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banalidades

por M.J., em 17.10.16

fiz chá de maçã,

diga infusão menina, o que fez foi infusão,

e parei o resto da tarde ainda que hajam tantas coisitas espalhadas pela vida para adiantar, incluindo trabalho que se entulha a um canto, na esperança de ser cumprido.

questiono, enquanto beberico chá, as mudanças que vou passando ao longo do trajecto da vida e constato, tristemente, numa fatalidade inquieta, que sabia muito mais de mim há dez anos atrás do que sei hoje. que a vida se me apresentava numa recta fixa, da qual não me desviava na procura do que queria ser. que tinha plena certeza de quem seria, para onde iria e o que alcançaria. aos dezoito anos eu era uma rocha acerca de mim própria, tendo descoberto já tudo o que me construía. aos dezoito anos eu sabia o branco e o preto na perfeita distinção de cada cor. não via as nuances do cinzento. olhava azul e via azul não me questionando acerca do azul-bebé, azul cobalto, azul celeste, azul marinho ou turquesa. azul era azul e pensar em mais do que isso era perda de tempo. 

aos dezoito anos eu era senhora de mim: dez anos depois não sei nada.

constato que cada dia que passa me consome em mais dúvidas. que cada hora, cada minuto me empurram para a incerteza de quem sou ou o que quero fazer. deixo de acreditar no que acreditava e ponho cada coisita em causa, mesmo quando há dez anos eram certas e alinhadas.

talvez tenha passado fases de desenvolvimento de personalidade. talvez tenha saltado degraus, dois a dois, achando-me no topo da escadaria quando estava, numa espécie de labirinto de mau gosto, ainda no início. o que sei, mesmo sem saber ao todo, é que não sei uma unha de um dedo mindinho a pessoa que sou. descubro que o que achava seguro há uns anos hoje é totalmente posto em causa. que esta capacidade de me moldar e estar disposta a mudar de opinião se transforma na minha própria pessoa e quando dou conta esta pessoa é um misto de pedaços de si mesma. 

talvez seja uma crise de meia idade e eu morra aos sessenta.

talvez faça só parte da minha incapacidade de ser, integralmente, em cada minuto apenas sendo. 

só sei que mata aos pouquitos cada rumo de cada decisão tomada.

e quem somos nós se pomos constantemente em causa cada escolha?

 

o que interessa é que fiz chá de maçã e...

diga infusão menina, o que fez foi infusão,

já nem sei o que é chá ou não. 

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oh vai ver ali:

publicado às 14:50


4 comentários

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De Milheiras a 17.10.2016 às 22:11

Tenho a sensação que quanto mas avanço na vida, menos certezas tenho.
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De M.J. a 18.10.2016 às 14:16

fará parte de todos ou só de alguns?
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De Okaede a 17.10.2016 às 22:57

Não venho aqui para a tua tasca (que anda a salvar aqui o meu psicológico nos últimos dias) dizer que estas banalidades "são tão eu" e que parece que escreveste o texto para mim. Contudo, parece que estou no mesmo barco: e até das pequenas coisas já me calo, que a ignorância é tanta que já nem sei se é chá ou infusão de maçã. No mesmo barco que ruma para um turbilhão semelhante

Se conseguires virar resolvida da vida como aquelas figuras seguras e extraordinárias ( figuras quase ficcionais, mas parece que existem - e pronto dão me inveja de merda) faz um post para ver se o vendes como produto do dia, aqui na tasca.
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De M.J. a 18.10.2016 às 14:17

tendo em conta o rumo de vida não creio que tal aconteça.

mas é bom sentir companhia: aquece mais do que chá (ou infusão, sei lá) de maçã.

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