça. 

agora sinto que tenho tudo atrasado.

e está.

 

na cozinha cheirava a lavado que esfreguei por montes e vales - foi nada, eram azulejos - ontem a horas indecentes.

a minha compulsão pela limpeza acalmou nas férias mas acentuou-se quando reparei, no descanso nocturno, que ia chumbar no âmbito de uma inspecção de higiene e segurança no trabalho.

e para porcaria já basta as vezes que comi fora de casa.

 

reguei as plantas que pendurámos na bancada.

são da minha obrigação, apesar de as exteriores estarem ao cuidado do rapaz. a malagueteira (existirá tal nome?) morreu (já é a segunda) e a do canto, que não sei o nome, começa a secar. creio que sou inabilitada no tratamento de outras vidas mas não desisto.

a esta, pelo menos, não posso transmitir traumas emocionais.

creio.

será que posso?

 

na rua está cinzento e tomei o pequeno almoço a olhar o mundo pela varanda.

o mesmo mundo que é do tamanho do que vejo: os cedros, a pequena rua, um ou outro carro que passa em frente. o jardim de baixo e dois gatos com coleira à procura do sol.

 

escolhi agnes obel como banda sonora do dia e abri a agenda pirosa de caneta em riste.

alinhei na minha letra escangalhada tarefinhas banais e importantes, tudo muito direito e feio ao mesmo tempo, uma caneta preta de um tom horrendo de dó, pouco conjugável com o rosa da coisinha fofinha que escolhi como lembrança dos dias:

* cinco linhas de trabalho

* ligar à empregada

* agendar a catrefada de posts que tenho numa listinha no telemóvel

* acabar a leitura perdida do livro que comecei antes das férias

* ir aos correios

* passar pela farmácia

* marcar duas consultas

* e uma quantidade de merdinhas chatas.

 

quando acabo percebo que a agenda tem, neste dia, uma frasezinha bonita para animar o dia.

pois que "os sentimentos podem escapar-te da boca mas nunca do coração" e paro e leio e percebo que se calhar aquilo serve mesmo a alguém, que o repete num mantra de sapiência e serenidade, e relembro tristemente, enquanto abro documentos, planeamento de trabalho, e-mails a enviar e objectivos mensais, que a senhora da roulote perto da rotunda, ali plantada desde que me mudei, em dias de chuva torrencial e sol ardente, barraquinha aberta, numa imensidão de certezas das coisas certas, desapareceu e só reparei ontem, quando passava, e me pareceu aquele pedaço de espaço vazio em ânsias de ausência.

e no meio daquele sítio gora de nada, que outrora me fazia parecer mais certas as coisas incertas, mais seguras as inseguranças dos dias, a ilha do costumeiro mesmo quando tudo era um pedaço de questionamento, o sorriso da mulher mesmo em frente, a rotina segura de que o mundo se mantém no mesmo lugar, desaparecido agora, lembrei-me com um baque de que nunca parei para tomar um café e comer um cachorro quente, tal como prometia todas as vezes, e eram muitas, que por ali passava.

só para dizer olá, bom dia e ouvir a voz de quem tornava, na estranhez de quem sou, os meus dias mais normais.

foi-se.

desapareceu.

e se os sentimentos podem escapar-me da boca e não do coração, escapo à minha agenda que é uma porcaria, porque em vez de me avisar, naquela letrinha amorosa, de pacatoadas adolescentes devia saber que preciso que me recorde antes das coisas realmente importantes:

"os dias certos nunca são certos".

 

 

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publicado às 12:00

banalidades

por M.J., em 16.08.17

às vezes percebo que não consigo chorar.

é raro mas acontece. há um aperto apertado apertadíssimo no peito, na garganta, nos olhos, nos dedos enquanto extensão de sentimentos, e não consigo chorar. seca de lágrimas. repleta de sentimentos corrosivos, que queimam num constante loop, numa constante ebulição.

queimo sem queimar. 

o mal de não conseguir chorar é que sem o pranto impulsivo de cinco ou dez minutos não há, inevitavelmente, a bonança após a tempestade e a sensação de perda de norte intensifica-se durante muito tempo.

sei que a maioria das pessoas não sobrevive desta forma, numa constante procura de qualquer coisa, numa constante insatisfação, num constante desconhecimento, numa constante incerteza, numa constante incapacidade de ser. a maioria das pessoas vive. arranja uma série de refúgios, subterfúgios, coisitas que permitem a continuação de cada amanhecer.

eu não consigo e galgo as horas como um rafeiro perdido e carracento, que morde quem lhe dá comida e abana o rabo à ideia de algo que parece brilhar mas é pechebeque em vez de ouro. galgo as horas como uma espécie de abutre na espera dos restos que me possam acalentar os minutos. 

a minha constante insatisfação diária é legendária e demonstra o ponto em que me encontro, o que sou e o que tenho. e em minutos em que não consigo chorar o meu azedume gritante berra em prantos que chega de ser. 

estou tão cansada. 

 

e quem não está? repete-me o reflexo ao espelho. 

quem não está?

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casa

por M.J., em 10.08.17

as minhas incursões nocturnas pela casa costumam ser mais frequentes quanto mais tarde me deito.

normal.

agora que estou de férias - uma semana antes do rapaz - tenho praticamente os ciclos de sono trocados.

nunca fui uma pessoa amplamente matinal mas, levantar-me às onze ou ao meio dia - como ontem - é invulgar e não me põe bem disposta.

pelo contrário.

 

esta noite fiquei a ler até bem depois das duas.

há um lugar no sofá especialmente destinado para as minhas leituras, uma lista de música destinada ao efeito, uma caneca de chá na mesinha de apoio e um candeeiro que amortece o ambiente, numa espécie de cenário de igreja. 

gosto.

na rua o vento batia nas janelas, na cadeira da varanda, na roupa na corda, nas plantas nos vasos. as árvores moviam-se na velocidade de uma pequena corrida de cinquenta metros e ouvi voar qualquer coisa. 

às três da manhã fui à varanda:

uma lua gigantesca no céu e um ar frio.

uma ventania ao género de temporal sem chuva.

um silêncio arrebatador com dois ou três grilos e o som do vento nas árvores, nas casas, nas ruas e no meu cabelo.

a vista sobre a cidade era minha e sobre a lua também.

2017-08-10 03.07.46.jpg

 

pela primeira vez, vai fazer dois anos, numa quinta feira às três da manhã, descalça numa varanda a tremer de frio, um vento a lembrar-me a serra e o mar, o silêncio que percorria a vida, senti-me em casa.

estou finalmente em casa. 

 

na cama o corpo dele quente descansava.

encostou-se a mim, quando me deitei, o vento a brincar nas paredes, o som de um temporal sem chuva na rua.

e apercebi-me então que já estava em casa antes de saber que estava. 

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banalidades

por M.J., em 24.07.17

tive uma crise de choro, um dia destes, enquanto ouvia uma música aleatória das centenas de bandas sonoras que passam pelas colunas, todos os dias, enquanto matraqueio as teclas.

foi assim num rompante.

estava tudo normal, um dia claro, o som tranquilizante dos vizinhos ao lado, a correria de um dos cães na rua em baixo, a janela aberta com duas folhas de orquídea a entrar junto à parede e, quando dei conta, estava a chorar descontroladamente, um rio de lágrimas em marcha até ao chão.

uma dor cega.

um baque surdo.

um desespero sentido. 

 

fiquei prostrada, a cabeça em cima dos braços, o teclado atirado para um canto. não havia nada: nem sol, nem luz, nem continuidade, nem esperança, nem eu ou alguém. só um sentimento atroz de escuridão que me podia consumir.

sentia, naquele instante, que podia ser engolida e desaparecer num fundo negro de escuridão, ali, a música, o cão, os vizinhos, a orquídea e a janela.

 

lembrei-me nessa altura da minha prima porque me lembro das pessoas também em função das épocas em que vivemos.

no verão era assim: eu saía de casa antes das seis (ou seria sete?), subia a rua, entrava pelo portão, subia as escadas e chamava por ela na porta da cozinha. mais velha do que eu três anos ela era - e é - dotada de uma vivacidade que eu nunca tive e uma força de três furacões enraivecidos. qualquer obstáculo era contornado com a ligeireza de quem encontra justificações para o que acontece sem questionar.

ela andava por ali. regava plantas, limpava a casa de uma ponta à outra, combinava saídas, fazia bolos e tinha planos. a energia dela transbordava em cada poro e eu sentia-me sempre pequenital, assoberbada pela gigantesca capacidade dela de ser. 

no quarto dela havia um televisão e dezenas de posters colados nas paredes - a mamã fizera-me arrancar o único que me arriscara a pôr no meu quarto - que vinham nas revistas compradas por duzentos e tal escudos: dos excesso, dos anjos e de bandas do outro lado do mundo que nós cantarolávamos num linguarejar estranho de quem não domina o inglês. nós deitávamo-nos sobre a cama e víamos a novela. não eram os morangos, coisa mais recente ainda que antiga, mas uma brasileira, onde as miúdas eram magras e sofriam de anorexia por serem apelidadas de gordas, andavam numa escola com piscina, tomavam pequenos almoços gigantes e iam a centros comerciais onde eu, com 13 ou 14 anos nunca entrara.

era sempre uma maneira muito boa de acabar as tardes. 

 

lembrei-me da minha prima e das novelas e dos fins de tarde de verão a ver novelas que entretinham a alma e o tempo no meio daquele desespero cego. lembrei-me dela e telefonei-lhe, a sensação de absoluta solidão pelo corpo, o choro compulsivo apenas amainado para que não notasse. 

falou-me dela.

como sempre fazia. contou coisas, momentos, planos e anseios. num relato comprido que me enxugou as lágrimas, me acalmou as dores, me alisou a solidão que sinto colada aos ossos e a perda que não existe mas que parece ser a única coisa de que sou feita. 

 

esta tarde, quando falei com a minha prima, perguntas curtas da minha parte na tentativa gloriosa de a ouvir falar, minutos completos, seguidos, planos e momentos, tive 13 anos outra vez e fui acalmada dos meus anseios pela força com que ela comanda a vida ainda que, em segredo, eu saiba que é a vida que comanda a ela.

 

na maior parte das vezes não preciso de nenhuma palavra de consolo dirigida a quem sou.

preciso apenas de olhar e ouvir o outro, perdendo-me por instantes da minha patética maneira de sentir. 

sou tão ridicula. 

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banalidades

por M.J., em 20.07.17

a verdade é que, analisando bem a coisa, é tudo uma questão de perspectiva. 

todas as vezes que passo pelo corredor e me olho no espelho de parede, e vejo como a minha expressão se altera nos dias, ora num mutismo cego, sem nexo, ora numa sensação de leveza e conquista, e analiso as horas e percebo que as as diferenças radicais são meramente emocionais, pedaços de nada, sem nada de importante a não ser  a minha mentalidade, sei que é tudo perspectiva.

sou eu dona de quem sou e não comando minimamente como me sinto.

a mesma chávena de café consegue ter um sabor amargo hoje e doce ontem.

a mesma brisa fresca nos lençóis a secar na varanda é percepcionada de duas formas diferentes e isso é ridículo.

devia sentir em função das vivencias e não vivenciar em função do sentir.

acho eu, mas eu não sei nada.

 

para a merda tudo isto, desabafo, atirando o teclado contra o monitor.

há mil coisinhas a fazer, tanta coisa a aligeirar e deixo morrer os dias no que sinto sem motivo.

observo a rua quando abro a janela do escritório: está fresco, os cedros dançam nos mesmos movimentos desde que cá cheguei vai fazer dois anos, e a manhã morre mansa.

o grande problema, constato, enquanto trinco a borda da chávena de café meio bebido, é que deduzi que estes cedros, aqui em frente, seriam passageiros, uma mera temporada rápida num intervalo da vida de dois anos, não mais.

e é esse o mal das expectativas.

acreditamos em coisas que sabemos, no fundo, serem só mais ou menos mas, ao mesmo tempo, vamos moldando a vida ao que acreditamos. era só passageiro. só um intervalo antes do regresso a casa. estes cedros, esta rua, a senhora maluca dos cães que lhes grita todas as manhãs, as flores roxas do jardim, as ervas daninhas atrás da garagem, as varandas com vista para o nada porque nunca quis que fosse tudo, tudo isso seria passageiro. não interessava dar-lhe grande valor. não interessava pôr fotografias nas paredes, mudar os sofás ou comprar mais plantas. não interessava organizar os livros, alterar tapetes ou pensar noutros candeeiros.

era só passageiro.

era só mais uns dias antes da brisa do mar na face, da casa no bairro do estudantes, no jardim enorme com um banco que era meu, na vizinha da mercearia, ou na árvore que entrava toda sala dentro. 

 

era só passageiro e essa passagem chegaria agora ao fim.

e apesar de não ser promessa ou certo, era certo e promessa nas minhas expectativas.

esta cidade onde vivo hoje não é minha. esta casa não é a minha casa e não há pessoas que me sejam pessoas porque nunca quis que fossem. perdi laços de onde vim e não criei novos onde estou. deixei a sensação de casa perdida e não a encontrei aqui porque era só passageiro.

sou mais pequenina do que sempre fiz crer.

crio amarras e raízes que se entranham na terra e não consigo desligar-me. lá foi o único sítio onde me senti em casa. e essa sensação, talvez exacerbada ao limite, faz-me acreditar que não o sentirei em mais lado nenhum.

nem lá, outra vez, porque já lá não há quem eu era.

 

viver é uma canseira e começo mesmo, mesmo, mesmo a ficar farta disto.  

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banalidades

por M.J., em 18.07.17

dormi mal esta noite.

a cama estava quente e o ar abafado. levantei-me às três da manhã e abri, desesperada, todas as janelas da casa, na esperança vã de sentir o ar da noite na pele.

estava escuro e haviam luzes espalhadas na cidade. tive saudades da noite que é noite, das luzes mortas e do sino que vela os sonhos, esperando a hora certa de acordar.

bebi um copo de água. estava morna e haviam dois mosquitos no ar, num zumbido intenso de quem espera um jantar. 

acordei esta manhã cansada, numa noite mal dormida. a empregada telefonou, muito depois da hora de chegar, a avisar que afinal não vinha. tenho mesmo de arranjar outra mas perco a paciência de procurar, tal como perco a paciência de ler, escrever, trabalhar, viver ou dormir.

perco a paciência e não sei se a tive, alguma vez, ou se este desespero de viver, agarrado à minha alma como duas mãos aflitas, faz tão parte mim como o meu braço direito.

 

canso-me que viver é uma canseira apática, de quem procura um significado que não existe, uma sentido que não há, um caminho que não passa, ilusoriamente de nada no meio de nada.

dormi mal esta noite.

tomei o pequeno almoço cansada, em frente a uma das plantas que ele rega quando chega a casa. gosta de cuidar, ele. olha as coisas com amor, pega nas folhas mortas e retira-as, calmamente, numa cirurgia delicada. olha a terra onde estão as raízes e molda-a sabendo que elas irão para onde ele quiser, desde que lhes providencie estrutura. limpa-lhes as folhas, mima as flores mais viçosas. gosta de cuidar, mesmo. às vezes, na hora de jantar olha-me e diz é preciso regar as plantas, regaste as plantas hoje? num sentido de missão e dever. 

nunca as rego. deixei morrer umas quatro ou cinco, na varanda, até ele tomar as rédeas do assunto.

pressinto, às vezes, uma analogia qualquer nisto tudo. 

depois concluo são só plantas e prossigo.

numa canseira.

 

dormi mesmo mal esta noite.

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banalidades

por M.J., em 03.07.17

às vezes dá-me para desistir.

acordo de manhã e penso não quero. dói-me a vida e tudo é tão claro que bate nos olhos e cega como um sol forte de verão ao meio dia.

não quero, penso, por feitio ou doença. não quero respirar, sentir o coração a bater ou mexer os braços e as pernas no prosseguir da vida.

não quero e o não querer consome porque é ingrato e doloroso.

 

 

não quero, concluo.

acordo e sei que não quero. olho-me no espelho e digo: que tens reservado para hoje sua anormal? às vezes são adjetivos menos simpáticos porque gosto de chamar as coisas pelos nomes corretos e os que se adequam a quem sou nunca são os bonitos.

e não sei responder. não tenho nada reservado, penso, porque não quero. e digo-me adeus ao espelho. tenho quase sempre vontade de me dizer adeus. olho os meus olhos, a minha cara e conto todas as imperfeições. são muitas e encontro sempre mais. e quase nunca sei responder à pergunta do que tenho reservado porque só a faço nos dias em que não sei. são dias de sol abafado que cega, já disse? fecho as janelas e cerro a vida na esperança de um dia cinzento e chuvoso. não resulta.

 

não quero, penso.

e ninguém respeita o meu não querer. sobretudo eu:

continuo a respirar, a sentir o sangue a correr e a avançar pela vida.

 

não quero, sei.

e quando chegar o dia em que o queira mesmo, já não é possível porque é sempre assim.

mais vale nunca querer, digo-me ao espelho enquanto insulto nariz, lábios, dentes e queixo e me aceno em adeus. 

mas nunca me respondo de volta.

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banalidades

por M.J., em 30.06.17

na maior parte dos dias, não há dúvida, viver é uma perda de tempo em que caminho amarrada a uma pasmaceira igual às pasmaceiras de todas as vidas que não são dignas de nota.

não há acontecimentos fulgurantes a fazer vibrar as horas ou amontoados de excitação que causam borboletas no estômago e revolta na barriga.

não há o brilho da adrenalina, a sensação de estar vivo em pleno, num aproveitamento de cada minuto:

rotina, banalidade, dias triviais e vulgares que morrerão na história, como morreram todos os dias e banais de todas as pessoas corriqueiras como eu.

 

na maior parte dos dias, repito mesmo, viver é uma perda de tempo e seria bem mais agradável se pudéssemos, logo de manhã, ao acordar num dia fresco de neblina, as árvores em frente a pingar de choro nocturno, o ar frio que nos lambe a cara, as pessoas num caminho desenfreado de quem sabe ao que vai, ainda que o ir seja exactamente igual a ontem e tudo se transforme num nada claro, viver é, dizia, uma perda de tempo e seria mais saudável se pudéssemos desligar ao acordar, fazendo um boicote ao esperado.

 

não sei quanto a vós mas, tem dias, que se pegassem na minha vida e a dissecassem aos pedacitos, horas e minutos de um lado, acontecimentos e importâncias do outro, esfumava-me em ar e era só cinzas, mais pequenas de que os mosquitos que tirei, no fim de semana passado, da matrícula do carro. 

 

na maior parte dos dias, sei disso, a minha vida tem a grandeza de um funeral de mosquitos num carro a alta velocidade numa auto estrada deserta.

só é pena não ser tão magra como um mosquito com fome:

mal por mal, sempre tinha algo digno de nota.

 

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o terror do fogo

por M.J., em 20.06.17

as ervas dos passeios secam no sol fervente da manhã. há um silêncio seco na rua e até o canto dos pássaros é molengo.

não há uma brisa pelas árvores e as folhas morrem lentamente queimadas pelo calor abrasador.

detesto este tempo.

 

acordei de manhã cansada de uma noite às voltas na cama.

é o último ano que passo numa casa sem ar condicionado, digo. depois penso nos meus primeiros vinte anos de vida e sorrio perante esta minha decisão.

 

na serra o calor era mais calor do que é aqui.

as casas acordavam ferventes e quando era mesmo pequena ia com a avó, ainda o sol dormia, tirar o leite da vaca para que, ao amanhecer já estivéssemos resguardados em casa. e fingiamos que não dávamos conta de que a casa, nas partes em que não era de pedra, era tão quente como uma poça de água estagnada ao sol.

 

a manhã passava-se lentamente.

a avó cozinhava e transpirava. houve um verão completo que a rotina era a mesma e é a que mais recordo. almoçávamos na hora do telejornal e dormíamos a sesta ainda que, agora, confunda tempos e sementeiras, num grande emaranhado de recordações.

uma vez por semana, mesmo na calor abrasador de agosto, acendia-se a fogueira para aquecer o forno e cozer pão. a avó transpirava de manhã à noite: quando amassava a farinha com a água, quando fazia o sinal da cruz no pão por cozer, quando varria as brasas do forno e as transportava com uma pá de ferro, quando colocava o pão, ainda só farinha e água, dentro do forno fervente, quando tapava o forno com uma porta de ferro e colocava farinha com água nas frinchas para impedir o calor. sempre embalada por uns quarenta graus à sombra. 

transpirávamos todos depois.

sentávamos-nos no pátio, debaixo de um pequeno coberto mas o calor inundava tudo vindo do forno, vindo do sol. às vezes fazíamos limonada, da água do poço que aquecia muito rápido. e os dias eram longos, e as tardes imensas sobretudo quando, ainda ferventes, se ia às terras fazer o que as terras pediam e não esperavam.

 

quando um incêndio deflagrava ao longe o pânico inundava-me com a mesma intensidade do calor.

as pessoas vinham à rua e telefonavam, em telefones pretos com teclas que eram um disco giratório, para os bombeiros da vila. as sirenes eclodiam pelo ar e mais pessoas se afligiam. subíamos a terraços, escadas e pontos altos para ver o fogo. e havia o medo. medo da morte de um sustento que permite uma vida digna. medo da perda de tudo o que consistia quem éramos. a morte de uma vaca, de um porco, de umas árvores num pinhal podiam significar a morte da dignidade entre comer ou não. 

o fogo era um demónio no verão que nós assistíamos, muitas vezes, do outro lado do rio. dizíamos "aqueles já estão habituados, todos os anos a mesma coisa" mesmo que do nosso lado, de vez em quando, também deflagrasse e as sirenes de repetissem em ecos de medo. 

 

é difícil perceber-se o trauma da perda de nada quando o nada é o tudo que se tem.

é difícil entender-se que as pessoas não queiram sair das suas casas, sobretudo quando parecem, aos nossos olhos mimados, barracas pobres e feias. juro que entendo e ao longe, visto daqui, aquela recusa do abandono parece-me uma imbecilidade.

mas não é.

chorei tanto este fim de semana, nas reportagens atrozes que iam passando, a exploração de quem perdia quem era, as lágrimas, os gritos, chorei tanto porque me lembrei de quem fui e de onde vim. ou melhor: de quem sou e, provavelmente, onde terminarei.

lembrei-me do valor de uma árvore. da sombra, da madeira que nos aquecia no terror gelado do inverno ou dos frutos que apanhávamos e comíamos como guloseimas.  

lembrei-me do significado de uma casa que se construiu a vida toda mesmo que pareça velha, acanhada e pequena.

lembrei-me do sentir bruto, na dor sem palavras bonitas.

lembrei-me disso tudo e a dor que me consumiu foi maior do que o calor todo que senti uma vida.

 

o terror do fogo, a empatia da perda de quem perde tudo, a compaixão por quem morre consumido em chamas tem em mim esta dimensão maior porque podia, literalmente, ter sido comigo. não me faz melhor pessoa.

a transformar-me é em egoísta.

 

odeio este tempo.

também me lembro agora de onde vem este ódio visceral. 

 

(e estes pedidos abundantes das tvs, estes 760 que me inundam a caixa de mensagens por pessoas que acham que devem lembrar-me de telefonar para "ajudar" quem perdeu absolutamente tudo, dão-me agora vómitos. causam-me uma indignação tamanha que sinto vontade de insultar tudo e todos.

quanto desse dinheiro chega às vítimas? quantas vistorias se fizeram a essas iniciativas e se concluiu que, efectivamente ajudaram?

quanto dinheiro fica pelo caminho, retido em quem não precisa?

dar a merda de cinquenta cêntimos no sofá, enquanto nos abanamos ao fresco e dizemos "coitados" para a tv pode aliviar a consciência e conotar-nos como bons humanos?

tende juízo. tende vergonha!)

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banalidades

por M.J., em 16.06.17

tenho-me arrastado pelos dias.

ridículo. repito ri-di-cu-lo. há uma luta constante de que faço parte. melhor: que construo, persigo, decido, batalho e perco e ganho ao mesmo tempo, porque não podemos perder sem ganhar a nós próprios e vice-versa.

uma merda.

para começar detesto este tempo. trabalho numa espécie de penumbra com tudo fechado, ao género de igreja, cortinas corridas no objectivo de não entrar o calor que é uma bosta trabalhar-se com calor. talvez o problema seja da minha evidente obesidade mórbida que me faz transpirar mais do que os outros.

não sejas parva M.J. maria, diz-me a mamã quando lhe digo estas coisas, olha que deus castiga e ainda te engorda tanto que precisas de uma cadeira de rodas para arrastar a gordura e alguém que te limpe debaixo da banha nas costas.

eu já preciso! disse-lhe uma vez, absolutamente encantada com um deus que engorda pessoas como castigo - aposto que em áfrica daria um jeitaço -  e tenho a certeza que teria levado duas galhetas nas trombas se ela estivesse ao meu lado porque, cito, "com coisas sérias não se brinca".

para que conste: não preciso nada.

ainda. 

depois é impossível fazer as coisas normais:

vai lá tomar café com quarenta graus à sombra! vai lá ver a tarde a cair na varanda com o sol a bater de frente na rua deserta. vai lá beber um chá quente quando te apetecia era estar dentro de um cubo de gelo!

detesto pronto.

acredito que haja quem goste e talvez eu seja a excepção mas desde que me lembro que o verão é uma consumição - rimou! uma escritora nata - e este ano mantém-se a regra. fico rezingona, molenga, pegajosa, preguiçosa e todas essas coisas acabadas em osa, que todos somos mas que só alguns admitem.

uma merda.

o meu mau feitio tem sido tão evidente que evito ao máximo falar com pessoas. tarda nada deixo de conseguir comunicar.

- bom dia.

- mumblemjugnfleonmsw.

- tás bem?

- vai para a merda! tenho ar de quem parece estar bem?

confesso que entrar nos trinta foi uma ferroada. também não gosto. a ideia de imortalidade e de absoluto tempo da casa dos vinte esmiufou-se (sim, estou numa de inventar palavras). agora os dias são contados. começo a ficar velha para certas coisas. as pessoas à minha volta comportam-se como tem de ser. produzem pessoas. compram casa. medem as salas para pôr sofás novos. trabalham das nove às cinco (ou às nove, mas isso são outros quinhentos, cada um é que sabe até onde aguenta) e organizam baptizados.

baptizados meus senhores! 

baptizados (leva p ou não leva p?) água na cabeça de putos que produziram, a melhor roupa, o cabelo empeloucado (outra) com laca depois da visita ao cabeleireiro e um orgulho descomunal em mostrar ao resto do mundo que produziram uma coisa e são orgulhosamente ativos na continuação da espécie. e eu lá a ver e a acenar enquanto o rezo cinco avé marias para talvez ficar ali nos quarenta. 

senhores que mau feitio.

o que interessa é que percebi finalmente esta minha incapacidade de me inserir no tempo em que insiro.

há quem amadureça aos quarenta, quem seja adulto aos dez. eu vou saltando. vivo precoce ou tardiamente cada fase e por isso não entendo o resto do mundo. talvez esteja a baptizar putos aos cinquenta, depois de congelar óvulos. ou talvez peça conselhos ao ronaldo e compre um ou dois, que isto o impossível até agora, é só ressuscitar.

ou talvez não.

cristo ressuscitou ao terceiro dia.

vou perguntar-lhe como fez no baptizado.

e rogar-lhe que não me engorde até deixar de sentir as pernas, que isto mais vale jogar pelo seguro e o seguro morreu de velho.

 

morreu nada. 

ainda há dias o vi na tv!

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deu discussão! (quase porrada)