Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




ah e tal porque és uma egoísta da merda.

claro. evidentemente.

a pessoa decide ter filhos porque quer continuar a espécie e quer dar todo o amor a uma coisinha fofinha que é continuação dela. quer amar algo que ela constrói e isso é altruísmo.

não meus senhores. essa decisão é tão egoísta como a de não ter. é uma decisão centrada no próprio umbigo e nas expectativas que se cria para um futuro não muito longínquo. é que de outra forma, com tanta gente aí no mundo, tanto filho sem pai, tanto refugiado à mingua, tanto português em instituições, tanto chinês, indiano e restantes nacionalidades à espera de um papá e uma mamã como nos filmes e não se adopta? pois se o objectivo é dar o melhor de si a outra pessoa... ah, mas eu quero algo de meu na outra pessoa, tenho uma genética tão fantástica que filho ou a tem ou não me serve.

certo. legitimo. nada contra. mas isso é altruísmo?

claro. e eu sou o presépio todo.

 

e se os teus pais tivessem pensado o mesmo?

olha que merda de pergunta. se eles tivessem pensado o mesmo vocês estariam todos felizes porque eu não estaria aqui a escrever estas merdas.  deixaria de ter uma existência e, lógica da batata, estaria renegada à não existência.

se seria bom? sei lá. nem bom nem mau. não seria.

se não fosse aquele espermatozóide em concreto que tivesse entrado no óvulo mas o anterior eu também não estaria aqui. nem vocês. e depois? o que se havia de fazer quanto a isso?

nada, não é?

 

ah isso é porque nunca experimentaste. 

evidentemente. nunca experimentei ser mãe. se for provavelmente vou gostar muito da criaturinha que vai nascer. é o mais certo. é quase sagrado que assim será porque existem processos neurológicos, instintos básicos que a isso obrigam. é o tal do instinto que leva a que as gatas andem com os filhos na boca quando eles nascem ou que as vacas lambam a nhanha dos vitelos ainda eles nem sabem caminhar. faz parte. mas isso deve ser a base de uma decisão de ter filhos? 

vocês é que sabem, mas minha não será de certeza.

assentar a decisão de ter filhos porque se eu os tiver vou gostar deles é a mesma coisa que decidir começar a fumar porque se insistir um bocadinho vai ser magnifico circular aí com um cigarro no canto da boca. 

 

se toda a gente pensasse como tu não haveria humanidade.

ah, o eterno altruísmo do mundo. parimos porque queremos a continuação do amanhã. pois. então significa que todos os padres, os que levam a coisa a sério, devem ser apedrejados, é isso? e as freiras que passam, coitadinhas, a vida a rezar para o nosso bem? e os outros, os inférteis, esses também que enfim, à conta deles a humanidade terminará? e os gays, não esquecendo os gays que por processos naturais também não vão lá.

então e quê? não podem existir padres, freiras, gays? devem ser todos renegados porque se recusaram a contribuir para o continuação da humanidade?

 

um dia, quando fores velha, não tens ninguém para tomar conta de ti.

novamente o altruísmo da coisa.

meus senhores se querem assegurar uma boa velhice façam uma conta reforma ou um plano desses. não pensem que serão os vossos filhos a amparar-vos as quedas e a livrar-vos do flagelo da solidão no futuro. é só irem aí, felizes e contentes com um saco de bananas visitar lares de terceira idade. todas as pessoas que lá estão foram egoístas sem filhos, a colher o que semearam? não, meus senhores, não. diria que a maioria pariu e pariu até muito.

 

a tua vida sem os teus filhos vai ser muito infeliz, muito incompleta.

como é evidente. porque são os outros que sabem o que me completa a mim. são as outras pessoas que podem saber aquilo que me traz ou não felicidade. vamos lá pensar uma ou duas vezes, sim?

eu por exemplo, numa coisa corriqueira, entendo que a felicidade é comer um bom bolo de chocolate, a ouvir uma óptima música e a ler um fantástico livro. todos vocês se enquadram no conceito desta minha felicidade? desta minha completude, por exemplo? então e aqueles que já gostam de dar um bom passeio pelo campo, comendo maçãs e suando as estopinhas com o ar fresco e revigorante? qual de nós está certo? qual é que é mais feliz?

os dois.

cada um sabe o que lhe faz sentir feliz. e não vamos confundir as coisas: se a decisão dos outros é ter filhos, é pá, óptimo. muito bem. certinho. desde que não mos enfiem ouvidos dentro a berrar está tudo fabuloso, uma maravilha, uma coisa acima da média. se a pessoa decidiu porque quer ser egoísta ou altruísta, se decidiu porque os vizinhos também o fizeram, porque sentiu o chamamento de ter alguém ao colo é com ela. cada um sabe de si. agora o que vejo por ai espalhado é uma tentativa de quem tem filhos querer doutrinar quem não os tem a fazer o mesmo. (tipo, se eu sofri tu também hás-de sofrer?) ainda para mais com o argumento sou muito mais feliz que tu!

 

e o teu legado? e a tua passagem pelo mundo?

de certezinha que os pais do hitler devem ter ficado muito felizes com o legado deles. terá sido divino. assim como os pais dos gajos que se explodem todos por aí. ou dos que veem os seu legado violar o legado dos outros.

que mania a ideia de que o filho é a nossa continuação. o tanas. nós pusemos a criatura no mundo. se ela vai ser nossa continuação? depende da sorte. o que sabemos é que ela vai ser a continuação do seu tempo, da sua sociedade, das pessoas com quem convive inclusive nós. mas ter a pretensão que será para o mundo aquilo que nós achamos que devia ser é tão certo como uma galinha pôr ovos de chocolate.

o nosso legado pode ser aquilo que nós construímos. se também pode ser um filho? pode, claro que pode. se será? ninguém sabe. se é bom decidir parir com base nessa ideia? cada um quem sabe. eu acho, sinceramente, que é só idiota.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:18


47 comentários

Imagem de perfil

De Miss F a 10.11.2015 às 21:26

Olha hoje também falei nisso, mas por alto, não esmiucei assim. Falei dos filhos e do casamento e de os outros acharem que eu devia pensar de forma diferente. Tem o sugestivo título no meu útero mando eu (ou coisa assim).

Tantas vezes que já ouvi esses argumentos. Então o do quando fores velha. Oh senhores conheço casos de quem deixou a mãe no lar no dia de natal porque não dava jeito ir lá buscá-lá e ela também já estava xéxé nem percebia. Ter filhos para isto? Dai-me paciência.
Imagem de perfil

De M.J. a 11.11.2015 às 11:06

se as pessoas se importassem mais com os que já fizeram ver a luz e menos com os que estão tranquilamente na não existência...
Imagem de perfil

De Miss F a 11.11.2015 às 18:49

Exacto, as pessoas não entendem que os filhos que eu não vou ter não tem existência. E se não têm existência não são os filhos que não vou ter, são apenas um nada gigante e inexistente.

E esqueci-me de comentar o argumento do nunca experimentaste. Ora quando eu compro uma blusa pela net, por impulso, sei que, quando ela chegar a casa se eu não gostar mando de volta para trás. Mas que eu saiba a criança não traz formulário de devolução nem troca, vai daí que não gosto? Fico com aquilo para a vida? Agora imaginem usar todos os dias a mesma blusa castanho cocó que na imagem parecia camel, e que nunca a posso tirar nem sequer para dormir... Era triste.
Imagem de perfil

De M.J. a 12.11.2015 às 17:01

ninguém assume isso meu amor. ninguém assume jamais esse medo. as pessoas estão programadas para acreditar que vão gostar dos filhos, mesmo que eles as matem. mesmo que as roubem. mesmo que sejam uns energúmenos sem jeito. e mais. muitas das vezes, mesmo sem culpa alguma acreditam que são os culpados dos falhanços ou das glórias da criatura que pariram.
o ser humano é tão triste!
Imagem de perfil

De Miss F a 12.11.2015 às 17:29

Porque assumir esse medo quando a sociedade pensa o contrário... Mais vale ser carneirada e ter um filho. (e não, não deixo de ter filhos só por medo, são muitas mais as razões, mas esta também pesa).

No outro dia a minha mãe ficou muito chateada porque dizia que não sabe como não sei quem fez isto e aquilo sabendo que a mãe ia ficar triste. E eu disse-lhe 'lamento mas eu nunca na vida vou fazer ou deixar de fazer para te agradar, mais do que ser tua filha sou eu própria, com personalidade e vontades próprias'. Ui. Ficou o caldo entornado. As pessoas não entendem que os filhos, por muito que elas queiram, não são uma continuação delas próprias.

Comentar post



foto do autor