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banalidades

por M.J., em 19.01.17

tenho-me sentido deprimida nos últimos dias.

não há grande motivo ou validação para este estado de espírito: está sol, a vida avança, os projectos concretizam-se. deixei de estar numa encruzilhada e não me sinto perdida como outrora. não tenho problemas financeiros de maior (vá, não posso viajar até ao méxico numa escapadinha de dois dias, como quem vai à figueira ver as gaivotas, mas creio que a maioria dos portugueses também não) e deixou de haver uma pressão infinda sobre os meus ombros ou a vontade de que o tecto me caísse na cama, comigo lá dentro, para não ter de sair de manhã.

 

é por isso que constato, tristemente, que esta depressão que me anima os dias é já feitio. mesmo que a sinta, realmente, e me doam as horas e o tempo e haja uma consumição interior e um tédio a correr as unhas, apesar disso tudo sei - racionalmente - que faz parte de mim.

há quem tenha olhos azuis, quem seja uma maria vai com as outras, quem consiga pôr uma sala a rir mesmo sem conhecer ninguém. eu sou a miúda de sobrolho carregado, ao canto, com uma máscara de nariz empinado e uma ruga na testa, a quem a vida vai dando benesses - por as procurar, bem entendido - mas que as não sabe aproveitar integralmente. 

uma consumição. 

 

hoje é um desses dias.

na possibilidade de trabalhar em casa - interessam resultados, não presenças, algo que me fascina neste projecto - escorreguei por entre as mantas depois das nove, carregando a sensação de que a vida são pedras de gelo coladas aos meus ossos.

na rua um silêncio agreste entrou-me janela dentro com os raios de sol. comi torradas e bebi chá, usando a chávena para aquecer as mãos. doía-me a alma e não sabia porquê. nunca sei, a não ser que é feitio. 

 

há quem diga que são hormonas. 

 

trabalho de pantufas e uma manta nas pernas. corre a manhã pelas janelas e os raios de sol vão mudando de lugar. estou sozinha. não troco graças, piadas ou sorrisos. não partilho uma chávena de café, não ouço porcelanas numa pastelaria quente nem vejo a senhora a alimentar os gatos. 

 

às vezes creio que este feitio que me amolece os dias, esta dor corriqueira que me rói a alma é fruto da minha inabilidade social. 

a chávena de chá queima-me as mãos. 

e para o lanche vou fazer café de cevada acompanhado de pão velho com manteiga: recorda-me da dureza de onde venho e do quanto escalei para aqui chegar.

por que raio, então, não me dou por satisfeita?

 

por que raio têm as pessoas olhos verdes?

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oh vai ver ali:

publicado às 11:50


23 comentários

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De Rui Pereira a 19.01.2017 às 12:01

Banalidades?
Belo texto!
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De M.J. a 19.01.2017 às 12:17

são sempre banalidades, estas coisitas de alma que aqui partilho.
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De Cá coisas minhas a 19.01.2017 às 12:44

Sim, estados de alma, sem sombra de dúvida.
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De M.J. a 19.01.2017 às 14:16

ou de feitio.
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De Quarentona a 19.01.2017 às 13:16

São feitios. Já eu pareço que vejo tudo cor de rosa e azul celeste, mas é puro engano, minha cara ;)))
(Quando voltamos a lanchar?)
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De M.J. a 19.01.2017 às 14:18

(parece nada. só à primeira vista e apenas para quem estiver meio distraido).

quando quiseres.
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De Olívia a 19.01.2017 às 13:21

Algumas pessoas destes estados de alma.
É crónico.
Uns dias uma pessoa sente-se melhor quase que se esquece... outros dias a coisa piora.
Acho que é preciso aprender a conviver com este "bichinho" tendo o cuidado de não o alimentar demasiado...
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De M.J. a 19.01.2017 às 14:19

é realmente crónico. uma bosta.
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De Olívia a 19.01.2017 às 14:36

das grandes.
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De Cristina a 19.01.2017 às 14:11

sai. vai beber um café e dizer "boa tarde" a alguém. respira o frio. até já.
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De M.J. a 19.01.2017 às 14:20

já fiz.
ajudou.
este comentário também.
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De Cristina a 19.01.2017 às 14:26

good!
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De Fleuma a 19.01.2017 às 16:28

Eu tenho olhos verdes ... não sei porquê.

Não deveriam ser banalidades. Antes estados de alma. Humana. Demasiado humana.


Saúde,
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De M.J. a 19.01.2017 às 17:23

(tenho a fraqueza de demonstrar mais do que devia o que sinto :) )

tinha um velho amigo de olhos verdes. sinto sempre inúmeras saudades quando penso em olhos tão particulares.
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De Fleuma a 19.01.2017 às 18:38

Fraqueza? Não.

Esse demonstrar, mesmo que muitos considerem ser fraqueza, é uma maneira de existir sem morrer envenenado.

É franqueza. Não fraqueza. E não mude isso. Observe como morrem envenenadas as pessoas que não são francas e acham isso uma fraqueza.

Saúde,
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De Maria das Palavras a 19.01.2017 às 16:40

A miúda de sobrolho carregado que escreve estas delícias para nós lermos. M.J. das Palavras, porra.

(os olhos verdes são deficiência, falta de pigmentação naturalmente) :D
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De M.J. a 19.01.2017 às 17:24

ahahahahahahahaha

(os meus dias são tão mais fáceis contigo - convosco :) )
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De Sarah a 19.01.2017 às 17:25

Não é defeito, é feitio.
Quando o ser-se feliz incomoda mais do que o soturno quentinho das mantas que pomos em cima da cabeça, não há sol ou mares de água quente que levem as mantas embora.
E escreve-se tão bem nos dias tristes.

E os dos olhos verdes são uns incabados de formar nas barrigas de suas mães.
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De Fátima Bento a 19.01.2017 às 23:22

Mj, vai ao meu blogue. Clica na foto.Lê depois o meu post.

NÂO VÀS SE ÉS pró TRUP.

(juro; tou p'a morrer)
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De Cristina a 20.01.2017 às 09:43

credo! o homem vai tomar posse anyway; a menos que lhe cravem uma bala no meio da testa nas próximas horas.
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De Fátima Bento a 20.01.2017 às 11:24

...e até isso teria consequências devastadoras para a economia mundial.
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De Cristina a 20.01.2017 às 15:31

não sou eu quem precisa de evangelização; são os imbecis que elegeram esse mentecapto. ou vice-versa, no que aos qualificativos diz respeito.
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De Narciso Santos a 20.01.2017 às 14:16

Porque é que quando estamos mais para o "deprée" é quando a escrita fluiu da melhor forma possível. Ou quando estamos com os copos...

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