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amamentação

por M.J., em 03.08.18

a dança da gravidez e as constantes alterações hormonais fazem-me, algumas vezes, dizer isto hoje e amanhã aquilo.

depois do choque inicial (anda por aqui escrito em algum lado o relato do assunto) tenho vindo a alterar ideias e o que pensava há vinte minutos não é bem o que penso neste segundo.

 

 

que altero os meus padrões e as minhas convicções não é novidade (basta ver o desenvolvimento deste blog) mas nunca me aconteceu desta forma tão rápida.

 

posto isto, o assunto hoje é amamentação.

e as minhas ideias - hoje - não vão de encontro ao que a maioria (ou quase toda a gente) apregoa: sempre achei que não iria, de todo, absolutamente de todo, amamentar.

jamais vi beleza no ato e sempre que assisti de perto ao desenrolar da coisa (com amigas ou familiares) fiquei chocada q.b. com o sacar da mama para fora e escarrapachar lá uma boca, alimentando alguém com um liquido produzido por mim.

a cena afigurava-se-me quase dantesca e, juro, totalmente atroz. 

e se para vocemecês é muito bonito, ainda bem, fico feliz. 

 

na verdade, estou-me ligeiramente a borrifar se alguém amamenta em público (cada um é livre de fazer o que quiser, incluindo andar de mama ao léu mesmo sem amamentar, só por gosto - são só mamas, pelo amor de deus); se passa o dia inteiro sentada a fazer do mamilo esquerdo ( ou direito) chupeta ou se assume que é a coisa mais maravilhosa do mundo.

são opiniões, decisões próprias e respeito-as.

mas sinto que quem pensa o contrário (e não quer nada disso) é visto como a escumalha das mães, a irresponsável egoísta e a desgraçada que devia ter as trompas laqueadas porque não o quer fazer.

são dois pesos duas medidas: a mãe é que sabe o que é melhor desde que seja aquilo que essa mesma mãe pensa.

temos pena: comigo não pega.

 

por isso, quando fiquei grávida não foi espanto para ninguém o meu aviso, desde o início, de que não iria amamentar. as mamas são minhas. o corpo é meu. eu é que decido. 

ninguém tentou contrariar-me (na verdade, naquele estado inicial era impossível alguém dirigir-me sequer a palavra). a mamã ainda tentou, um dia, dizer que devia ponderar melhor, mas perante o meu ar calou-se com o assunto e decidiu que o melhor mesmo era esperar e ver no que dava.

a ideia era tão constante no meu cérebro que, a par com o medo de morrer no parto (realíssimo de tal modo que passei noites inteiras - já disse que aqueles 3 meses foram horríveis de todas as maneiras? - a chorar, convencidíssima que ia morrer a parir - hei-de falar sobre isto) se tornou uma obsessão.

fazendo uma pesquisa na internet não encontrei ninguém (NINGUÉM), nem um único relato de mães ou grávidas que sentissem o mesmo que eu:

só existem pregões a incentivar a beleza, a maravilha, o fantástico de ter um ser a comer nas nossas mamas.

só existem avisos, alertas, frases feitas de que sim, é obrigatório, imperativo, essencial dar de mamar e ai de quem fizer o contrário.

 

das duas uma: ou sou a única (e pode bem acontecer) ou, quem sente o que eu sinto recusa-se a falar sobre isso, no medo das criticas. 

 

vi de tudo:

  • comissões de proteção de menores chamadas aos hospitais por mães se recusarem a amamentar;
  • centenas de gritos de que deve-se tentar a amamentação mesmo que doa, custe ou seja difícil porque isso é o mais importante; e até...
  • blogs de maternidade, que apregoam que as mães devem ser felizes, contentes e sorridentes, desde que o feliz, contente e sorridente inclua a amamentação. se não fores amamentar bem que te podes lixar e ser infeliz, triste e chorosa: amamentas e calas-te.  

resultado: quanto mais lia nesse sentido mais do contra me sentia: não. jamais. aqui não.

 

e as vozes todas:

mas isso é o melhor para a criança e estás a ser egoísta,

e eu a responder,

pois claro, o melhor para as crianças também é nascer num casamento em que os pais se respeitem e gostava de saber a média desses;

ou o melhor para a criança não é nascer numa casa em que se passa meio mês à espera do final do mês porque o dinheiro mal chega para as despesas básicas e o que há mais por aí é isso;

o melhor para a criança seria que os pais não os levassem à praia ao meio dia em tardes de quarenta graus à sombra e basta ver a quantidade deles;

o melhor para a criança era ter pais dispostos a comprar todas as vacinas recomendadas (mesmo as não comparticipadas) pelos médicos e há deles que mesmo que fossem vender certas partes do corpo não tinham massa para as comprar. 

o melhor para a criança era ter pais que impusessem limites e não os ensinassem a ser pequenos ditadores e há deles que até acham que faz sentido pedir a um recém nascido autorização para lhes mudar os cueiros cagados.

enfim, o melhor para a criança, acredito eu, é aquilo que resultar para ela e para quem cuida dela. e este mantra ninguém mo tira e (não) temos peninha.

 

a coisa angustiou-me a pontos de um dia, na consulta com a minha médica, desatar em prantos.

lembrava-me de uma familiar que mesmo com os mamilos rachados, cheiinhos de sangue, viu as enfermeiras na maternidade (logo no dia a seguir ao parto) insistirem, numa espécie de bate o pé e é assim e é, a moça ainda meia traumatizada do parto, e elas constantemente a insistir para ela enfiasse o mamilo na garganta do puto, mesmo que aquilo lhe provocasse dores atrozes.

ou de relatos de mastites, leite empedrado, sangue a escorrer e as sete pragas do inferno concentradas nas mamas.

e eu em prantos, soluços mesmo, a tentar explicar à médica que não queria, mas que sentia uma pressão enorme para isso e que só me apetecia cortar as duas mamas e acabar-se a história. e quanto mais chorava mais a médica me tentava acalmar até eu descobrir (como já devia saber) que aquela não é das fundamentalistas e que me arranjou ali mil alternativas, me descansou quanto à minha convicção e repetiu o meu mantra: não resultará para a criança se a amamentação me causar a mim, enquanto mãe, tal sofrimento. seja físico, seja psicológico. 

 

pronto.

foi nessa altura que me tiraram todos os quilos que tenho a mais de cima dos ombros.

ela entendia.

aquela médica entendia e estava disposta não só a respeitar a minha decisão, como a ajudar-me nesse sentido.

 

resultado: hoje pondero na amamentação cruzada (será assim que se diz?). ou seja, meio, meio:

as minhas mamas serão um frigorífico a meio tempo. o outro meio será responsabilidade do paizinho que, munido de dois biberons (ou três, nisso podemos esbanjar) terá o mesmo direito e dever que eu de alimentar a cria.

 

um dia - juro que é verdade - fui à maternidade visitar uma recém mamã que ainda estava meia zonza da anestesia da cesariana (a coisa complicou um nadita no parto normal) e vi o marido - e pai da criança - quase aos gritos a dizer-lhe para tirar a mama para fora que o puto estava a chorar de fome e era responsabilidade dela estar sempre prontinha e apta, mesmo que estivesse na cagadeira. 

se aquilo tivesse acontecido comigo ia pai da criança, criança e as minhas mamas, todos juntos, tirar leitinho de uma cabra que não eu. 

é que só faltava.

 

então e o que te fez mudar de ideias, m.j., quanto ao assunto de amamentar?

não sei.

não foi de certeza as mil frases escritas por todo o lado a apregoar, incentivar (diria praticamente obrigar) a coisa (na verdade isso só me motivou ao contrário). tenho antes a sensação que foi o lado prático da questão (ter ali leite sempre à mão e não ter de andar para trás e para frente a misturar pó e água) aliado à minha veia sovina de vinte euros por uma lata de leite que dura uma semana. 

para já estamos neste ponto. daqui a 4 meses logo falamos.

 

mas repito e que seja ponto assente:

estou disposta a dar o melhor que tenho (e não tenho) para esta criança com algumas restrições: sem nenhum fatalismo, fundamentalismo ou coisa e tal. se me provocar sofrimento que pode ser evitado, evitado será.

 

podes crer meu filho: isto entre nós vai ser uma parceria. no entanto, quando não chegarmos a consenso... lamento mas quem manda sou eu. 

 

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publicado às 11:10


22 comentários

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De Silent Man a 03.08.2018 às 15:26

Bem... Esposa amada amamentou praí 25horas no máximo. Primeiro porque o leite dela não tinha power, depois porque o puto tinha fome que se desunhava (ainda hoje 1litro de leite por dia é uma boa média)... Alia-se a isso medicação e está o caldo entornado. Não houve mamas aleitadoras para ninguém.

Por isso passei 5 meses (sim, esposa é profissional liberal e se não trabalha não recebe) a amamentar o chavalo com leite da lata, a comprar as ditas latas, a mudar fraldas e a dar banhos. Tornou-me um homem melhor? Não, mas fez-me entender vocês, tipas parideiras, segundo um prisma mais colorido.

Nunca fui fundamentalista de nada, mas acredita que te entendo, amiga Éme Jóta.
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De M.J. a 03.08.2018 às 17:48

esposa amada é cá das minhas. tanto na questão do leite como do "quem não trabalha não ganha".
com a diferença que, no meu caso, o pai da criança junta as duas vertentes: trabalha por conta de outrem e é profissional liberal pelo que, enfim, não pode recusar certos projetos para estar cinco meses de biberão em punho. tudo terá de ser adaptado à nossa realidade, à nossa vida e ao que conseguimos.
é por isso que me crescem as unhas ao contrário sempre que vejo maluquinhas da amamentação, como se mais nada interessasse.

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