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alienação parental

por M.J., em 04.05.17

confesso que às vezes, mesmo que não queira, compreendo a alienação parental.

é aquela sensação de que quanto mais crescemos mais percebemos quem somos e mais temos dúvidas acerca daquilo que um dia julgáramos certo. e eu tinha plenas certezas - há 10 ou 15 anos - que há coisas intransponíveis, situações que não se põem em causa e valores que nos guiam independentemente do resto:

uma delas era que um filho está acima de tudo e é nesse respeito que devemos seguir a vida, na moderação de uma responsabilidade que não se descarta.

 

depois, quanto mais vejo, mais sigo, mais experiencio situações que não são minhas mas ainda assim, vivenciadas, percebo que nada é certo sobretudo quando se trata de saber quem somos e o que conseguimos fazer e aguentar.

 

quando do outro lado, o outro pai ou mãe de um filho nascido por decisão consciente ou inconsciente, levanta tantas barreiras, tanto celeuma, usa de todos os truques baixos, todas as coisinhas mais pequeninas, pega na criança e molda à medida da sua personalidade, usando como uma pequenina bomba de sofrimento,

"agora não o vens buscar que não quero",

"agora não a levas de férias, que não me dá jeito",

"agora ela não vai à escola mas eu é que sei",

"agora atrasaste-te 10 minutos, já não o levas",

uma imensidão de agoras, todos os dias, num desgaste pleno, contaste 

"vês? o teu pai não gosta de ti, nunca gostou",

"vês? a tua mãe está-se a marimbar para ti, é uma desgraçada",

interrogações diárias a uma mente em formação, e a mente já sem saber nada

"queres viver com o pai ou com a mãe",  

uma ideia numa hora, outra ideia noutrana certeza de uma culpa que não percebe nem sabe ser culpa mas sente. 

 

e quando tudo isso acontece entendo.

entendo que uma personalidade fraca num dado momento se farte e solte um "foda-se, chega", e se vá desligando de todas as coisinhas, todos os dias, as merdas mais merdinhas de uma convivência com a outra parte que é só chata como a merda e não tem mais do que fazer que não implicar, e sempre que é preciso qualquer coisa lá vem mais manipulação e choros, e depois é necessário ter serenidade e engolir sapos e acalmar a raiva e matar o ódio e chega-se a um dia que foda-se, fecha-se com a porta, vai-se cedendo, vai-se desistindo,

hoje não tenho paciência

hoje não consigo

hoje não vou estragar o meu dia tendo de lidar com aquilo,

e a criança vai ficando, porque estar com a criança é ter de vivenciar mil merdas que não se aguenta com um pai ou uma mãe ignóbil, e o raio do tempo não dá uma trégua e nascem outros filhos, e há pressões e uma vida que obriga a presenças e cada vez é mais difícil reverter e voltar atrás e ter a força suficiente para lidar com um progenitor que é pequenito, mesquinho e manipulador, ainda que essa seja a sua verdade e esteja também repleto de uma razão cravejada de balas. 

 

entendo.

juro que entendo hoje o que não entendia há uns anos.

porque me conheço como não conhecia antes e sei quem sou nos momentos de dor. porque me assumo fraca. porque me conheço no abandono das situações que exigem demasiada paciência. porque percebo a minha tendência de fuga e incapacidade de lidar com raiva ou ódio. porque seria incapaz de passar uma vida em guerra.

 

 

eu seria - lamentavelmente - das que diriam "amanhã" num amanhã que só chegaria 20 anos depois a alguém que não poderia compreender. 

 

percebam de uma vez que os finais felizes não são uma constante na vida.

e que da mesma maneira que mal nos conhecemos a nós próprios, em constante mutação e evolução (pelo menos a maioria, vá) o outro também.

e o outro é aquele com quem terão de lidar uma vida completa no dia em que nasce um filho.

uma vida para sempre. numa ligação para sempre.

e os traços de personalidade que menos gostam agora serão os que se evidenciarão depois, para sempre. 

não achem que será diferente, que farão diferente, que serão melhores apenas porque sim: conheço mil casos que estavam dispostos a jurar isso e não foi.

meus senhores... conseguem imaginar o que é ter de lidar todos os dias com alguém que simplesmente detestam, numa luta constante?

 

deus me livre e guarde, penso eu.

é um dos fundamentos da alienação parental, responde-me a vozinha pequenina no meu cérebro. 

 

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publicado às 10:10



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