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a espinha

por M.J., em 02.01.18

nunca ninguém diga que bem está,

dizia e diz a mamã sempre que algo inesperado acontece, uma notícia menos simpática, "a ti maria bateu a bota", mesmo que a maria tia já tivesse mais anos dos que eu vou ter um dia e fosse esperado o final; ou o aviso de um acidente de tractor do senhor qualquer coisa que, mesmo mais do que avisado, vai para montes e vales de máquina em riste sem condições de segurança e fica depois debaixo dele enquanto o resto da aldeia diz, 

coitado, tão novo, morrer assim, a trabalhar,

e a confirmação,

nunca ninguém diga que bem está,

dizia e diz a avó, agora mais velha, mais triste, mais saudosa, a ter na pele o mundo em revolução, o fim sem contar daquele que era a sua vida, certa no que diz,

nunca ninguém diga que bem está,

disse eu ontem, depois de ver a morte passar-me em frente aos olhos quando, enquanto jantava um peixe para desenfastiar das festas e dos exageros, a concentração na tv, o último episódio da voyager quatro meses depois, e pumbas, uma espinha entalada na garganta, vá-se lá entender como, uma das grandes, de tal forma que, tenho a certeza, isto não é a minha hipocondria a falar, podia senti-la do lado de fora se colocasse a mão, e o rapaz a olhar nos primeiros segundos para a minha aflição com ar de descrença, a pensar nos exageros dos meus aneurismas imaginários que me fazem náuseas que não existem, e eu já com as lágrimas a correr pela face, a sensação de algo muito mau na garganta, espetado de um lado ao outro, a tentar explicar que era sério, aquilo a doer e levanto-me meia cega e ele, convencido da minha aflição,

vamos já para as urgências,

e eu sei que vou estar horas numa espera, ao lado de vírus e gripe e pessoas tristes doentes, enquanto um médico irá depois, cansado e sem paciência, enfiar-me algo pela goela abaixo,

deixe-se de mariquices, é só uma espinha,

e nesse momento, numa espécie de adiantamento, sinto a dita espinha a mexer-se, como se um rasgão descesse esófago abaixo, oh meu deus, é este o fim, M.J. morre no primeiro dia de 2018 em pijama e robe, enquanto come dourada e o resto das batatas fritas de ontem, é castigo, tem de ser, por todas as mensagens de natal que não respondi, todos os votos de ano novo que ignorei, todas as pragas que roguei a musiquinhas de natal e chocolates e,

espera, talvez não seja preciso,

digo, enquanto ele se veste num rompante, aquilo a arranhar e a descer, como quando bebemos chá muito quente e sentimos queimar, e pronto, desceu e era como uma dor apertada que ficou no peito, longe de angústia ou do medo do recomeço de outrora em cada novo ano que começava, uma coisa física, uma espinha que abriu um rasgo de dor num esófago triste.

passou?

perguntou ele, as minhas lágrimas já secas, o meu suor na testa.

e eu que sim, sentada, pálida, a vida a passar-me perante os olhos, um médico a cortar o que fosse preciso cortar para tirar uma espinha de uma pessoa que, claramente não sabe comer.

passou,

respondi enquanto bebia um pouco de água que doía como mil espinhas na passagem onde a outra deixara marca.

passou,

concluí depois, já com a cor no rosto,

mas que nunca ninguém diga que bem está.

 

se 2018 continuar como começou tenho 364 dias de ensinamentos da mamã e da avó para aprender na pele.

e não quero.

oh senhores. 

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publicado às 11:50


7 comentários

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De Olívia a 02.01.2018 às 11:54

Tive saudades tuas!!!
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De M.J. a 02.01.2018 às 12:29

e eu tuas.
(desculpa a ausência de resposta)
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De Cristina M. a 02.01.2018 às 13:48

que valente susto, MJ!
Bom Ano :-)
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De Rooibos a 02.01.2018 às 13:52

Também conheço essas expressão! E é uma grande verdade.
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De Ana a 02.01.2018 às 14:25

Só tu, para contar uma coisa destas assim. Tão bom.
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De Outra a 03.01.2018 às 12:22

Que agonia mulher! Apanhei um valente susto com o miúdo e uma suposta espinha...nem te conto.
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De Violinista a 03.01.2018 às 18:57

Um susto.
Por acaso o meu irmão também ficou uma vez com uma entalada na garganta e tivemos de ir ao hospital para a tirar.

(a despropósito, adoro a imagem do blog, posso apontar para o canto direito e dizer que aquele boneco tem tudo a ver comigo :) )

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