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amor

por M.J., em 17.11.17

estendo-te as minhas mãos e não digo que te amo.

as palavras são banais e perdem-se nas curvas das horas. olho-te com desvelo e cuido. cuido de cada pedaço de quem és e somos - somos um e outro e quando damos conta somos um - e sinto os pedaços das tuas coisas como minhas.

 

não me esqueço de fazer a tua marmita, antes de dormir, mas esqueço-me de dizer do orgulho que sinto em ti. não sabia a dimensão de um sentimento destes perdida na significado mais cru da palavra. grito ao mundo sem gritar o sentimento de felicidade que me provoca sentir que estás na minha vida e que és parte dela e que és, tem dias, a vida que eu sou.

integralmente. 

 

não me esqueço de ver se tens roupa lavada e passada, no armário, para cada dia em que acordas num rompante mas esqueço de sussurrar, antes de dormir, que te amo. num sentimento atroz que ultrapassa a paixão, o desejo e se mistura com casa, lar, cumplicidade, intimidade e sensação de frio e calor, tudo de uma vez só.

e me faz quem sou.

 

não me esqueço de ir às compras, por ti, que detestas. vejo o que mais gostas e trago, numa preocupação e vontade de te tirar dos ombros as tarefas domésticas de que não gostas. mas esqueço de te dizer bom dia, de manhã, quando damos encontrões pela casa, numa correria de começar as horas. 

quase sempre.

 

não me esqueço de cozinhar o que mais gostas. de marcar as consultas a que não queres ir. de questionar as tarefas que adias com pouca vontade e não posso fazer. mas esqueço de te pegar na mão, aos fins de semana, e jurar amor para toda a vida. 

na única certez que tenho.

 

cedi em quem sou, sem dar conta.

não gostava nem queria fazer marmitas, pensar em roupa, passada e lavada, comprar coisas domésticas essenciais a uma vivência, planear refeições saudáveis, organizar dias livres e cozinhar. esta não era quem eu era. esta era outra, que eu achava desprezar, no não saber da dualidade de uma vida. no não saber das cedências, dos compromissos, do quanto nos transformamos, naturalmente, no correr das horas tranquilas de um dia. de uma vida.

 

não me esqueço de cuidar como manifestação mais forte - aquela que vi também uma vida toda - do amor.

troquei as palavras, de que eu afirmara ser mestre, por gestos e actos pequeninos, insignificantes ao lado da grandeza do que poderia dizer. 

estendo-te as minhas mãos e não digo que te amo:

mostro-te.

 

 

 

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publicado às 10:32


8 comentários

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De Psicogata a 17.11.2017 às 10:55

O amor é muito mais do que palavras é ações, é nelas que que expressamos o que sentimos.
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De Anónimo a 17.11.2017 às 11:07

e mostrar é tão melhor....

bonito texto...
bonitos acontecimentos...

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De Quarentona a 17.11.2017 às 11:25

Tão lindo o que escreveste, Émejóta :))))
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De Olívia a 17.11.2017 às 11:39



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De Anita a 17.11.2017 às 12:36

e é mesmo.
Lindo
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De Tatiana a 17.11.2017 às 14:16

E não é tão mais importante mostrá-lo do que dizê-lo? Palavras leva-as o vento, as atitudes é que ficam para sempre gravadas no coração.
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De Azulmar a 17.11.2017 às 19:06

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De Outra a 20.11.2017 às 11:30

Vale tanto esse amor de gestos. Para mim, que sou inapta a dizê-lo...

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