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banalidades

por M.J., em 20.07.17

a verdade é que, analisando bem a coisa, é tudo uma questão de perspectiva. 

todas as vezes que passo pelo corredor e me olho no espelho de parede, e vejo como a minha expressão se altera nos dias, ora num mutismo cego, sem nexo, ora numa sensação de leveza e conquista, e analiso as horas e percebo que as as diferenças radicais são meramente emocionais, pedaços de nada, sem nada de importante a não ser  a minha mentalidade, sei que é tudo perspectiva.

sou eu dona de quem sou e não comando minimamente como me sinto.

a mesma chávena de café consegue ter um sabor amargo hoje e doce ontem.

a mesma brisa fresca nos lençóis a secar na varanda é percepcionada de duas formas diferentes e isso é ridículo.

devia sentir em função das vivencias e não vivenciar em função do sentir.

acho eu, mas eu não sei nada.

 

para a merda tudo isto, desabafo, atirando o teclado contra o monitor.

há mil coisinhas a fazer, tanta coisa a aligeirar e deixo morrer os dias no que sinto sem motivo.

observo a rua quando abro a janela do escritório: está fresco, os cedros dançam nos mesmos movimentos desde que cá cheguei vai fazer dois anos, e a manhã morre mansa.

o grande problema, constato, enquanto trinco a borda da chávena de café meio bebido, é que deduzi que estes cedros, aqui em frente, seriam passageiros, uma mera temporada rápida num intervalo da vida de dois anos, não mais.

e é esse o mal das expectativas.

acreditamos em coisas que sabemos, no fundo, serem só mais ou menos mas, ao mesmo tempo, vamos moldando a vida ao que acreditamos. era só passageiro. só um intervalo antes do regresso a casa. estes cedros, esta rua, a senhora maluca dos cães que lhes grita todas as manhãs, as flores roxas do jardim, as ervas daninhas atrás da garagem, as varandas com vista para o nada porque nunca quis que fosse tudo, tudo isso seria passageiro. não interessava dar-lhe grande valor. não interessava pôr fotografias nas paredes, mudar os sofás ou comprar mais plantas. não interessava organizar os livros, alterar tapetes ou pensar noutros candeeiros.

era só passageiro.

era só mais uns dias antes da brisa do mar na face, da casa no bairro do estudantes, no jardim enorme com um banco que era meu, na vizinha da mercearia, ou na árvore que entrava toda sala dentro. 

 

era só passageiro e essa passagem chegaria agora ao fim.

e apesar de não ser promessa ou certo, era certo e promessa nas minhas expectativas.

esta cidade onde vivo hoje não é minha. esta casa não é a minha casa e não há pessoas que me sejam pessoas porque nunca quis que fossem. perdi laços de onde vim e não criei novos onde estou. deixei a sensação de casa perdida e não a encontrei aqui porque era só passageiro.

sou mais pequenina do que sempre fiz crer.

crio amarras e raízes que se entranham na terra e não consigo desligar-me. lá foi o único sítio onde me senti em casa. e essa sensação, talvez exacerbada ao limite, faz-me acreditar que não o sentirei em mais lado nenhum.

nem lá, outra vez, porque já lá não há quem eu era.

 

viver é uma canseira e começo mesmo, mesmo, mesmo a ficar farta disto.  

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oh vai ver ali:

publicado às 10:52


3 comentários

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De Joana B. a 20.07.2017 às 16:56

um beijinho M.J.

a vida é uma canseira é verdade, ultimamente tenho tantas coisas para fazer e chego ao fim do dia e ainda há tantas coisas pendentes que ficam para o dia seguinte. Ando cansada mas uma das coisas que resulta comigo é ir para o ginásio, enquanto estou lá não penso em mais nada e quando acabo saio com a cabeça mais leve e a mente mais descansada. Tens ido ao ginásio?

Se precisares de falar podes sempre mandar-me uma mensagem
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De David Marinho a 22.07.2017 às 12:28

Perdermos a identidade das coisas é muito complicado, i know. E não sentirmos o conforto em nada na nossa vida é meio caminho andado para entrarmos numa espécie de depressão. Olha, vai escrevendo que ao menos escreves bem e sempre desabafas.
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De Cristina (Maria) a 22.07.2017 às 19:58

olha... isto é que é uma intervenção prática e direta!

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