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asfixia

por M.J., em 29.11.16

caio na falácia de achar que viver na aldeia onde nasci e cresci seria algo a pôr-me toda contentita.

descaio a cabeça ligeiramente para a esquerda, roo uma unha e ponho-me a pensar, toda tolita, que aquilo podia ser o paraíso se ligado a uma boa rede de internet e uma casa com vista para o rio.

depois a realidade atropela-me com a mesma força de um camião conduzido pelo kanye west paranóico e passa-me logo.

 

cresci rodeada de árvores no meio do nada.

para onde olhasse havia um manto verde e uma velha vestida de preto a opinar sobre a vida alheia.

a mulher era como a galinha, ao pôr do sol recolhidinha, e menstruada estava proibida de entrar no lagar, em altura de fermentação de uvas.

a violência doméstica imperava pelas casas como pó dos pinheiros.

vagueava-se livre na ida para a escola e encontravam-se colegas que andavam com piolhos no cabelo até ao ensino secundário.

falar da família do outro era passatempo nacional e na missa apontava-se, com sabedoria, fatos menos adequados. comentava-se, como quem comenta jogos de futebol, quem ganharia na rixa entre os grupos da terra e sabia-se de antemão quantos filhos tinha o padre que, no seu poderio provinciano, se recusava a crismar gente sem modos.

uma grandessíssima bosta.

mas sobretudo, o que me transformou numa adulta incapaz de lidar com a ansiedade normal dos dias, num temor do incerto, foi o crescer no meio da total incapacidade de olhar com perspectiva.

o mundo era traçado numa linha e cada desvio, por mais pequeno que fosse era maior do que uma guerra de proporções nucleares. tudo tinha o seu rumo e cada escorregadela era mais do que uma desgraça: ultrapassava mil refugiados mortos no mediterrâneo ou cinco mil criancinhas em agonias de fome. 

cada imprevisto, cada pequena coisa que não se podia ver (e tanta coisa era não era visível na asfixia das árvores de uma serra fechada) assoberbava os minúsculos mundos da vida onde a minha se inseria. 

sou uma pessoa tendencialmente difícil. o meu feitio assemelha-se a um dia nebuloso com pequenos raios de sol tendo em vista tempestades de trovoada. mas garanto, com a sinceridade com que me garanto coisas (não me minto na assumpção do que sou) que a ansiedade que não soube lidar foi-me inculcada na claustrofobia de uma vida fechada.

não. nunca seria lá feliz.

e é uma pena. 

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oh vai ver ali:

publicado às 09:30


2 comentários

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De Gaffe a 29.11.2016 às 09:38

Mas descreves o que ainda hoje é uma verdade, no Douro profundo.
O que em ti cresceu de modo assombroso foi a capacidade de tomares consciência das diferentes perspectivas.
É também essa característica que me fascina.
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De M.J. a 29.11.2016 às 09:39

cresci a lidar com a vida como quem lida com pedras.
atiraram-me com ela, como diz o outro.
ter noção do mais para além disso foi a única maneira de sobreviver

(gosto de ti).

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