Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




autocrítica

por M.J., em 09.10.17

em certos dias cultivo uma certa animosidade com o mundo em geral.

praguejo entre dentes, em silvos que só eu ouço e que me fazem mexer os lábios como alguém a ajeitar uma placa contra as gengivas. não é agradável porque a batalha mental que estabeleço entre mim e comigo pode ser um pouco exaustiva e para cansaço já bem basta o que basta.

uma consumição.

 

os ódios de estimação podem ser muitos e variados e acabam, na maior parte das vezes, a bater no alvo comum do eu e comigo que é a própria pessoa que alberga essa dualidade: eu própria.

é interessante, em boa verdade, porque há sempre uma série de defeitos que me consigo apontar -  quase listar, se quiser - na minha agenda parola e remoer até à exaustão.

não é algo que possa controlar.

faz parte de mim como uma das minhas pernas grossas ou a dor da omoplata direita que me está a obrigar a novas sessões de fisioterapia e provoca noites horríveis às voltas no colchão.

está um dia lindo, penso, mas estaria melhor se chovesse.

e logo a minha mente, às turras com ela própria, a lembrar-me que sim, com chuva posso ser mais preguiçosa, sair menos de casa,  dispensar qualquer exercício físico e engordar até não passar em nenhuma das portas ou janelas da casa, acabando transportada por uma grua, em cima de um contentor industrial de transporte de animais mortos.

 

às vezes, os ódios de estimação passam de mim e do comigo para o mundo que me rodeia.

é fácil. mesmo que a minha autocrítica seja do tamanho de uma catedral, futebolística ou não, é muito fácil ver nos outros as características que odeio. ainda que, conclua muito sinceramente, essa fase já tenha passado há algum tempo. 

é sério.

deixei de ter grandes ódios de estimação que não passem pela minha pessoa.

custa-me até a acreditar que houve tempos em que me irritava pelo comportamento, opiniões e considerações alheias, numa consumição sem dó, toda chateada e apezinhada, os nervitos à flor da pele, as argumentações estendidas como manifestos, na certeza de que o maior parte do mundo era ridícula. é fácil cairmos nessa falácia quando nos esquecemos que olhamos para o resto do mundo com as nossas próprias vistinhas e que, na maior parte das vezes, atribuímos ao mundo as características que são nossas porque é através delas que olhamos. 

faz sentido, não faz?

não entendo mesmo. às vezes olho para este blogue, por exemplo, para a imensidão de horas que aqui passei, e não entendo como me irritei com tão pouco, escrevi certas coisas ou dei importância a comportamentos, palavras e comentários, como se a vida se resumisse a uma série de letritas escritas num ecrã, com muitos erros na maior parte das vezes e a opinião de quem nunca vi fosse mais importante do que o mundo que me envolve aqui fora. 

 

talvez seja este o amadurecimento de que as pessoas falam.

não sei.

não vejo grande evolução se as minhas inabilitações sociais, as minhas incapacidades de lidar com a vida e os outros se centram em mim e, por consequência, encontro em cada dia um defeitozito ranhoso - e manhoso - nas minha pessoa.

torna-se mais difícil a convivência com o que sou, as discussões mentais aumentam e, às vezes, desconheço completamente os pensamentos que me formam.

se somos feitos de nós e se o nós é feito do que pensamos e vivenciamos, perco-me na procura de mim. 

e nesse intervalo, quando olho ao espelho, tenho sempre grande vontade de me dizer adeus.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:50


4 comentários

Sem imagem de perfil

De Silent Man a 09.10.2017 às 12:49

Como disse a Cristina no único comentário que tenho visível... É uma luta do caraças. Concordo em absoluto com isso.

Consomem-me, por vezes, certas e determinadas lutas que tenho comigo mesmo para não largar meia dúzia de berros e mandar tudo à fava. É preciso uma certa dose de auto-controlo por vezes, naqueles dias em que tudo corre mal, seja em casa ou no trabalho, seja com o nosso trabalho ou com o dos outros que nos afecta directa ou indirectamente. Quando até uma mosca a esvoaçar nos parece um problema insolúvel.

Nessas alturas, saio durante o tempo que for preciso, vou fumar um cigarro porque tenho esse único vício, maldigo a minha vida, vou jogar um bocado ao único jogo que tenho no telemóvel e que me consome algum do tempo que estou sozinho e sem nada para fazer e, se a coisa correr mal, largar dois palavrões cabeludos, para espantar o "azar". Se correr bem, fico mais bem disposto e avanço para o trabalho novamente, com o sentimento de culpa de quem perdeu tempo a jogar quando devíamos estar a produzir algo de útil.

Se passado meia hora, o cérebro estiver em nó novamente, repito o processo. As vezes que forem precisas.

Se conseguires adequar este processo ao teu dilema, força!

Comentar post



foto do autor