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anel de curso - a continuação

por M.J., em 11.08.17

de vez em quando há uma enchente de pessoas que aqui aparecem à conta do facebook. 

a maior e mais torrencial, ao jeito de uma chuva de inverno, foi aquando do post do fit com um bando de meninas esfomeadas a chamar-me nomes e ameaçar-me com coxas de frango frito e batatas em pacote.

foi incomodativo porque pensei que me fariam uma espera - eram bem claras no grupo do facebook onde a coisa tinha sido partilhada - e durante uns dias olhei de soslaio por cima do ombro não fosse ser interpelada por alguma que me passasse uma rasteira com o osso - literal - da canela.

passou e com a ajuda da minha pequenita seita, a coisa até se tornou divertida.

 

ontem foi um post sobre anéis de curso. 

depreendo (são só deduções, não sei com certezas) a lógica do rasto:

alguém fez pesquisa no google sobre essas maravilhas, encontrou o texto, revoltou-se e partilhou num grupo de facebook.

foi muita visita numa quinta em que mal escrevi e as estatísticas não deixam margem para dúvidas.

 

fui ler o texto, na certeza que ofendi alguém, muito intensamente.

não tem nada de mal.

em boa verdade, continuo a achar que usar um símbolo no dedo, de que se estudou, é de um pretensiosismo atroz.

se o pessoal usasse o conhecimento - o verdadeiro - apreendido em cultura e crescimento individual ia perceber que esse mesmo conhecimento transformado em símbolo, para o qual pagou propinas, era bem mais importante do que uma espécie de acessório identificativo do "eu fui, eu sou, verguem-se".

mesmo assim, não me interpretem mal, estou-me muito a borrifar para o facto de a senhora que me amanha o peixe ou o meu ginecologista (que não amanha nada mas enfim, também usa as mãos) terem ambos anéis de curso.

é uma opção de cada um:

tal como usar um vestido branco de noiva, quando a virgindade foi há tanto tempo que há gente que nem se lembra; não comer carne na quaresma mas enjorcar camarão, ou achar que uma licenciatura é sinónimo de uma doutorice importante.

são opções.

 

seja como for, deixo o texto (com ligeiras alterações de forma) e poupo-vos a maçada de andarem à cata.

que, vistas bem as coisas, foram só visitas.

não houve ameaças de me enfiarem com nenhum anel pela goela abaixo, assaltarem o carro numa noite escura ou fazerem-me duas rasteiras no supermercado. 

seja como for...

 

 

tenho o anel de curso numa gaveta das meias, a um canto. dentro de umas velhas, às estrelinhas, que conservo desde tempos de faculdade ao lado de um pijama azul celeste, de algodão, que encolheu com o tempo e me fica pela canela.

nunca concordei com a ideia de anel de curso. 

a mamã, num orgulho descomunal comprou-mo juntamente com os meus padrinhos.

ofereceu-me no dia da bênção das pastas, depois de eu assistir à missa dentro de um casaco que não me servia, porque engordara que nem um balão. 

nunca o usei.

 

não entendo, não entenderei jamais o conceito.

é de ouro, amarelo, com a cabra de um lado, um mocho do outro e uma pedra vermelha brilhante, grande no centro. diz que simboliza o curso, de direito, tirado com suor e trabalho.

acho que simboliza apenas o pretensiosismo de quem quer mostrar um status qualquer que não se compra.

 

guardei-o numa caixa, pintada à mão, de porcelana, oferecida no natal por uma das senhoras da avenida, com quem via as novelas.

mais tarde, numa das mudanças, perdi a caixa e releguei-o para as meias velhas que não uso e que encontrei, no mês passado quando me mudei.

 

um dia a mamã perguntou-me por ele, olhando para um dos meus dedos nu:

- o anel M.J.? - perguntou-me.

- na gaveta das meias - respondi, a boca cheia de arroz com frango assado, na tradição dos domingos.

- mas porquê? sabes que vi a dete com o anel no dedo? tão lindo. uma pedrinha brilhante, as unhas arranjadas, o anel. tão bonito ter um curso.

não cuspi o frango e o arroz que me custava a descer. avancei apenas, por uma questão de educação:

- não sabia que ela continuara a estudar. onde tirou o curso?

- isso não sei, que a avó não me disse e eu não perguntei.

- ah. então e já está a trabalhar? - apenas interesse educado, a tentar evitar a birra na lembrança da ausência do meu próprio anel.

- já sim senhora. tem um belo salão.

- um salão? como um salão? - agora espanto genuíno.

- um salão ora, com cadeiras e secadores e coisas modernas. faz depilação e tudo.

- mamã, que curso tem ela?

- cabeleireiro, ora! 

- e o curso de cabeleireiro tem anel de curso? - perguntei numa estupefacção idiota, nada contra, apenas estranheza.

- tem sim senhor. e não havia de ter porquê? não é um curso como os outros? até parece que os anéis haviam de estar reservados só a quem foi a coimbra, queres ver? nem sempre é preciso ir a roma para se ver o papa. o que interessa é saber e, sobretudo, querer rezar.

 

pimbas M.J. que é para aprenderes.

a mamã não quer que use o anel pelo status.

quer apenas que o mundo saiba que também sabe e pode rezar, se quiser muito. 

ah as ironias da vida.

 

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oh vai ver ali:

publicado às 11:41


5 comentários

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De Cristina (Maria) a 11.08.2017 às 13:20

é mais ou menos como ir ao banco e mudar o nome na conta, antecedendo-o de "dr." ou "dra."
ou então como um candidato às autárquicas aqui da terra, que publicitou a entrega das assinaturas no tribunal da comarca pela "Professora Maria Cachucha".
ou... ou... ou...

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