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agora que me ouves #5

por M.J., em 17.10.15

os brincos de princesa cresciam numa das varandas.

rosa, de um rosa vivo que se confundia, em dias mais quentes, com o sol ao fim de tarde a desvanecer-se no horizonte, eram o orgulho da avó. eu sentava-me nas escadas e apertava-as, uma a uma, ouvindo os estalos secos, de profundeza de destruição.

- pac, pac, pac.

uma e outra.

e as flores abriam, obrigadas pelos meus dedos, inconscientes, no medo.

tinha sempre medo de voltar, quieta nas escadas, ao fundo.

 

um dia, sentados os dois, a janela aberta na primavera que caía, a árvore a entrar em suaves brisas, disse, voz seca, quase ausente:

- tenho medo.

ele olhou-me sabedor do presente e passado. consciente de quem fui e sou. disse. 

- não tenhas. compramos brincos de princesa.

 

vivem ainda, já, nesta varanda.

- pac, pac, pac.

dou pequenos estalidos nas flores. não morrem afinal. só abrem mais depressa. 

 

no vaso do lado, pendurado nas grades, tenho sardinheiras.

não podadas.  

 

3923339.jpg

 

*foto de josé i. costa.

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publicado às 08:11


2 comentários

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De Gaffe a 18.10.2015 às 18:06

Um dia - quem sabe?! - talvez te ensine a podar as sardinheiras.
:)
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De M.J. a 18.10.2015 às 22:28

um dia :)
quem sabe :)

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