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banalidades

por M.J., em 24.07.17

tive uma crise de choro, um dia destes, enquanto ouvia uma música aleatória das centenas de bandas sonoras que passam pelas colunas, todos os dias, enquanto matraqueio as teclas.

foi assim num rompante.

estava tudo normal, um dia claro, o som tranquilizante dos vizinhos ao lado, a correria de um dos cães na rua em baixo, a janela aberta com duas folhas de orquídea a entrar junto à parede e, quando dei conta, estava a chorar descontroladamente, um rio de lágrimas em marcha até ao chão.

uma dor cega.

um baque surdo.

um desespero sentido. 

 

fiquei prostrada, a cabeça em cima dos braços, o teclado atirado para um canto. não havia nada: nem sol, nem luz, nem continuidade, nem esperança, nem eu ou alguém. só um sentimento atroz de escuridão que me podia consumir.

sentia, naquele instante, que podia ser engolida e desaparecer num fundo negro de escuridão, ali, a música, o cão, os vizinhos, a orquídea e a janela.

 

lembrei-me nessa altura da minha prima porque me lembro das pessoas também em função das épocas em que vivemos.

no verão era assim: eu saía de casa antes das seis (ou seria sete?), subia a rua, entrava pelo portão, subia as escadas e chamava por ela na porta da cozinha. mais velha do que eu três anos ela era - e é - dotada de uma vivacidade que eu nunca tive e uma força de três furacões enraivecidos. qualquer obstáculo era contornado com a ligeireza de quem encontra justificações para o que acontece sem questionar.

ela andava por ali. regava plantas, limpava a casa de uma ponta à outra, combinava saídas, fazia bolos e tinha planos. a energia dela transbordava em cada poro e eu sentia-me sempre pequenital, assoberbada pela gigantesca capacidade dela de ser. 

no quarto dela havia um televisão e dezenas de posters colados nas paredes - a mamã fizera-me arrancar o único que me arriscara a pôr no meu quarto - que vinham nas revistas compradas por duzentos e tal escudos: dos excesso, dos anjos e de bandas do outro lado do mundo que nós cantarolávamos num linguarejar estranho de quem não domina o inglês. nós deitávamo-nos sobre a cama e víamos a novela. não eram os morangos, coisa mais recente ainda que antiga, mas uma brasileira, onde as miúdas eram magras e sofriam de anorexia por serem apelidadas de gordas, andavam numa escola com piscina, tomavam pequenos almoços gigantes e iam a centros comerciais onde eu, com 13 ou 14 anos nunca entrara.

era sempre uma maneira muito boa de acabar as tardes. 

 

lembrei-me da minha prima e das novelas e dos fins de tarde de verão a ver novelas que entretinham a alma e o tempo no meio daquele desespero cego. lembrei-me dela e telefonei-lhe, a sensação de absoluta solidão pelo corpo, o choro compulsivo apenas amainado para que não notasse. 

falou-me dela.

como sempre fazia. contou coisas, momentos, planos e anseios. num relato comprido que me enxugou as lágrimas, me acalmou as dores, me alisou a solidão que sinto colada aos ossos e a perda que não existe mas que parece ser a única coisa de que sou feita. 

 

esta tarde, quando falei com a minha prima, perguntas curtas da minha parte na tentativa gloriosa de a ouvir falar, minutos completos, seguidos, planos e momentos, tive 13 anos outra vez e fui acalmada dos meus anseios pela força com que ela comanda a vida ainda que, em segredo, eu saiba que é a vida que comanda a ela.

 

na maior parte das vezes não preciso de nenhuma palavra de consolo dirigida a quem sou.

preciso apenas de olhar e ouvir o outro, perdendo-me por instantes da minha patética maneira de sentir. 

sou tão ridicula. 

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oh vai ver ali:

publicado às 18:36


13 comentários

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De Quarentona a 24.07.2017 às 18:48

Estas tuas "banalidades" e a forma crua como as expões despertam em mim uma vontade imensa de te abraçar... é estranho, uma vez que não somos minimamente íntimas, mas é aquilo que genuinamente me fazes sentir...
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De M.J. a 24.07.2017 às 19:09

podemos marcar um café para me dares um desses abraços.
estou genuinamente a precisar.
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De Sandra Wink.Wink a 24.07.2017 às 18:58

Fico com o coração apertado quando leio estes teus textos.
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De M.J. a 25.07.2017 às 15:49

:)
não é preciso. passa.
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De Cristina (Maria) a 24.07.2017 às 20:46

é bom teres a quem telefonar. é muito bom teres vontade de telefonar. é ótimo que haja vozes que te apaziguam.
ridículo é outra coisa, nada nada parecida com o tu que escreves.

:-)
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De M.J. a 25.07.2017 às 15:49

cristina maria é bom sim. mesmo que telefone para ouvir falar do outro.
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De Cristina a 25.07.2017 às 17:16

exatamente. isso tira-nos um pouco de nós, descentra-nos. ☺
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De A rapariga do autocarro a 25.07.2017 às 10:22

Como eu te compreendo mulher!!!
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De M.J. a 25.07.2017 às 15:50

não costuma ser muito frequente alguém o conseguir fazer :)
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De A rapariga do autocarro a 25.07.2017 às 15:54

E esse é o grande problema com que nos deparamos!
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De Paula Vasconcelos a 25.07.2017 às 17:29

Não és nada ridícula, miúda!! (Sim, pra mim, és uma pirralha). Não, és uma maravilha de mulher, que escreve muito bem o que lhe vai na alma. E sabemos que nem sempre o que nos vai na alma são maravilhas. Viver é difícil. É um exercício por vezes cansativo, muito cansativo. Mas vai dar tudo certo, sossega. (Só queria saber escrever como tu (lindamente) - acho que já escrevi, noutros tempos, mas encontrei um estupor que me "castrou" a escrita e ainda não consegui...) Um abraço grande duma fã madeirense que ficou feliz de te encontrar e de te ler :)
P.S. Sim, tb. vai ser no facebook
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De M.J. a 26.07.2017 às 12:50

Obrigada Paula. Vá escrevendo sim? É só começar :)

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