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banalidades

por M.J., em 08.05.17

pego na minha tendência auto destrutiva - numa obsessão sem paralelo quando decide que aquele é o caminho - e tento-a meter nos eixos.

que o segredo está aí:

reverter o sintoma visto que a causa permanecerá para sempre inalterada, a olhar-me do alto do ombro com um sorriso esbanjador de quem sabe o que a casa gasta.

 

pego em todas as pequenitas coisas que formam um furacão de estragos no meu corpo, tudo junto, muito cerrado a lembrar-me que se não descarto uma perna ou um braço também não descarto aquela parte do cérebro (diz que é lá, nem sei) que manda pegar no que pego para me colocar onde coloco e listo obsessivamente, como dar a volta.

os traços obsessivos estão cá. há uma tendência quase sempre certeira de fazer o que quero colocando um ligeiro check ao longo do caminho. de pegar na situação que sei que me incomoda e levá-la à frente dos ombros, carregando-a em braços se preciso for, com uma força que me desconheço - e acho que nem é minha - até atingir o ponto em que a derrubei, contornei, evitei, fugi.

mesmo que depois, longe dela, perceba que não tinha a dimensão trágica do que me parecera o fim.

o tudo ou nada, não há o filho da mãe de um meio termo. 

 

pego na tendência aditiva que me causa a obsessão de prosseguir, sem controlo, e faço por recolocá-la no outro lado. com a mesma motivação. a mesma e exacta dose de perseguição. e depois faço um check mental a caneta, num traço muito certo e fino.

 

estou obcecada com a ideia de envelhecimento.

olho-me no espelho e não é a imagem reflectida que me assusta, as rugas mais ou menos, as brancas maiores ou menores. é antes a certeza de que o conhecimento sobre quem sou chega-me na medida do passar dos anos e os anos passam depressa demais e ao mesmo tempo num ritmo incrivelmente diminuto. quem sou e o que vejo e onde estou e o que apreendo da vida e onde vou chegando e vendo e quem vou tendo e assumindo são agora apreendidos e sentidos de uma forma abismalmente diferente do que era aos vinte e aos vinte e cinco anos.

e este conhecimento de mim assusta-me na dimensão de que me apresento todos os dias como uma desconhecida, numa transformação tão clara e incontrolável que me olho, do outro lado do espelho, como uma estranha a quem conheço melhor do que algum dia. 

deixei de comprar guerras ainda que despreze com mais intensidade do que outrora. 

deixei de julgar à primeira, sem a tentativa da compreensão do outro, ainda que o julgamento depois seja mais intenso, por deliberado. 

deixei de sentir a necessidade de aprovação ainda que a perceba como fazendo parte de mim.

e deixei de assumir a necessidade de lutar contra a causa do que me dói - eu própria - para combater e reverter os sintomas do que me provoco, em dias que não controlo. 

 

e nunca este blog foi menos um blog do que é agora.

transformo-o, aos poucos, num diário cifrado, compreendendo a cada dia a necessidade de dizer tudo sem nada dizer. 

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publicado às 15:10


3 comentários

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De Gaffe a 08.05.2017 às 16:00

Embora sinta o teu distanciamento, a tua imersão na lonjura que de mim se vai fazendo estrada, continuo a entender-te e a sentir-te, embora este entendimento fique cada vez mais triste e desolado.

Não penso que fales no envelhecer. Acredito que te refiras ao amadurecer que, ao contrário do que dizem, é crescer na dúvida, na hesitação, no desconhecimento e na incerteza. Apenas as crianças e os eternos adolescentes acreditam de forma sólida e inabalável. Os que amadurecem, ficam ténues a balançar no abismo.
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De M.J. a 08.05.2017 às 16:05

e queria tudo menos esse distanciamento, de que não preciso.
preciso de ti, não da estrada entre ambas.
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De Sandra Wink.Wink a 08.05.2017 às 18:56

MJ este texto diz tanto! Gostei. é um blog na mesma, e ainda mais rico.

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