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desde que sobreviva

por M.J., em 19.01.15

estava escuro na rua e tinha o quarto todo, numa dimensão negra, à minha frente.

a cama encostada à parede, vazia de mim, entrava toda vista dentro, quase a estrangular-me de angústia numa imensidão de ausência de corpos.

 

caí suavemente numa dor tétrica e só minha, encostada à parede nua, perdida num mar de miséria que me congelava de tristeza. sentia, sabia que todo o meu corpo ia explodir de ansiedade e dor, num tremor, num torpor todo meu.

sabia que eu própria era um pedaço do que poderia ser e que, se não esbracejasse, se não me revoltasse, ia afogar-me no mar de dor que me engolia, sem medo.

 

em cima da mesa, colada à parede nua onde me deixara escorregar, estava uma faca.

comprida.

de lâmina romba.

 

e foi no primeiro corte que descobri, sentada num chão sujo de um quarto velho, que poderia controlar a morte de dor, provocando uma dor menos profunda, mas mais acutilante.

não foi uma boa decisão.

mas permitiu-me sobreviver.

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publicado às 21:34

da morte

por M.J., em 06.01.15

nós sentávamos-nos no sofá, já velho, coberto com a mesma manta aos quadrados.

ela tinha o cabelo branco penteado para trás, os olhos trémulos e baços e uma voz rouca, que perdia a entoação à medida que passavam os anos.

 

havia queijo e marmelada no armário, dado à merenda como petisco. o enorme relógio ao fundo da sala tocava as horas com um toque de santos a lembrar fátima. em cima do louceiro, castanho, com grossas ramagens esculpidas, estava uma fotografia do papa e ao lado uma do salazar - que agora já se podia - resgatada do fundo do armário onde estivera depois do vinte e cinco de abril.

tinha sempre os pés em cima de uma escalfeta castanha, oferecida pelo filho mais novo e uma manta nas pernas. mesmo no verão.

- não tem calor?

eu perguntava, boca cheia de pão e queijo, olhos na televisão, que tinha os quatro canais, mais do que em minha casa, a cores, um luxo.

- não minha filha, nesta idade os ossos nem sentem.

 

a casa era grande, senhorial.

imponente de pedra. 

vínhamos a uma das varandas e ao fundo era um campo que não terminava mais, cortado ao longe pelo ribeiro.

havia macieiras e laranjeiras e um tanque de água gelada, sempre a correr, na entrada, onde a mamã lavava a roupa.

- vai ter com a avó,

dizia-me, mãos enregeladas na água, cortadas da lixívia.

 

uma tarde, de inverno, chuvosa, comigo sentada no sofá do lado, ambas a olhar a televisão, o vento a bater nas janelas, ela disse-me, olhando a tv, quando a filipa vacondeus anunciava um trem de cozinha:

- coitada, deve ser muito pobre...

assim, dito no ar, em afirmação de sabedoria.

parei de comer o pão e o queijo e o chá muito doce de limão.

haviam-me ensinado que devíamos ter pena dos pobres e eu sabia deles todos, alguns doentes na aldeia. nunca vira, no entanto, nenhum na televisão, a apontar para um conjunto de panelas.

- porquê avó?

a admiração na espera de uma resposta inteligente.

- ela aparece sempre com a mesma camisa, coitadita. sempre. nunca vi aquela mulher com uma camisa diferente. vai ali, está ali o dia todo, a apresentar os reclames, aos domingos e tudo e sempre com a mesma camisa. deve ganhar muito pouco, coitadita.

e depois, como quem chega a uma conclusão:

- mas também não fala muito, não é?

 

nessa noite, chuva na janela, depois de deitada, comida reconfortante no estômago, fiz as minhas orações, todas, uma a uma, como me haviam ensinado, antes da comunhão, rezadas pelos dedos, e acrescentei uma avé maria pela filipa vacondeus, que coitadinha só tinha uma camisa e era muito pobre.

 

a minha bisavó já morreu há muito tempo.

do que recordo dela são vagos pormenores, perdidos no tempo e nas banalidades da vida.

mas sempre que via na televisão a filipa vacondeus a anunciar trens de cozinha sentia uma ternura gritante e uma certeza serena das recordações que não morriam, avivadas assim, num ecrã a cores.

hoje morreu mais um pouco da minha infância. e no egoísmo que isso é, faz-me ficar triste.

 

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