Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




banalidades

por M.J., em 09.02.17

ontem fiquei a trabalhar em casa.

não foi por causa de uma qualquer crise doméstica ou afazeres familiares:

quando acordei de manhã sentia uma tal dor, um tal ferro em brasa na alma, uma tamanha tristeza que me deixei ficar. e na verdade, consigo trabalhar o dobro em casa, mesmo com ferros em brasa, pausas na varanda ou caminhadas pela rua, numa tentativa de afastar nuvens de melancolia.

faz parte de mim.

 

 

sair logo de manhã, com a necessidade de escolher roupa, pôr a cara minimamente apresentável, optar entre sapatos, ténis ou botas, comer apressadamente na corrida até ao carro, falar com pessoas, rir para pessoas, ser sociável para as pessoas faz com que tudo se emaranhe numa espécie de descontrolo e quando dou conta entrei num remoinho qualquer de desespero cego: 

é (sei-o agora) um gatilho certo para uma crise incapacitante da qual não saio sem algum sofrimento antes.

anos depois percebo finalmente o que me pode provocar dor, mesmo que aos outros seja imperceptível. o que me pode fazer entrar num caminho rápido de comportamentos auto-destrutivos. o que me pode levar para um poço de apatia, que atrasa horas e dias, tarefas e vida.

 

sabendo isso é muito mais fácil contornar caminho, dar a volta ao que poderia chegar e seguir pouco beliscada.

 

hoje, quando cheguei, dei de caras com o casal estranho que tem rondado o edifício:

ele trazia-a pela mão. ela sorria com os dentes todos que não tinha. despediram-se com um beijo. ela subiu para um dos andares da formação, ele ficou na recepção, sentado num sofá, à espera. 

de todo o tempo que tem, de todas as coisas que nele poderia fazer, de todas as possibilidades onde entreter a vida opta por ficar ali, sentado num dos sofás, palito ao canto da boca, à espera, num sentimento de posse animalesco, sorrindo a quem passa com os dentes que ainda tem. 

 

quando me sentei e me servi de uma chávena de chá, constatei tristemente, que entre ele e eu não há grande diferença.

ambos passamos as horas, sentados na vida, à espera.

ele da mulher que sente ser sua propriedade, para a poder moldar à sua medida. 

eu das dores que são minhas, para as poder contornar, à medida do que consigo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

oh vai ver ali:

publicado às 11:30


2 comentários

Imagem de perfil

De C.S. a 09.02.2017 às 11:49

Esse tipo é grotesco.
Tu já conseguiste arranjar mecanismos para te defender. Beijocas
Imagem de perfil

De M.J. a 09.02.2017 às 12:24

grotesco é apelido.
chega a meter-me medo, de tão sinistro.

Comentar post



foto do autor