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a grande dúvida

por M.J., em 28.11.17

acontece-me quase sempre no primeiro contacto, apesar de, exteriormente, conseguir manter um ar civilizado:

saco de dois olhares ferozes internos e construo na minha mente a imagem da pessoa.

as pessoas como eu são aptas a olhar os outros com os olhos que se olham a si próprias. e quando há a tendência de desvalorizar quem somos acabamos por fazer, inevitavelmente, o mesmo ao Outro. 

escusado será dizer que nunca acerto e as minhas considerações são quase sempre afastadas a pontapés pela simplicidade, humanidade, sorrisos e afins que me são entregues.

 

creio que é o grande castigo do universo para com a minha pessoa:

provar-me, constantemente, que estou errada.

fazer-me bater com a cabeça nas paredes, independentemente dos altos que já la estejam por outros embates, fazendo-me perceber que as minhas primeiras avaliações são falsas, mesquinhas e que não vale a pena: estou errada. o Outro não é feito à minha semelhança e, como tal, é muito melhor do que eu.

 

o que me assusta nesse primeiro contacto é, também, a maneira como às vezes sou tratada.

como se alguém visse nas minhas bochechas, no meu ar furioso e embatucado, o ar de uma miúda pequenita a quem recusaram um gelado e está amuada a um canto.

juro, e não tenho por que mentir, que são mais as pessoas que, sem me conhecer, me tratam pelo diminutivo do nome que ao contrário.

uma antiga senhoria minha dizia que tenho um ar de menina aflita. 

será esse meu ar que atrai a generosidade daqueles que me rodeiam?

 

porque reparem, se a vida não foi em tempos do mais generoso possível comigo, foi-me compensando - apesar de quem sou - com a entrega de pessoas extraordinárias que me rodeiam os dias.

e nessa quantidade de gente que vou recebendo, uns a ficar, outros a partir, eu sou sempre aquela dos filmes que destoa.

a ovelha ranhosa - ou ronhosa? - com o feitio de merda, que engole os pensamentos mais mesquinhos sempre que recebe, em troca, a generosidade e um diminutivo no nome.

o meu ar de menina aflita reflecte quem sou.

e as meninas aflitas também são, às vezes, meninas más, postas de castigo com razão, por puxarem cabelos no recreio.

resta saber porque permanecem os outros, ao lado delas, mesmo quando estão viradas contra a parede, enquanto o dia prossegue no intervalo.

 

 

 

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publicado às 10:34


3 comentários

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De Olívia a 28.11.2017 às 10:41

Queres saber porque permanecem os outros, ao lado delas, mesmo quando estão viradas contra a parede, enquanto o dia prossegue no intervalo?
"Chama-lhe amor"
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De Quarentona a 28.11.2017 às 13:24

Grande questão! E agora?... Sei lá! ;))))
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De Cristina M. a 28.11.2017 às 20:41

em primeiros, isso de olhar e ver gente parva e depois conseguir ver gente de bem, é de valor. seguramente.
e depois, aquele penúltimo parágrafo só me fez lembrar a catraia da família Adams... uma querida, ó.

;-)

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