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amor

por M.J., em 15.01.18

na correria dos dias perco, às vezes, a dimensão do que importa.

não é de propósito.

há sempre tanta coisa para fazer, coisitas miúdas em que pensar, listas intermináveis de tarefas que aumentam, por mais que se façam.

penso em prazos, objectivos, dinheiro e concretizações.

decido menus semanais, pondero se a senhora que por aqui passa, a limpar isto e aquilo, deve vir hoje, amanhã ou no dia a seguir.

planeio dias aqui e ali, sem esquecer este e aquele. 

as horas passam numa corrente interminável de coisas e eu esqueço, sem ser por mal, a dimensão do que importa.

e ponho debaixo do tapete aquilo que pus em exposição em tempos. 

 

não controlo.

perco a paciência com pequenas coisas.

digo muitas vezes o mesmo:

sabes o trabalho que dá todas as manhãs apanhar uma manta espalhada? arrumar uma chávenas esquecida? sabes o tempo que perco a pensar nas tarefas de casa, tão miudas e ainda assim persistentes?

digo-te vezes sem conta, com medo que te esqueças e que não percebas que o meu tempo escasseia e tem o mesmo valor do que o teu.

digo-te numa espécie de queixume, no medo que não te lembres do contributo de um e outro para a empreitada que somos nós.

digo-te e acabo de dizer e percebo que é parvo.

 

tu não me lembras, todos os dias, das horas de madrugada a que te levantas.

da viagem que fazes, faça chuva ou sol, para não termos de nos mudar para um sítio que não quero.

não me lembras do tempo que não tens para fazer o que mais gostas, empenhado em tanto trabalho para conquistarmos o que planeamos os dois.

tu não me lembras, quando olhas para mim, que me desleixei e estou mais gorda do que queria.

não me apontas flacidez ou celulite.

nunca me dizes podias ter ido fazer exercício, ou tens a certeza que queres comer isso?

nunca olhaste para mim e transpareceste qualquer outra coisa que não "és minha mulher e tenho orgulho nisso".

e mesmo quando me sinto miserável, pequena, feia e envergonhada tu tocas em mim como se eu passasse em lingerie numa passarela, com asas de anjo e nome conhecido.

 

tu nunca fizeste outra coisa se não amar-me.

e às vezes, nos meus queixumes, implicâncias, azedumes e coisinhas, tenho medo de não te mostrar o mesmo. 

tenho medo que um dia, qualquer que seja, estejas tão cansado, tão esgotado, que penses que não te amo assim.

dessa mesma forma que tu fazes:

absolutamente desinteressada, sem condicionantes, sem mudanças, sem alterações. numa dimensão absoluta de altruísmo. 

 

nunca te esqueças:

só principiei realmente a viver no dia em que te amei. 

e desde então isso nunca mais se alterou. 

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publicado às 12:45


3 comentários

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De Silent Man a 15.01.2018 às 14:11

Cá discurso da Oprah nos Globos de Ouro ou do Matthew McConaughey no dia em que recebeu os Óscares!

Isto é que é um discurso!

Lindo lindo.

É por estas e por outras que te digo, tomara um dia ser escorreito das ideias tornadas letras por via das falanges como tu.

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De Quarentona a 15.01.2018 às 17:21

Faço minhas as palavras do Silent!

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