Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




banalidades

por M.J., em 22.09.16

bebi o primeiro chá da época ainda era verão. o dia esteve cinzentão e as sardinheiras deixaram cair as flores, num nevão rosa, que se estendeu no chão da varanda.

deixei-me inundar, no som do nada que vinha da rua, por uma sensação obtusa de vazio. depois de almoço, tarde e a más horas na folga semanal, fiquei na varanda, olhos pedinchões de dor, a olhar em frente. aos meus pés um rio colorido de flores secas, caídas ao cinzento do dia. nos cedros uma rola subia e descia, pequenos galhos no bico, numa casa em construção.

não sei que sorte é a minha que me dá mãos estendidas mesmo quando só as quero cortar.

o som das rolas corria no ar, quebrava fronteiras, comia as flores mortas na varanda. sentei-me na cadeira pensando na certeza do nada que tenho e sou.

haviam e-mails e mãos estendidas.

pus água na cafeiteira, em cima do fogão, e vi ferver. as pequenas bolhas confundiam-se com pensamentos de nada, em fumo de vapor de água pela cozinha.

na rua a rola fazia uma casa. 

escolhi uma das chávenas mais grossas, de um azulado feio e verti-lhe água a ferver. não havia sol. ou som da rua. um dos saquinhos de infusão, oferecido por alguém no livro secreto, foi mergulhado lentamente deixando espalhar um cheiro a casa.

em frente à varanda, num cedros mortos, um pássaro construia uma casa.

o meu chá lembrou-me que estava na minha.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

publicado às 12:40



foto do autor