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banalidades

por M.J., em 26.05.17

está cinzento e fresco, o que é um alívio nos últimos dias de deserto sufocante. 

abri as janelas todas pela manhã enquanto via a neblina nos cedros. um dos vizinhos da rua passeava o cão castanho que farejava a vida numa excitação contagiante. arrumei a cadeira na varanda onde jantei ontem, sozinha, a ver a mundo que adormecia. às vezes pergunto se é real esta paz, esta serenidade, ou se tudo cairá na brisa mais forte, como o cheiro de um perfume num frasco mal fechado.

 

tomei café e um pão escuro com manteiga.

escolhi um livro ao acaso e li o fim depois do primeiro capítulo, na excitação de perceber se vale a pena e se o posso correr em segurança. não posso controlar todos os imprevistos da vida, mas estes consigo.

 

percorro a lista de coisas a fazer escrita à mão numa letra escangalhada e torta.

quando era criança olhava com descrença a letra do meu pai, apertada e feia e achava que não escreveria assim, nas minhas lides de adulta. foi uma promessa que cumpri porque escrevo pior, uns gatafunhos imprevisíveis, letras que não são letras, desenhadas num turbilhão de quem não tem paciência para moldar cada palavra até ao fim, rabiscando aqui e ali na espera de ser legível. nem sempre é.

 

o problema de sentir esta paz, este conforto nos dias que passam, os cafés na varanda, o trabalho que se faz para mim no ritmo necessário, a ausência da interminável ansiedade que me queimava o peito em úlceras de medo, é - que há sempre um problema - a liberdades da mente para escarafunchar ao sabor de uma espécie de vento incontrolável. na dor da ansiedade, da inconstância, do medo do depois, da sensação de perda de controlo há uma incapacidade quase física de olhar muito para trás ou para a frente. lidamos com o dia na sua completude ampliada porque aquilo já nos dá muito que fazer e não há espaço para mais. agora tenho possibilidade de ir mais além. e se é esse facto que me permite - juro que sim - crescer na sensação de conhecimento próprio e do outro, também me leva por caminhos tortuosos de recordações a esquecer, pessoas que ficaram, momentos que me mataram um bocadinho e aos quais não pude fugir.

e dá-se o caso, nessas alturas, em que arrumar uma cadeira de braços numa varanda deserta, de manhã, numa neblina fresca e desejada, enquanto se repara num cão a farejar a vida com excitação, se transforma numa pequenita experiência de retorno, num voltar a algo que se deixou para trás mas que agora aparece, saltitante e contente a mostrar que enquanto estiver dentro de mim, na recordação do que foi, continua.

 

é por isso que as pessoas também têm filhos, não é?

permanecem neles - numa imortalidade rebuscada - tanto quanto eles permanecerem também. 

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oh vai ver ali:

publicado às 11:00


2 comentários

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De Fleuma a 26.05.2017 às 15:40

É uma obra de arte saber dialogar com os dias e emoções desta maneira, M.J. Transformar o que é simples e aparentemente despercebido em catarse.

E principalmente, permitir por esta escrita que outros também consigam viver o momento. É raro e tão valioso.

Sinceramente, apenas me incomoda a palavra banalidades. Não poderia estar mais em desacordo.

Saúde,
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De Sandra Wink.Wink a 26.05.2017 às 18:20

O meu marido costuma dizer que não sei ser feliz e eu revejo-me muito nesta tua frase:
"...é - que há sempre um problema - a liberdades da mente para escarafunchar ao sabor de uma espécie de vento incontrolável...."
Gostei do texto, beijinhos.

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