Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




António Mota

por M.J., em 24.11.17

estou a ler os sonhadores de António Mota. 

não sei quantas vezes o li.

e vejo ainda o olhar de desprezo da minha professora de francês do décimo ano, quando mo viu em cima da mesa, acabado de requisitar na biblioteca da escola:

não acha que está na altura de amadurecer o que lê?

perguntou-me, num som nasalado que dizia os oui na perfeição.

dei-lhe razão em palavras, achei-a ridícula mentalmente.

 

li muito de António Mota.

chorei em praticamente tudo o que li, mesmo que fossem livros pequenos, simples, humildes.

foram o meu primeiro encontro com a realidade que vivia nos livros que lia.

os outros estavam distantes de quem era e dos meus dias. falavam de pessoas com quem não convivia, de lugares que só via na tv e coisas que nunca tocara. os outros eram mundos de fantasia, mesmo que fossem a realidade.

António Mota descrevia a minha aldeia, mesmo não sendo. descrevia as pessoas que eu via. descrevia os lugares e o mesmo amor-ódio, nas personagens, por um lugar inóspito, pequeno, isolado e sem o colorido dos grandes centros.

 

é que reparem, apesar da minha aldeia não ser o portugalinho profundo - eu continuo a achar que sim, mas negam-me essa ideia - tem um clima próprio. tem demasiadas serras que a rodeiam e estradas em curva, que se estendem às ondas pelas encostas. e eu nasci num tempo em que não havia internet, os telemóveis eram uma raridade e em minha casa havia umA tv, a preto e branco - até aos meus doze anos - com um único canal.

 

eu era mais do que aquele lugar.

ansiava por informação.

lia a rodos, como quem procura um escape.

desprezava o nascer do sol, o silêncio depois das seis e o canto dos pássaros nas árvores.

desprezava as pessoas. o sotaque, a pronúncia, a humildade, a pequenez e os rostos tisnados do trabalho na terra.

eu estava destinada a grandes feitos mesmo que não soubesse a definição de grandes feitos. eu seria mais. 

 

só depois, anos mais tarde, percebi que o mais que eu seria estava moldado pelo amor que desenvolvera - sem perceber - pelo silêncio da serra, o sol de verão do meio dia a tisnar a terra, o canto dos pássaros, as frutas que cheiram a fruta colhidas das árvores, os legumes que cheiram a legumes arrancados da terra. os regos de água nas ruas onde molhava os pés nos dias de verão. as corridas e o saltos vindos das escolas, livres, sem medos. os natais em silêncio. as páscoas com as cruzes.

só percebi muito mais tarde, no confronto com o que eu achara que era a grandeza e depois se revelou pequenez, que estava irremediavelmente marcada pela minha infância e os grandes feitos que achara fazer seriam a aprendizagem de  viver comigo mesma, na depressão e no mau feitio e no aproveitar da beleza dos minutos doces.

nunca teria percebido o valor das pequenas coisas se tivesse nascido e sido criada num apartamento, num prédio de dez andares, rodeada de vizinhos e uma varanda como janela para a liberdade.

 

António Mota espelhava, naquela altura, a realidade que era minha a eu achava que não.

li os sonhadores, a casa das bengalas, os heróis do 6.º F, cortei as tranças, o rapaz de louredo, pedro alecrim e pardinhas, requisitados na biblioteca e absorvidos como oxigénio. 

 

há uns dias vi "os sonhadores" numa livraria e não evitei o impulso.

comprei-o.

vou lendo muito devagar, sem comer as palavras escritas na sofreguidão.

leio na ternura de cada frase, lembrando cada lugar onde li outrora, sentindo cada cheiro, absorvendo com serenidade cada linha.

 

todos nós temos heróis de infância. 

o meu é António mota. 

qual o vosso?

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

publicado às 10:30


7 comentários

Imagem de perfil

De Ana a 24.11.2017 às 10:34

Tão bom, M.J. Tão bom.
Imagem de perfil

De Gaffe a 24.11.2017 às 10:43

Sabes que conheci António Mota?
Digo "conheci", porque nunca mais me aproximei dele.

A tua evocação é fabulosa.
Contrasta com a personalidade do homem. Senti-o mesquinho, cravado de minúsculos preconceitos, escuro e mau, um bocadinho invejoso. Achei-o um homem feio.
A obra é incrível e concordo com o que dizes acerca dela, mas, neste caso - não sei porquê - não consigo separar o trigo do joio.
Imagem de perfil

De M.J. a 24.11.2017 às 11:11

A sério?
A contradição de algumas personalidades feias produzirem coisas bonitas...

(Eu senti isso com uma escritora portuguesa, também da minha infância. Encontrei-a no facebook, fui falando com ela. Depois cada post da senhora, os comentários, as conversas que estabelecia na página começaram a mostrar-me o que eu não queria perceber: que era uma valente egocêntrica, arrogante e mesquinha. Desamiguei-a :D e nunca mais li nada do que escreveu. Mesmo que me evocasse imagens ternurentas.)
Imagem de perfil

De Gaffe a 24.11.2017 às 12:13

Sim.

Uma das grandes amigas da minha avó era Agustina. Tomavam chá, discutiam terrivelmente, zangavam-se muito e riam-se imenso, nunca ninguém soube muito bem de quê. Estabeleceram uma cumplicidade raríssima e creio que eterna.

A proximidade deste génio entranhava-se na nossa pele. Agustina é - era - um potentado. Não consegues imaginar a dimensão humana desta Senhora. Tudo em Agustina era - ainda é - grandioso, mesmo a aversão que tinha aos que a contrariavam.
Agustina é bem maior que a sua obra fabulosa.

(Assustava um bocadinho,,, )
Sem imagem de perfil

De Anita a 24.11.2017 às 12:26

Só conheci António Mota devido aos meus filhos e acho uma escrtia tão simples, fuida e tão bela. Gosto bastante
Imagem de perfil

De blogdocaixote a 24.11.2017 às 12:36

Vou, como quem não quer a coisa, metendo debaixo do nariz da maria livros como pedro alecrim ou cortei as tranças, (que li e reli), mas a ausência de referências que lhe digam alguma coisa fá-la rejeitá-los, uma seca, diz ela. Tão melhores que diários de bananas e merdas que tal, mas sigo à letra os mandamentos da literatura e resta-me esperar que eventualmente, sem forçar, a miúda um dia os leia.
Imagem de perfil

De Quarentona a 24.11.2017 às 12:46

É também por estas tuas palavras que te gosto, tão bom, Émejóta. :))))

Comentar post



foto do autor