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banalidades

por M.J., em 05.06.17

tivemos uma discussão idiota sobre coisas idiotas.

sem sentido.

parva e pequenina como são todas as discussões que temos. acabou em sushi e, para comemorar no dia a seguir, waffle com gelado. 

sim senhor! não bastava a discussão ainda nos encharcamos em açúcar.

um dois em um.

 

estou gorda (não creio que o verbo "estar" seja o mais adequado e tenho para mim que devia substituí-lo pelo "ser") e, como todos os gordos, de vez em quando tomo medidas desesperadas.

desta vez foi o ginásio.

vou inscrever-me hoje visto que o desgraçado não tem período de fidelização e, se perceber que foi só um escape, não preciso de voltar.

adianto já que não gosto da ideia de dar pulinhos e transpirar horrores, ficando vermelha e puxando os óculos para o sítio certo enquanto o suor me cobre de um cheiro pouco agradável. pagar por isso então dá-me uma certa náusea mas já percebi que não faço exercício sozinha e que, ultimamente, tenho descontado as merdices da vida na comida.

mesmo a que não tem açúcar e promete não ter gordura. 

a minha alma de gorda mantém-se, não importa o que faça, e vai ser uma imagem do demo eu a rebolar o rabo a fazer algo chamado zumba, numas calças de licra coladas a sítios que por norma deviam não ter nada colado, com t-shirts laranja néon que alertam "aí vem o hipopótamo".

ai.

 

concluímos há uns tempos que, estando a entrar na porra da idade adulta, as responsabilidades que temos não chegam.

que se há-de fazer?

dois idiotas parvos que gostariam de ter ficados perdidos na idade em que a maior responsabilidade era não perder um jogo de PS3 (na altura ainda não tinha saído a outra - deus, quão nerd estou a ficar?) ou estar à porta da livraria na noite da saída do potter, acham que ter contas a pagar, trabalhos a manter, dormir às vezes cinco horas por noite e manter uma vida minimamente decente - seja isso o que for - não chega, não traz pressão suficiente, e começam a pensar para aí além.

uma merda, digo-vos já.

primeiro, porque não me interessa nada crescer mesmo que seja inevitável. depois porque jurei a mim mesma não me meter em adultices típicas que estropiam a vida das pessoas quando a coisa corre mal (mesmo que, na altura em que o jurei isso, tivesse a perspectiva de uma galinha a esgravatar enquanto vê outra galinha a ficar sem cabeça para o jantar).

uma idiotice.

 

seja como for, o tempo não para e não ficamos para novos.

há uma urgência qualquer que nos obriga a tomar decisões desconfortáveis e meter-nos em alhadas.

vale a pena pagar renda? compramos casa? andamos a desperdiçar demasiado dinheiro em putas e vinho verde? (ainda que, enfim, não conheçamos nenhuma puta e eu só beba, muito de vez em quando, um cálice de vinho do porto) que tal canalizar orçamento para uma poupança maior em vez de sair tantas vezes? vamos ser pais ou avós? 

deus, uma consumição.

a ideia de assentar arraiais para todo o sempre num sítio, com imis para pagar, obras disto e daquilo, um jardim ao fundo com relva para manter, duas assoalhadas (ia escrever três mas não tenho bem a certeza do que seja uma assoalhada) e convivência com vizinhos, pessoas a produzir pessoas (sendo que eu serei a primeira pessoa), a impossibilidade de dizer "vamos sair para aqui", "vamos jantar ali", "onde vamos de férias?", "não me apetece cozinhar", "dormimos a manhã toda", aquilo que somos hoje posto de lado, a fuga do controlo (sobretudo esta) dão-me cabo da ideia.

 

fiz trinta anos ainda não faz um mês.

recuso-me a tomar decisões que me mandem directamente para os quarenta, mesmo que haja qualquer coisa que me diga que tem de ser e que a síndrome do peter pan não combina com a cor dos meus cabelos.

além de que, quando penso nisso, conclua, foda-se, que se tivesse sido mãe aos dezasseis só faltavam 4 para a criança atingir a maioridade e eu estar livre de pensão de alimentos, preocupações com bullying ou quartos desarrumados.

 

dormi praticamente nada esta noite.

acho que se nota. 

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banalidades

por M.J., em 01.06.17

levantei-me tarde hoje porque tive insónias e adormeci quando - na aldeia - os galos já cantariam e o padeiro faria a sua ronda de entregas.

acordei, por isso, em sobressalto, a sensação das horas perdidas. a minha cara estava inchada quando me olhei ao espelho com olheiras fundas e carregadas. sentia a garganta em lixa num prenúncio de doença. tomei o pequeno almoço a correr e fui à varanda tomar café. está nevoeiro, cinzento, feio e triste. senti-me triste. o café soube-me triste e as árvores em frente emudeceram em tristeza.

sentei-me há vinte minutos a trabalhar. 

não escrevi uma linha.

 

creio que tenho, também, insónias, durante o dia.

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banalidades

por M.J., em 29.05.17

passei o fim de semana a fazer muito e a não fazer nada. 

tive reuniões de trabalho. duas. dormi. de noite, na manhã toda de sábado e na tarde de domingo. transformei dois quilos de tomate em polpa. fiz um bolo de cerejas. comi cerejas. fotografei cerejas. li um bocado. esquartejei um galo do campo que a mamã me mandou. jantei na serra. fiz sopa de batata doce para a semana inteira. fui lanchar um croissant de ovo. fiquei enjoada com o ovo do croissant. ouvi bon iver. arrumei o armário do meu quarto. pensei no passado. uma, duas e três vezes. ou mais. fiz o almoço de sábado. e de domingo. vi três episódios da série "por treze razões". fui ver os spoilers da série "por treze razões". concluí que a "serie por treze razões" é absolutamente idiota e não recomendável a adolescentes impressionáveis. que é como diz a maioria. tive uma terceira reunião de trabalho. passei roupa a ferro. praticamente toda a de verão que retirei do armário depois de ter sido lavada e secada. lembrei do tempo em que passava os serões de domingo num bar com vista para um jardim com um lago. fiquei triste por esse tempo ter passado. constatei que não sei se me insiro muito bem neste tempo. entristeci por estar a envelhecer na consciência da irreversibilidade do que ficou para trás. concluí que não envelhecerei com graciosidade. fui convidada para um baptizado. organizei uma das estantes com livros. tive uma insónia terrível na madrugada de domingo. ouvi johnny cash e bebi um cálice de vinho do porto. estive na varanda às três da manhã.

 

o dia está soturno. 

o fim de semana também esteve.

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banalidades

por M.J., em 26.05.17

está cinzento e fresco, o que é um alívio nos últimos dias de deserto sufocante. 

abri as janelas todas pela manhã enquanto via a neblina nos cedros. um dos vizinhos da rua passeava o cão castanho que farejava a vida numa excitação contagiante. arrumei a cadeira na varanda onde jantei ontem, sozinha, a ver a mundo que adormecia. às vezes pergunto se é real esta paz, esta serenidade, ou se tudo cairá na brisa mais forte, como o cheiro de um perfume num frasco mal fechado.

 

tomei café e um pão escuro com manteiga.

escolhi um livro ao acaso e li o fim depois do primeiro capítulo, na excitação de perceber se vale a pena e se o posso correr em segurança. não posso controlar todos os imprevistos da vida, mas estes consigo.

 

percorro a lista de coisas a fazer escrita à mão numa letra escangalhada e torta.

quando era criança olhava com descrença a letra do meu pai, apertada e feia e achava que não escreveria assim, nas minhas lides de adulta. foi uma promessa que cumpri porque escrevo pior, uns gatafunhos imprevisíveis, letras que não são letras, desenhadas num turbilhão de quem não tem paciência para moldar cada palavra até ao fim, rabiscando aqui e ali na espera de ser legível. nem sempre é.

 

o problema de sentir esta paz, este conforto nos dias que passam, os cafés na varanda, o trabalho que se faz para mim no ritmo necessário, a ausência da interminável ansiedade que me queimava o peito em úlceras de medo, é - que há sempre um problema - a liberdades da mente para escarafunchar ao sabor de uma espécie de vento incontrolável. na dor da ansiedade, da inconstância, do medo do depois, da sensação de perda de controlo há uma incapacidade quase física de olhar muito para trás ou para a frente. lidamos com o dia na sua completude ampliada porque aquilo já nos dá muito que fazer e não há espaço para mais. agora tenho possibilidade de ir mais além. e se é esse facto que me permite - juro que sim - crescer na sensação de conhecimento próprio e do outro, também me leva por caminhos tortuosos de recordações a esquecer, pessoas que ficaram, momentos que me mataram um bocadinho e aos quais não pude fugir.

e dá-se o caso, nessas alturas, em que arrumar uma cadeira de braços numa varanda deserta, de manhã, numa neblina fresca e desejada, enquanto se repara num cão a farejar a vida com excitação, se transforma numa pequenita experiência de retorno, num voltar a algo que se deixou para trás mas que agora aparece, saltitante e contente a mostrar que enquanto estiver dentro de mim, na recordação do que foi, continua.

 

é por isso que as pessoas também têm filhos, não é?

permanecem neles - numa imortalidade rebuscada - tanto quanto eles permanecerem também. 

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quotas de desgraças

por M.J., em 15.05.17

tenho andado com insónias recorrentes. 

o filme é sempre o mesmo: chego à cama e dói-me a vida, aliada ao braço que ficou bom depois da fisioterapia mas começou novamente a chatear-me há umas semanas. depois tudo se torna uma pequenita tortura. os lençóis dobram-se sobre o corpo, há calor a mais que se transforma em frio e um sem número de pensamentos recorrentes que me assaltam como num cerco desprevenido, causando a vulnerabilidade que insisto em pôr para trás das costas ao longo do dia.

uma consumição.

 

ontem fez um ano de casamento.

não trocamos flores nem juras e procurei à pressa uma foto do dia só para assinar a coisa sem grandes foguetes.

a nossa vida começou antes do casamento e passou muito para além daquele dia, na constante caminhada diária de viver na partilha. porque se há coisa que descobri este ano - isto as emoções são como são e nem sempre as controlamos - é a inevitabilidade da total partilha quando se decide uma vida em comum. ou em comunhão, diria o padre. a ausência de segredos, planos individuais ou o "eu quero". a ausência de uma tristeza egocentrista a causar uma dor apenas própria, ou uma alegria de vitórias vivida por um só.

uma partilha constante de sonhos, planos, objectivos, medos, inseguranças e incertezas. há uma partilha constante de receios e fantasmas mesmo quando me sento na varanda de madrugada, de cálice de vinho na mão - que se não fumo algo tem de substituir a mão vazia na lassidão - a ponderar se o que tenho me chega ou desisto de vez. 

há uma total partilha em igualdade de circunstâncias e às vezes, quando nos deitamos e chegam as insónias e os lençóis são carvão aceso no corpo e tenho frio e calor e há um gato que mia no jardim e um vizinho que caminha pela casa e mil fantasmas que voltam de fundo do passado onde os prendi, e mil situações que não fechei na fuga da personalidade que sou, e quando me dói a alma no sono que não chega e percebo, numa epifânia quase constante que ele ali está e dorme, na respiração pausada dos serenos, o corpo abandonado ao meu lado, a entrega total a quem sou mesmo sendo eu - como é possível? - mesmo nas minhas insónias e fantasmas e medos e eu, só eu como eu, toco-o ligeiramente para saber se é real

serei o rei que sonha que é borboleta ou a borboleta que sonha que é rei?

é esta mesmo a minha vida ou vou perceber, a qualquer instante, que tudo se desmorona e tenho de recomeçar outra vez, carregando traumas e medos, pedaços de mim desfeitos, novamente, tudo muito ruim e queimado, uma pequena selva de medo? 

é mesmo ele ali e esta é a nossa vida e somos dois mesmo que eu sinta, às vezes, que somos quase um, e vamos seguir e continuar e amanhã vamos estar ainda aqui, e os dias permanecem na paz de cafés de cevada e pão com manteiga ou há uma volatilidade que pode esfumar tudo isto num piscar de olhos?

 

tenho tanto medo, disse-lhe um dia, tenho tanto medo de estar a viver toda a quota de coisas boas disponíveis a uma pessoa, e tarda nada receba o que é suposto, na balança do equilíbrio karmico, mesmo que não acredite, e qualquer dia venha novamente a desgraça da dor para me lembrar que eu sou eu e eu não sou esta.

e ele, baixinho, a caminhada na tarde que caía, as primeiras flores de primavera:

não te preocupes. encheste já, no que ficou para trás, a tua quota de desgraças de vida. agora e o que aí vem é só e apenas para compensar.

 

é, não é?

 

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banalidades

por M.J., em 08.05.17

pego na minha tendência auto destrutiva - numa obsessão sem paralelo quando decide que aquele é o caminho - e tento-a meter nos eixos.

que o segredo está aí:

reverter o sintoma visto que a causa permanecerá para sempre inalterada, a olhar-me do alto do ombro com um sorriso esbanjador de quem sabe o que a casa gasta.

 

pego em todas as pequenitas coisas que formam um furacão de estragos no meu corpo, tudo junto, muito cerrado a lembrar-me que se não descarto uma perna ou um braço também não descarto aquela parte do cérebro (diz que é lá, nem sei) que manda pegar no que pego para me colocar onde coloco e listo obsessivamente, como dar a volta.

os traços obsessivos estão cá. há uma tendência quase sempre certeira de fazer o que quero colocando um ligeiro check ao longo do caminho. de pegar na situação que sei que me incomoda e levá-la à frente dos ombros, carregando-a em braços se preciso for, com uma força que me desconheço - e acho que nem é minha - até atingir o ponto em que a derrubei, contornei, evitei, fugi.

mesmo que depois, longe dela, perceba que não tinha a dimensão trágica do que me parecera o fim.

o tudo ou nada, não há o filho da mãe de um meio termo. 

 

pego na tendência aditiva que me causa a obsessão de prosseguir, sem controlo, e faço por recolocá-la no outro lado. com a mesma motivação. a mesma e exacta dose de perseguição. e depois faço um check mental a caneta, num traço muito certo e fino.

 

estou obcecada com a ideia de envelhecimento.

olho-me no espelho e não é a imagem reflectida que me assusta, as rugas mais ou menos, as brancas maiores ou menores. é antes a certeza de que o conhecimento sobre quem sou chega-me na medida do passar dos anos e os anos passam depressa demais e ao mesmo tempo num ritmo incrivelmente diminuto. quem sou e o que vejo e onde estou e o que apreendo da vida e onde vou chegando e vendo e quem vou tendo e assumindo são agora apreendidos e sentidos de uma forma abismalmente diferente do que era aos vinte e aos vinte e cinco anos.

e este conhecimento de mim assusta-me na dimensão de que me apresento todos os dias como uma desconhecida, numa transformação tão clara e incontrolável que me olho, do outro lado do espelho, como uma estranha a quem conheço melhor do que algum dia. 

deixei de comprar guerras ainda que despreze com mais intensidade do que outrora. 

deixei de julgar à primeira, sem a tentativa da compreensão do outro, ainda que o julgamento depois seja mais intenso, por deliberado. 

deixei de sentir a necessidade de aprovação ainda que a perceba como fazendo parte de mim.

e deixei de assumir a necessidade de lutar contra a causa do que me dói - eu própria - para combater e reverter os sintomas do que me provoco, em dias que não controlo. 

 

e nunca este blog foi menos um blog do que é agora.

transformo-o, aos poucos, num diário cifrado, compreendendo a cada dia a necessidade de dizer tudo sem nada dizer. 

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banalidades

por M.J., em 05.05.17

tenho deixado isto um pouco ao abandono.

não é que me sinta desmotivada ou que tenha perdido o interesse mas nem sempre há uma vontade de trocar o tempo em função do tempo da escrita.

é como em todas as fases de vida, que nos dedicamos a algo mais ou menos e isto tem ficado pelo menos.

uma pena. 

 

a empregada nova veio hoje pela primeira vez.

gostei. é desembaraçada, faz as coisas com garra e, tirando o ligeiro receio que andasse ao murro à mobília atento o barulho, correu tudo bem, acabando até por partilharmos as duas um café na varanda. 

 

choveu grande parte da manhã e escureceu o dia.

organizei trabalho e tarefas e percebei que estou atolhada até às orelhas em afazeres.

 

li dois livros esta semana.

o olx é fantástico e comprei uns quantos que andava de olho há meses mas que achava demasiado caros. ficou tudo resolvido através do magnifico mundo online pelo que, senhores da fnac, desculpai lá, mas ainda não é desta a comparticipação do meu orçamento, a não ser claro, naquelas vezes que passo por aí horas a cirandar enquanto o rapaz me convence da necessidade - urgente - de coisas com fichas que eu acho inúteis.

 

o livro secreto tem corrido bem.

toda a gente tem cumprido prazos e, no geral, creio que a maioria lê os livros, mesmo quando os livros fogem à zona de conforto e não são bem o que se esperava.

falou-se num encontro e poderá ser uma coisa a decidir, num futuro próximo, visto que as minhas trombas não são assim um segredo tão abismal.

 

entre casamentos, londres, carro e merdinhas que não eram assim tão necessárias, este mês foi um rombo no orçamento.

fiz contas, muito por alto ontem à noite, e senti um ligeiro desconforto no estômago com a certeza de que, se fossemos uma família classe-média baixa, com dois putos e dois créditos - casa e carro - bem que podíamos esquecer metade das coisas a que nos propomos, incluindo cenas que são - para mim - de necessidade, como consultas regulares no dentista (incrível a falha abismal do sistema de saúde neste campo), lazer que incluiu viagens, e a senhora (ou senhoras, no plural, atento a rodagem anterior) que me põe a casa a cheirar a flores.

sei da minha sovinice (sou mesmo) que me foi inculcada à força de contar cêntimos durante muito tempo e da necessidade do meu trabalho para comprar algo que ultrapassava comida e necessidades básicas. mas percebo que, mesmo com esse controlo e análise, seria extremamente difícil se um de nós não ganhasse ou, se ganhássemos aquilo que o nosso governo instituiu como suficiente de vida. 

e quando penso nisso e vejo os sacrifícios que as pessoas fazem, a luta constante para chegar ao final do mês contando cêntimos, as coisas que não podem fazer e que eu assumo como essenciais para uma vida completa (seja lá isso o que for) sinto uma raiva cega por um país que se abespinha com um terço gigante mas que enche santuários aos magotes enriquecendo bolsos brancos e nada imaculados.

uma raiva gigante por gente que se mata por causa de futebol mas faz manifestações à porta da cadeia por um político alegadamente acusado de roubar milhões de todos.

uma raiva cega por pessoal que anda quase à porrada por quem canta no festival da canção, assumindo que sabe o que é, ou não uma canção festivaleira, mas que não faz a mínima ideia do que é um "spread" referente ao empréstimo que assumiu ou o que será o "beneficio de excussão prévia", naquela coisa que assinou enquanto fiador.

sinto - sobretudo - uma raiva cega por um estado que assume que pouco mais de quinhentos euros por mês chegam para uma vida digna, quando um quilo de peixe custa cinco euros e o gasóleo está quase ao preço do ouro.

dá-me uma raiva cega e sinto-me mal com o que gasto e não devia gastar, com um baque surdo como o de ontem ao fazer contas à vida. 

 

era um texto sobre banalidades, num desfolhar de coisitas que tinha para anotar.

fico por aqui.

falar de dinheiro acaba-me sempre com qualquer vontade de fazer seja o que for. 

 

vou ali partilhar outro café com a empregada. 

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banalidades

por M.J., em 28.04.17

a empregada veio uma vez e desistiu.

avançou dias depois com um imprevisto de vida e não sei se acreditei ou não.

- questiono-me às vezes se não me terei transformado numa picuinhas desgraçada e se não será esse o facto que me faz sentir esta solidão gritante.

seja como for voltei a procurar outra. não tenho nesta fase tempo nem paciência para me preocupar com vidros e armários, roupas e chão, mesmo que me apoquente ver pós e desarrumação.

a saga da procura parte cinquenta, talvez, deu pano para mangas. das centenas de respostas que recebi só contactei umas seis e só metade se mostrou interessada. as pessoas têm uma estranha forma de se relacionar nestes tempos modernos. respondem com "quanto pagas?", "dá-me mais informações", "quantas horas queres" mesmo que nunca me tenham visto nem saibam quem sou, o que sou ou onde estou. a essas nem respondi e das outras três que decidiram vir falar comigo apareceu uma: as duas que não vieram, sem um aviso, sem uma palavra, deram-me depois exactamente a mesma resposta:

"problema com o carro". 

constato que isto está bom é para os mecânicos. ou para o gepeto.

 

ainda assim uma está escolhida, a ver se não desiste.

 

não é que procure uma companhia, invés de uma senhora que me limpe o chão.

no entanto há qualquer coisa de reconfortante em estar no escritório, concentrada no que faço, e ouvir no resto da casa um sacudir de tapetes, um arrumar de roupa, água a correr, arrastar de móveis.

como se estivesse na serra, um calhamaço de livros ao lado, a lareira a crepitar aos pés e ao longe a mamã numa lufa lufa de limpezas, o cheiro da lixívia e limão a escorrer pelas paredes. 

e depois um beijo com pão fresco e marmelada. 

 

tem dias que me sinto absolutamente só e hoje embrulho tudo no mesmo saco, com e sem empregada.

levanto-me da cadeira e estico as pernas.

murmuro que a vida é uma inutilidade e perda de tempo e vou à varanda. há um vento corrediço que lambe a roupa já seca na corda. o silêncio atroa pela encosta, mesmo que isto tenha outro nome qualquer. passa um carro e uma rola arrulha num dos cedros.

 

tem dias que sinto que a solidão me come a alma e tenho vontade de comer tudo para matar a solidão que me consome. 

é triste.

 

como é que me transformei nisto e não dei conta?

 

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banalidades

por M.J., em 18.04.17

li a culpa é das estrelas e chorei como uma madalena. vi o viver depois de ti e voltei a chorar que nem uma tola. é como que se alguém tivesse pegado nas minhas hormonas e dito que deviam estar altamente emocionais mesmo não estando grávida.

uma consumição.

 

comi pão de ló como se não houvesse amanhã. e saí de casa para ir comprar folar. pediram-me conselhos numa matéria sentimental que não domino e sugeri amêndoas. das de chocolate. há pouca coisa que o açúcar não cure.

sério.

 

uma amiga, mãe há menos de um ano, desistiu de ir trabalhar porque a criança não consegue ficar na creche. chora que se farta e às tantas estão as duas a chorar. se eu estivesse lá chorávamos as três, que nesta matéria de choradeira ando afiada.

tens a bexiga atrás das orelhas, dizia a minha bisavó.

acho que sim, mesmo que nunca me tenha cheirado a xixi quando engulo as lágrimas.

 

quando tinha três anos e me puseram no jardim infantil dei cabeçadas na porta, numa tentativa qualquer de sair dali. ninguém me foi buscar. ninguém acusou a educadora de negligência, tanto mais que, segundo contam, parei à terceira que aquilo doía. e quando a mamã se lamentou a alguém a resposta foi rápida e curta: "se aos três anos já manda imagine aos vinte e três".

foi remédio santo.

 

talvez tenha sido por isso que uma outra amiga, mesmo estando desempregada pôs os dois miúdos na creche. por uma questão de tempo pessoal. entendo perfeitamente. por mim, os meus vão para um colégio militar aos cinco: na sua inteligência desmesurada - basta saírem à mãe - fazem a quarta classe antes de entrarem na escola. 

podem apostar.

 

tenho montes de trabalho atrasado. literalmente montes. há tanta coisa para fazer que mesmo que me dedique a isso o dia inteiro sem uma das cinco pausas de cinco minutos normais que espalho pelas horas, consigo dar adiantamento à coisa. talvez precise de ler menos e chorar menos.

mas custa. 

 

arranjei finalmente uma empregada. uma pessoa chega a um limite de lixívia e vidros e percebe que não tem tempo para tudo e perder tempo em tarefas domésticas é perder vida. a não ser que se goste. ou não se consiga dormir, por exemplo, com a louça por lavar. ou se tenha tal alergia ao pó que seja preciso declarar guerra sem misseis falhados.

uma tristeza.

 

e no filho da mãe do passatempo?

desta vez ninguém participa?

obrigada pela demonstração de interesse de ganhar o raio do bloco de notas.

é por ter as cores da tasca?

passatempo bloco de notas.png

 

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banalidades

por M.J., em 03.03.17

acordou chuvoso. dormi mal a noite toda, com cólicas fortes que não passavam de maneira nenhuma. às duas da manhã ouvi a chuva e o respirar do rapaz, num compasso mudo de tempo eterno. poderia ser bucólico, se não fosse doloroso.

acordei mais tarde esta manhã, depois de avisar que ficava a trabalhar em casa.

na cozinha a janela estava embaciada com a humidade da rua. arrastei-me por entre os minutos. cheirava a lixívia, da grande limpeza de ontem. tirei um café longo e fiz uma tosta mista, num pão que não é bem pão, com fiambre que não é bem fiambre e queijo que não sabe bem a queijo. 

há pequenos luxos que nem sempre temos. tomar o pequeno almoço de pijama, remelenta, pantufas e meias sobre as calças, cabelo despenteado e um livro na mão é um deles e é uma pena que na maioria dos dias andemos tão atarantados que nem nos lembremos disso.

 

na secretária estavam papéis espalhados, livros e post-its, numa desarrumação que não gosto. fiz chá quente e queria flores frescas para animar a manhã.

diz que é um dia sem graça. chove a potes na rua, tenho um varal de roupa a secar molhando-se e a casa está de pantanas, entre roupa por arrumar, pó por limpar e, juro, alguns cabelos no chão do wc.

ouço cinema paraíso em rotação constante.

acordou chuvoso, está cinzento e ainda sinto resquícios de cólicas agudas.

mas a paz que se sente por entre o correr das horas é de um laranja vivo.  

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deu discussão! (quase porrada)