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banalidades

por M.J., em 10.11.16

na serra os dias estão mais frios.

há um vento gelado que nos lambe o pescoço, a lembrar da necessidade de lareira acesa e brasas a queimar, uma pessoa a rodar perante a fogueira, agora aquece uma perna, agora aquece outra, o vento gélido nas janelas da rua, os gatos a fugir para dentro de casa ainda que o seu lugar natural seja o quintal, gordos de medo,

oh isso é agora, deixe que fiquem tolos, que vais ver como se transformam em tísicos,

o frio a corroer a alma. 

o sol é tão pálido que às vezes se confunde com mera luz. bate na água do rio, ao fundo, e transforma o ar em incontáveis diamantes brutos, numa espécie de candeeiro a velas reluzindo o ouro. no quintal a mamã tem crisântemos, ainda vivos apesar do época passada,

para dia um de novembro, onde já se viu dia dos finados sem crisântemos?

de um branco pálido, a lembrar a luz do sol.

no cemitério há um choro em lamento que percorre as campas.

abrem a urna com cuidados, lá dentro está alguém ainda que não esteja e o lamento aumenta de tom, numa dor contida de quem não sabe lidar com o fim, ali dentro está alguém no transporte para a ausência.

os crisântemos morrem nas campas e há lágrimas escorridas em lamentos pela cara. o fim. ali despojado de esperança, na certeza eterna da espera. o fim e o vento gélido a lamber-nos o pescoço. tremem as mãos e os lábios, morrem as lágrimas em gelo na face.

o homem fecha a urna. há ramos de flores garridas espalhados pelo chão. um outro abraça as flores e murmura adeus, num esgar de sofrimento que lhe congela a voz,

adeus.

morrem os crisântemos no quintal. morreram para sempre os brincos de princesa.

não há princesas na morte.

só fantasmas.

 

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oh vai ver ali:

publicado às 10:48