Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




a recordar

por M.J., em 14.07.16

numa das ruas de acesso à universidade há pequenas entradas na ria com bancos debaixo de árvores.

houve uma tarde de domingo em que ficamos ali sentados duas horas, lado a lado num silêncio de desespero. sinto, sem sentir, a brisa fria do inicio de noite a revolver-me o lenço azul e o sol ao poente, laranja de morte anunciada.

a doença tinha tomado conta de mim como duas luvas negras, muito escuras e esburacadas a apertar-me a alma. não tinha alma, asfixiada em negrume e fiquei parada, quieta, mãos no colo, a olhar o sol em frente à ria.

quem nunca viu não sabe das gaivotas em voos rasantes à água, do cheiro a sal, do azul luminoso a varrer o ar. não sabe das duas horas, quieta, parada, num silêncio que me consumia como gritos, na espera que a alma respirasse e eu sentisse, numa completude de voo, a vida nos poros.

duas horas em silêncio, numa certeza séria de que não sentia se não o não sentir.

não soube, na altura, do desespero cego dele, da tentativa desenfreada que o sol me fizesse abrir com golpes de mão as luvas negras que consumiam a vida: da sua incompletude repleta de medos perante o abismo dos meus olhos. a perder-me para o vazio sem experiência ou capacidade de me resgatar.

quando anoiteceu sentia menos do que sentira antes.

só mais dor.

e ainda assim, não sei porquê, serão duas horas no meio das mil vividas, que não esquecerei:

havia gaivotas, sal, vento e um lenço azul.

78140651.jpg

 

(créditos da imagem nela própria) 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:15


1 comentário

Sem imagem de perfil

De sarabudja a 14.07.2016 às 11:25

E havia um querer-te bem, por ventura, maior do que o teu não sentir.

Comentar post