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eu fugitiva me confesso

por M.J., em 22.03.17

não sei quando os meus fins de semana se transformaram na imensidão de nada que são actualmente.

 

não que tivessem sido, em tempos, largos dias de animação, festas, saltos, maquilhagem e saídas nocturnas (essa época foi curta e directa e não acabou da maneira esperada). no entanto, ao longo dos meses e dos anos e do correr da vida fui amainando, numa espécie de embarcação parada por falta de vento enquanto as horas correm, empurradas por uma brisa suave e uma inexistente agitação marítima.

 

os fins de semana são dias de nada, repletos de tudo:

ele trabalha, numa imensidão de projectos que o têm envelhecido e carcomido o tempo livre, eu ocupo-me das mil coisas que desprezei um dia.

faço bolos com farinhas estranhas, sopas sem batata, bolachas que não são bolachas.

transformo tomate em polpa, descasco nozes para bolos e cozinho um arroz duro, integral e esguio, que demora tempos infinitos.

planeio refeições semanais, demolho feijão e acondiciono legumes vindos da serra, com raízes ainda repletas de terra, todos juntos numa caixa a lembrar o amor da mamã.

rego as plantas e arranco ervas daninhas dos vasos.

arrumo livros e desocupo roupeiros.

varro as varandas e planeio as semanas.

às vezes, num dia ou outro, combinamos jantares e visitas, curtos, rápidos, num serão ou num almoço que o tempo é escasso e aproveitamo-lo na necessidade dos dias ou naquilo que nos faz sentir bem.

 

e é isto que não entendo: em que momento estranho deixei de calcular o tempo em função da dor menos forte para esta mansidão dos dias?

em que momento, em que altura houve esta reviravolta que não vi e que me transformou numa espécie de cuidadora plenamente satisfeita por dominar a própria vida?

 

em tempos fui aquilo a que, muito sabiamente, a minha psicóloga chamou de fugitiva.

eu fugia de todos e de tudo aquilo que me desse palpitações ou fizesse torcer os ossos.

tinha uma mochila preta - que ainda andará por aí em qualquer gaveta - repleta dos bens que achava necessários para um recomeço.

usava cada casa arrendada como uma armazém temporário de mim, sem nenhum objecto que não fosse estritamente necessário. nem livros, nem roupa em exagero, nem coisas decorativas nem nada que não pudesse acondicionar em três caixas.

eu era uma fugitiva e fugi de tantas situações que há uma imensidão de coisas passadas por resolver, numa espécie de casa cheia de frestas e frinchas e portas só encostadas porque os donos desapareceram com medo do que por ali entrava.

 

e agora aqui estou.

com medo do tempo em que constatarei ser rija de carnes, um bigode no lábio superior, o puxar dos óculos com gestos firmes na cana do nariz e o soltar ordens de governança de uma casa. o arregaçar das mangas nos braços fortes e lavar no tanque cobertas e tapetes, calças e lenços, assumindo que tudo se cria, que onde come um comem cinco e que as mulheres vieram ao mundo para dar vida à vida.

 

uma consumição, bem vos digo, que me corrói a alma aos fins de semana, nos únicos cinco minutos em que me desocupo.

 

e confesso aqui que percebi - há uns tempos - que a coisa que mais me amedronta na maternidade é a irreversível perda da juventude.

é a última pedra na vida de fugitiva.

é a certeza que depois disso não haverão mochilas pretas nem bens acondicionados em três caixas.

que depois disso eu não sou de mim mas de outrem e não posso recomeçar sozinha.

 

e o tamanho de tal responsabilidade, a imensidão atroz desse pensamento provoca-me tantas palpitações, tanta ansiedade que dou comigo a olhar sobre o ombro na procura de tudo aquilo que posso doar, dispensar, vender, deixar para trás antes que seja tarde de mais para recomeçar.

 

ainda que nunca se recomece na sua totalidade:

trazemos sempre muito do que achamos - erroneamente - que ficou para trás. 

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demasiado

por M.J., em 20.03.17

nunca esperei estar no ponto em que me encontro neste momento. 

é verdade e talvez tenha sido motivado pelas peculiaridades da minha infância, da minha personalidade, do que fui entranhando ao longo dos anos, das recusas de adolescência, de me sentir constantemente desconfortável com o meu corpo, de achar que ninguém poderia sentir desejo pelo que eu era, demasiado gorda, demasiado mau feitio, demasiado feia, demasiado bruta, demasiado serrana, demasiado pequenita, demasiado deprimida. 

 

o demasiado na minha vida, incluindo uma demasiada baixa auto-estima, fizeram-me crer - sobretudo na adolescência e numa pequena parte da juventude - que eu seria tudo menos o que sou. fizeram-me acreditar que permaneceria solteira, virgem, azeda e seca de sentimentos até ao fim dos meus dias, terminando num lar como a "menina maria", gorducha e manca (uma vez que não haveriam joelhos a aguentar tanta gordura), mandando bengaladas nos companheiros de quarto.

eu seria isso e por ser isso nunca acreditei ser mais. 

eu seria isso - um cérebro emocionalmente doente aliado a uma inteligência baça e marrona - e isso chegar-me-ia. 

 

e afinal não. 

sou muitíssimo mais do que poderia imaginar.

 

entendi principalmente o valor das pequenas coisas, mesmo que pareçam insignificantes na sua pequenez.

entendi que as minhas banalidades vão deixando de ser só dias cinzentos, flores secas, mantas nas pernas e livros que acabam. que se vão transformando em chás quentes, rotinas domésticas e mãos dadas. e que se vão transformando na suavidade da roupa na corda, no cheiro das flores nas jarras ao domingo, no crescer de um bolo no forno, na cor viva dos tapetes da entrada, na colecção de globos de neve na sala, nas almofadas garridas no sofá, nos livros alinhados nas prateleiras.

na sensação absoluta de pertença a um lugar e a alguém onde sou eu e o posso demonstrar.

na sensação absoluta de pertença a um lugar e a alguém onde a intimidade, a partilha e a entrega anulam o demasiado em mim:

não sou demasiado gorda, mau feitio, feia, bruta, serrana, pequenita ou deprimida.

e é essa aprendizagem que me vai tornando todos os dias mais completa, gigante de conhecimento e emoção.

 

não sabemos nada aos vinte, sabemos tão pouco aos trinta e não imagino o que saibamos aos quarenta.

e o mais triste é que, quando finalmente soubermos algo, já não vamos ter tempo para viver o que finalmente sabemos.

 

e é uma pena demasiada. 

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oh vai ver ali:

vizinhança #2

por M.J., em 20.03.17

tenho uns vizinhos estranhos.

ainda que este seja o lugar mais calmo em que já vivi desde que deixei a serra, os meus vizinhos têm perturbações estranhas (de certeza que dirão o mesmo de mim, mas cada um tem a sua opinião) a que sou obrigada a assistir de camarote:

discussões, inundações (de palavras, era para rimar) opiniões e intromissões entre eles nos seus momentos familiares.

(já falei disso aqui).

 

posso jurar - sem medo de mentir - que o meu apartamento é o mais pacato:

  • somos só dois;
  • passamos demasiado tempo recolhidos nos computadores, livros e phones; 
  • não gritamos (eu sou das que amuam);
  • não soltamos gargalhadas em demasia;
  • eu não uso sapatos de salto;
  • ele não vê futebol;
  • não nos pomos aos saltos quando há um golo, como o meu vizinho de um dos lados que grita acerrimamente um "chupa" sempre que isso acontece (não sei se é quem marca que deve chupar ou se é quem deixa marcar... mas ele insiste muito nisso);
  • não temos filhos em choros nocturnos;
  • não temos um cão que gane a altas horas;
  • não berramos um com o outro;
  • não gostamos de tv com som demasiado alto. 

somos, em resumo, os vizinhos que toda a gente quer ter.

 

até há três semanas.

 

a coisa passou-se num sábado em que tivemos um casal amigo a  jantar às nove da noite (para ser precisa. se vamos contar um episódio doméstico devemos assumir precisão).

eu abri uma garrafa de vinho e bebi com a minha amiga visto que eles, nerds até ao tutano não bebem álcool. assim, só ambas as duas a dar vazão à garrafa, ficámos mais animadas do que o habitual e é provável que às nove e meia falássemos mais alto do que o normal, soltássemos gargalhadas ligeiramente histéricas e lançássemos um ou outro guinchinho idiota de quem não aguenta um copo de vinho.

nada de muito espalhafatoso, nem muito fora de horas: afinal eram nove e meia de um sábado e nós éramos só duas. 

 

pois meus senhores, o que é que acontece?

o meu vizinho, o do chupa no futebol, o do cão que ladra sempre que está sozinho como se lhe estivessem a arrancar os tomates, o que discute com a namorada às duas da manhã mandando-a fazer-se à vida noutro sítio que não ali, o que tem uma companheira que caminha nas escadas como a tropa num dia de gala, o meu vizinho, esse, desata...

aos murros à parede.

com garra.

zangado.

com a razão toda por nos atrevermos a interromper assim a sua paz doméstica e o seu chupa futebolístico.

 

num dia normal eu calar-me-ia.

pediria para falarmos mais baixo.

moderaria o som e o álcool.

sentiria até um pontada de vergonha por ser assim chamada a atenção.

no entanto, naquele dia em específico, o único em meses em que a nossa presença é notada, o único em anos em que há um exagero da nossa parte subiu-me a mostarda ao nariz.

e ninguém gosta da M.J. zangada porque ela faz coisas parvas.

porque ela liga o youtube da tv, põe o seguinte video a dar e canta com ele a plenos pulmões, enquanto toda a gente ri e faz coro com o ritmo dos murros na parede.

 

 

 

é por isso que não bebo: acabo sempre por estalar o verniz.

 

mas mesmo assim, juro, mantenho um ar digno, quando desço as escadas e por azar da vida, o encontro.

e aposto que ele tão cedo não esquece do som do fazer amor com outra pessoa. 

 

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ai MJ, a tua vida.

por M.J., em 14.03.17

ai manel, a tua vida,

grandes gargalhadas quando o viam, costas dobradas no campo, enxada na mão, suor a escorrer por entre as rugas que tinha desde que nascera porque há pessoas que nascem velhas, uma vida de cem anos no choro de quem vê a luz,

a minha vida é igual à sua, que tem a minha vida?

a voz fina, amaricada, mãos calejadas, um mouro de trabalho, o calor infernal serrano do meio dia a bater nas costas, um pouco de água num rego por entre as ternadouras,

são leiras, que raio é isso de ternadouras?

um poço de água salgada a escorrer pelo corpo, a mesma camisola, inverno ou verão, uma malha velha em cima do peito cansado de velho, de quem nasceu velho, de quem cresceu velho, de quem morre velho.

 

ai manel, a tua vida,

quando passavam e o viam, uma quinta grande para tomar conta, sozinho, que os amos - a madrinha e o padrinho - assim o exigiam,

há que justificar o que come e bem que ele come,

o milho, o feijão, as batatas, as duas vacas e a erva, o abrir a presa e o fechar a presa, apanhar cachos,

são uvas, que raio é isso de cachos,

pô-los em cestas grandes que carregava aos ombros sozinho, despejá-las no lagar para transformar em vinho, um mouro de trabalho de quem não sabe o que é outra coisa,

a minha vida é igual à sua, que tem a minha vida?

 

às dez da manhã, depois de levantado desde as seis, tirar leite às vacas, levar o leite ao posto, limpar o esterco dos currais, apanhar erva, correr pelas quintas,

para onde vais tu manel, com essa pressa? olha que cais,

as pernas velhas de quem nasceu velho, tropeças em passo apressado, um ar de missão de quem tem a vida nas mãos e precisa de a levar a bom porto,

vou levar o leite à madrinha, que deve estar a levantar-se,

senhora velha nascida nova, cabelos brancos, uma santa de virtudes a acolher o rapaz órfão, velho de nascimento, velho de infância, velho de juventude, velho de velhice, 

olha que tu vê lá como me tratas a quinta,

voz fina e sedosa, uma completa boa acção, que seria dele sem ela?

e ele a correr, todas as manhãs, umas quatro horas depois de estar acordado, com meio dia de trabalho nas costas, a levar o leite para a ama comer.

 

ai a tua vida manel,

as piadas de quem passava, um ar de galhofa na voz, a certeza de que era paneleiro, mariconço, maricas e larilas. palhaço nacional na miséria humana encontrado um dia, num dos currais perto do rio, enrolado com um tolito ainda mais tolo, uma pouca vergonha, os dois engalfinhados como dois cães com o cio,

a minha vida é igual à sua, que tem a minha vida?

 

a mesma camisola, inverno ou verão, um sol infernal serrano do meio dia, o feijão e o milho, uma folha que não se movia num verão estéril, uma mosca que não zumbia na frescura de uma árvore inexistente, um calor bruto, seco, doente, e ele de costas dobradas, a cabeça descoberta ao morrer do meio dia,

ai manel que tu morres assado com essa roupa,

e ele, voz fina de mulher, olhos velhos de quem nascera velho,

o que tapa o frio tapa o calor. 

old man.jpg

(imagem daqui)

 

tantos anos depois, quando encasacada mesmo em dias quentes, me perguntam,

que raio M.J. não tens calor? 

respondo, com um sorriso de quem sabe por ter aprendido com um velho nascido mais velho e que se recusara - a vida toda - a admitir a inferioridade da própria vida:

o que tapa o frio tapa calor!

 

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todos os anos é a mesma coisa

por M.J., em 13.03.17

o calor, o sol, as flores, as andorinhas, as cores nas árvores, o pólen, os pós, o bicho do pinheiro, a camada amarelada de partículas no chão das varandas,

 

as alergias!

 

por acaso - pessoas que andam meio ano a delirar pelo calor - sabem o que raio é ter alergias?

  • o nariz constantemente a produzir ranho;
  • os anti-histamínicos que nos dão sono, secam a boca e transformam a língua numa espécie de cortiça, mesmo quando é prometido que não, que a única coisa que vais sentir é um alivio natural dos teus espirros e afins;
  • os olhos a lacrimejar constantemente;
  • os médicos a prometer-te tratamentos eficazes com não sei quantas injecções durante não sei quantos anos, mesmo que tu já andes a ser espremida, empurrada, esmurrada e batida na fisioterapia e isso já chegue como tortura;
  • a tentativa de estabelecer uma conversa adulta e funcional quando a única coisa que consegues é puxar o ranho para dentro ou então assoar-te de dois em dois segundos;
  • os lenços amarrotados por tudo o quanto é lado porque não tens a capacidade de os pôr no lixo com o mesmo ritmo com que produzes ranho.

sabem?

sabem?

 

pois se não sabem deviam ser acometidos por uma igual à que tenho hoje, assim, durante apenas uma hora só!

 

ah, a primavera, as flores, o amor, as cores e a vida e a merda e o raio que parta isto tudo. 

 

inverno!

inverno todo o ano, se faz favor.

 

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oh vai ver ali:

é para meninas.

 

fui a um fisioterapeuta por causa do braço. 

se achava que já tinha sofrido tudo no osteopata percebi que não, e que as dores que sofrera na altura eram uma espécie de parto com epidural, ao lado disto.

na verdade, juro, se o homem se tivesse encostado um pouco mais, com algum sitio a jeito, tinha-lhe mandado um pontapé nos tomates, já que murro era impossível.

 

foi - digo mais - uma espécie de "toma lá, dá cá":

toma lá uma meia hora com uma treta quente nas costas, a derreter-te os músculos e agora dá cá uma hora de apertos, esfregos, puxar de braço, pulso, mãos, ombros e músculos (e eu a pensar que algumas coisas duras ali ao pé do ombro eram ossos quando, na verdade, eram músculos) de maneiras a que as lágrimas me saltaram dos olhos.

de maneiras que tive de morder a língua para não mandar tudo para o raio que partisse a minha ideia de lá ter ido.

 

pronto, é isto.

se tiverem dores aguentem.

finjam que não vos dói.

pensem que é psicológico.

encolham os ombros e prossigam.

 

aquela tortura é que não aconselho. 

mesmo que lá vá, pelo menos, mais cinco vezes. 

 

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confeisho a god

por M.J., em 07.03.17

marble_champion-large.jpge então já sabem dizer as cores?

voz suave de menina ainda que os cabelos brancos a lembrassem da idade, saia casaco da mesma cor, sapatos resistentes de homem, sempre que nos encontrava a menina milinha perguntava-nos coisas e nós - bem ensinados e crentes - respondíamos fosse verão ou inverno, houvesse chuva nos chapéus grossos de plástico,

olha que não partas o guarda-chuva que não te compro mais nenhum,

ou calor abrasador serrano, em dias eternos de verão.

 

 

e então, já sabem dizer os números?

uma curiosidade quase infantil, na procura de quem conversar, mesmo que a conversa fosse com quatro miúdos pequenos, alinhados e carregados, vindos da escola primária com grandes mochilas aos ombros, pão na mão esquecido de ser comido durante o dia,

olha que tu come o que te mando, que aqui em casa não há dinheiro para estragar,

e toda uma certeza de quem sabe que a vida se moldará aos seus pés, ainda que a vida fosse só aquelas casas perdidas, a escola no cimo pequena e branca, com duas salas enormes e duas casas de banho na rua, na entrada, 

posso ir fazer xixi, senhora professora? 

a espera da resposta, pernas a tremer, só se pedia quando a vontade era mesmo muita, na vergonha dessa intimidade,

podes pois, mas não se diz assim. repete comigo: a senhora professora dá licença que vá à casinha?

e depois uma corrida até à casa de banho feminina ou masculina com uma sanita ao meio e uma porta com um fecho.

sem lavatório. 

 

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e então, já sabem dizer os dias da semana?

e nós, na ida para casa, desertos do dia que passara em mais brincadeiras do que estudo, o grande cruzeiro ao centro, a árvore onde nos empoleirávamos, o lago ao fundo com girinos que pescávamos, as flores da época, 

nada de calcar as flores, vejam se têm maneiras ou eu chamo os vossos pais,

nós ali, bem comportados e mandados, que a menina milinha - à espreita, de saia casaco e cabelo levantado - era uma autoridade,

por que é que ela é menina, mãe? se já é velha,

a curiosidade espantada de quem não sabe a vida,

porque as irmãs dos padres são sempre meninas. 

 

 

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e o padre nosso, já sabem dizer o padre nosso?

perguntava a menina que não era menina mas que nunca fora mulher, desejosa de dois dedos de conversa e nós, saídos da escola, com calor e esbaforidos, sabedores da recompensa de quem poupara um mês inteiro, cinco escudos aqui, dez escudos perdidos ali, tudo junto num lenço à saída da escola, para quatro gelados comprados na loja perto da igreja,

temos duzentos escudos!

nós esbaforidos da corrida, cinquenta escudos por gelado, uma festa enorme de quem antevê doçuras, quase a chegar à loja e ela,

e a avé maria? já sabem dizer a avé maria?

aquela curiosidade santa de quem nunca aprendera inglês e queria saber o que nós sabíamos, todas a quartas depois das aulas, na professora nova que nos ensinava aos bocadinhos, uma hora por dois contos mensais, 

e o acto de contrição? já sabem dizer o acto de contrição?

e nós, que até em português nos engasgávamos no credo, os bolsos a queimar do dinheiro junto, uma fortuna enorme para quatro gelados, uma excitação de quem poupara tanto para a doçura de cinco minutos, nós já cabisbaixos pela meia hora ali perdida a fazer companhia a uma menina tão velha,

e o credo? já sabem dizer o credo?

 

e a ana, mais expedita, mais afoita, a minha ana que me desenganou do pai natal aos seis anos e me fez acreditar novamente na vida aos vinte e quatro, farta, sem paciência, lingua afiada, ombros encolhidos e a pergunta, num descaramento sem fim, vozinha felina de quem pensara no assunto,

e a menina, por que não se casou?

 

os gelados de cinquenta escudos não serviram para acalmar as lágrimas das palmadas que a mamã me deu depois, quando sabedora do episódio.

e por mais que lhe explicasse que não fora eu, que até me mantivera calçada e de olhos no chão, a mão da mamã encontrou o meu rabo e fez-me lembrar, de uma vez só, que não havia confissão que perdoasse certos pecados.

nem mesmo em inglês.

 

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e a confissão? já sabem dizer a confissão?

uns dias mais tarde, no retorno à normalidade,

e eu,

pois sim, que sei,

e ela,

então diz lá.

e eu,

confaisso a god alwais powerful my pecaidos. 

e ela,

só isso? 

e eu,

isso e cinco palmadas no cu. 

 

 

e desta vez a mamã não bateu. estava a rir-se demasiado para ter força. 

 

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a M.J. viu acontecer um milagre

por M.J., em 02.03.17

não vão acreditar no que acabou de me acontecer.

deviam - que eu não tenho por hábito inventar historinhas da tanga para vosso divertimento - mas é normal que não acreditem. 

até porque eu própria estou ainda paranóica com isso.

 

há cerca de uma hora, enquanto batia alegremente nas teclas do pc, reparei que meu dedo da mão esquerda estava nu.

sim, meus senhores: nu! sem aliança! sem o anel que aqui foi posto há quase um ano.

nuzinho da silva.

nesse instante fui acometida de um pânico seco.

e isto porque:

  • nos últimos dois meses parti o ecrã do telemóvel, completamente em frangalhos, uma vez.
  • nos últimos dois meses voltei a partir o ecrã do telemóvel, completamente em frangalhos duas vezes, ficando agora metade dele completamente preto.
  • nos últimos dois meses, o meu telemóvel de 200€ ficou a custar €350 com os ecrãs novos que o rapaz mandou vir.
  • mais quatro horas perdidas em montagens do mesmo.
  • nos últimos dois meses abri um precedente para aquilo que o rapaz chama de falta de cuidado pelo que deixei de poder dizer coisas como "tem mais cuidado com as toalhas molhadas espalhadas na cama" ou "tem mais cuidado com as almofadas do sofá caídas pelo chão" e ainda "tem mais cuidado com as meias que não ficaram no cesto".
  • ter mais cuidado é em não partir telemóveis e custa-me muito não ter razão.

 

além disso, a aliança é muitíssimo importante para mim porque:

  • simboliza o que mais de importante tem a minha vida;
  • simboliza o que mais de importante tem a minha vida;
  • simboliza o que mais de importante tem a minha vida;
  • simboliza o que mais de importante tem a minha vida;
  • foi cara.

 

portanto, meus senhores, conseguem perceber que, quando dei conta do meu dedo nu, saí a correr do trabalho, entrei no carro e fui a voar até casa.

ou melhor: tentei ir a voar até casa.

é incrivel que quando mais pressa temos mais obstáculos encontramos:

  • o único semáforo estava vermelho;
  • na rotunda uma senhora de certa idade decidiu travar a meio, perdida.
  • encontrei um camião que transportava carros novos a comer toda a minha faixa.
  • na subida que antecede a minha casa, um idoso atravancava toda a rua em amena cavaqueira com os senhores do lar ilegal.

 

depois de soltar muitas pragas cheguei finalmente a casa.

na minha cabeça uma só ideia: a aliança tinha escorrido do meu dedo quando eu lavava a louça ontem à noite.

oh-meu-deus!

já não bastava gostar de fazer sopas e bolos e pensar em alimentações saudáveis e merdas de dona de casa que há dois anos desprezaria com a alma! não! nããããããão!

o culminar de tudo isso era perder a aliança enquanto lavava a louça. num toma lá que já almoçaste! não é na praia, enquanto banhas os presuntos. não é a escalar. não é a andar de cavalo. não é a andar de montanha russa. não! é a fazer aquilo que mais excitante tem a tua vida: a lavar louça!

 

 

subi as escadas.

na cozinha atirei casaco, lenço e mala para o chão. acometida de coragem abri o armário que fica por baixo da pia e olhei para as tubagens com ar de pânico: para meu bem ia precisar de desmontar aquilo. 

acometida de um frenesim sem lógica, pus a mão num dos canos onde poderia ter ficado retida a aliança e dei em desenroscar. no entanto, como podem compreender, a minha apetência para canalizadora está ao mesmo nível de ser magra e, em vez de desenroscar enrosquei ainda mais!

só a mim! 

aquilo não saía por mais esforço que fizesse. toda eu transpirava e depois de puxar, empurrar, rodar um dos canos soltou-se, exactamente o mesmo que tinha uma espécie de reservatório de porcaria onde a minha aliança poderia ter ficado encalhada.

assim, desato a bater com ele no chão na tentativa de que a dita saísse de lá (repleta de bactérias mas impune).

pois que nada.

nada.

 

quer dizer, saíram grãos de arroz, restos de vegetais, três ossos pequenos e ainda - não perguntem - cascas de ovo. mas aliança nada.

nadinha. nicles!

(mas pickles, acho que sim).

 

foi nesse instante que percebi que, pronto, estava lixada e comecei a praguejar alto. eu tinha:

  • desfeito as tubagens;
  • as mãos repletas de bactérias;
  • o dedo nu;
  • a aliança perdida.

minha santa maria das pias!

 

no chão da cozinha havia resquícios de comida pelo que peguei no garrafão de lixívia e espalhei, ao calhas.

apanhei a tempo o casaco, o lenço e a mala e voltei a pousá-los com nojo porque as minhas mãos ainda não tinham sido devidamente desinfectadas.

tentei pôr os canos no sítio.

usei meio gel anti-bacteriano nas mãos e depois, desanimada e lixada da vida sentei-me na cama, numa choradeira: eu perdera a aliança.

 

e sabem o que aconteceu nesse exacto momento, depois da choradeira?

a aliança apareceu na cama. quer dizer, não apareceu exactamente, uma vez que, na verdade, creio que esteve sempre lá. no entanto, na minha mente, ela havia aparecido pelas minhas lágrimas.

era o meu pequeno milagre.

de que importavam as minhas mãos irritadas com tanto desinfectante? ou o chão da cozinha com cheiro a comida putrefacta e lixívia? ou os canos todos lixados? as minhas lágrimas, meus senhores, toda uma vida desperdiçadas e vistas como chatas e persistentes são causadoras de milagres!

são melhores do que responsos: fazem aparecer coisas perdidas!

 

e é isto.

logo tenho de ligar ao senhorio para que me ajude nas canalizações. também tenho de limpar o chão com toda a lixívia que conseguir comprar e, nos entretantos, no caminho para cá, voltei a despejar o resto do frasco anti-bacteriano nas mãos pelo que, preciso de me abastecer disso também.

mas fiz um milagre!

quantos de vós podem orgulhar-se do mesmo?

 

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... não chega a jacaré.

por M.J., em 28.02.17

acho que já contei isto, mas permanece sempre atual.

 

quando comecei a trabalhar num escritório enquanto advogada estagiária, um mês depois da faculdade terminada, não me conseguia habituar ao selecto tratamento de doutora. era doutora por extenso, abreviado ou substítuido por colega para aqui, para ali, para acolá. como que fazendo parte do meu nome, numa espécie de prefixo que eu não acrescentara mas que alguém me colocara para me fazer lembrar onde pertencia agora. a validar-me porque sem ele eu não estava completa e só eu não chegava.

confesso que olhando agora para trás, era minha obrigação ter logo percebido: não estava talhada para a coisa.

 

assim, num almoço de domingo, comentei isso com a mamã, lamentando-me que não passava de uma serrana saloia e que nem a uma coisa supostamente boa achava graça e que não havia meio de me habituar e que às vezes chamavam-me e eu ficava sempre à espera que estivessem a falar para outra pessoa qualquer, olhando de soslaio por cima do ombro para confirmar. 

 

umas semanas mais tarde a mamã ligou-me para o telemóvel e não atendi.

como o assunto era urgente ligou para o escritório.

- estou sim - murmurou na sua voz mais doce - seria possível falar com a Maria João?

e a funcionária logo, pelo na venta, lição estudada, respeito não é respeitinho, de supetão:

- olhe, a senhora vai-me desculpar mas não trabalha connosco nenhuma maria joão.

e a mamã:

- ai desculpe, se calhar enganei-me no número.

e a funcionária, toque de mestre, uns quantos anos a ensinar maneiras às pessoas:

- ou se calhar queria falar com a doutora maria joão. é que, de facto, trabalha cá desde setembro a doutora maria joão...

e a mamã contente, toma lá que já almoçaste, estás mesmo onde queria:

- ah desculpe - a voz visivelmente atrapalhada - deve ser ela sim. mas sabe, quando eu a baptizei a rapariga ficou a chamar-se de maria joão. se agora mudou de nome para doutora e não me avisou vai ter muito que contar.

 

quem nasce lagartixa...

 

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não sejas bicho do mato rapariga e vai à missa,

mas antes da missa era a catequese.

nós, que nos conhecíamos da escola, chegávamos mais cedo e ficávamos no átrio em correrias de brincadeira.

a catequista era uma miúda nova que se aperaltava na honra concedida e lia-nos o catecismo que comprávamos no início de cada ano.

uma vez cortei as imagens do catecismo todas, e colei-as num caderno velho, na minha própria história, ao lado de outras cortadas de uma revista que os senhores jeovás deixavam lá em casa, antes da mamã os expulsar.

de vez em quando, o senhor padre, calvo, afável, maneiroso, baixinho, pequenino, voz felina, barba feita perguntava-nos o credo, fazendo cara feia quando não sabíamos.

o padre está num lar, faz mais de dez anos, acabado de velhice.

 

não sejas bicho do mato rapariga e vai à missa,

mas quando podia, depois da catequese, fugia da igreja:

corria desalmadamente e ficava na terra em frente de casa, fazendo bolos de lama ou escondida no meio do milho até ver a dona lurdinhas, que mais santificada naquela hora, bamboleava-se afirmando ao mundo que ia fazer o arrozinho.

a dona lurdinhas morreu, vai fazer três anos. 

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas quando não podia fugir ficava ao lado dos outros todos, bem alinhados, mesmo na primeira fila.

a meio da igreja o coro cantava, desengonçadamente, num orgulho desafinado dos seus membros em trajes de domingo.

eu levantava-me quando me tinha de levantar e sentava-me quando tinha de me sentar.

os minutos arrastavam-se na voz monocórdica do padre. e na hora da saudação eu ia muito saltitante dar beijinhos a conhecidos e família, que a mamã assim ensinara, incluindo ao avô que me segredava piadas.

o avô morreu, vai fazer dois anos.

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas dizia-se que o padre tinha um filho e muitas amantes.

dele só sabia que falava baixinho e que apertava as bochechas com muita força. e que tinha uma irmã que nos esperava na saída da escola, só para conversar.

a irmã do padre desapareceu, vai fazer dez anos.

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas nunca ouvi uma palavra do que era dito, fosse em que altura fosse.

conseguia escutar as primeiras leituras, em pessoas que saiam dos seus bancos e liam alto, depois de pigarrear muito, numa honra de distinção.

depois as palavras uniam-se umas nas outras e eu precisava de contar os azulejos, as flores pintadas no tecto ou os botões do sacristão, na camisa branca.

o sacristão desistiu, vai fazer tantos anos que nem sei. 

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

mas alguns domingos, quando ficava sentada na ponta, conseguia fugir a meio, por uma das portas laterais. nessa altura refugiava-me na lojinha do lado, povoada por homens que falavam, riam alto e diziam palavrões, numa socialização normal.

eu pedia um rebuçado de caramelo, ao dono que era surdo, e ficava num canto, esperando que chegasse ao fim para, minutos antes, entrar devagarinho.

o dono morreu, vai fazer mais de quinze anos.

 

não sejas bicho do mato, rapariga, e vai à missa,

e eu ia.

mas deus nunca me agradeceu.

 

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