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banalidades

por M.J., em 05.09.17

acordei enjoada tarde e más horas.

não que interesse. depois de um fim de semana - que incluiu a segunda - a dormir pouco mais de duas horas por noite, achei que podia dar uma de louca e levantar-me às nove na terça. 

agora sinto que tenho tudo atrasado.

e está.

 

na cozinha cheirava a lavado que esfreguei por montes e vales - foi nada, eram azulejos - ontem a horas indecentes.

a minha compulsão pela limpeza acalmou nas férias mas acentuou-se quando reparei, no descanso nocturno, que ia chumbar no âmbito de uma inspecção de higiene e segurança no trabalho.

e para porcaria já basta as vezes que comi fora de casa.

 

reguei as plantas que pendurámos na bancada.

são da minha obrigação, apesar de as exteriores estarem ao cuidado do rapaz. a malagueteira (existirá tal nome?) morreu (já é a segunda) e a do canto, que não sei o nome, começa a secar. creio que sou inabilitada no tratamento de outras vidas mas não desisto.

a esta, pelo menos, não posso transmitir traumas emocionais.

creio.

será que posso?

 

na rua está cinzento e tomei o pequeno almoço a olhar o mundo pela varanda.

o mesmo mundo que é do tamanho do que vejo: os cedros, a pequena rua, um ou outro carro que passa em frente. o jardim de baixo e dois gatos com coleira à procura do sol.

 

escolhi agnes obel como banda sonora do dia e abri a agenda pirosa de caneta em riste.

alinhei na minha letra escangalhada tarefinhas banais e importantes, tudo muito direito e feio ao mesmo tempo, uma caneta preta de um tom horrendo de dó, pouco conjugável com o rosa da coisinha fofinha que escolhi como lembrança dos dias:

* cinco linhas de trabalho

* ligar à empregada

* agendar a catrefada de posts que tenho numa listinha no telemóvel

* acabar a leitura perdida do livro que comecei antes das férias

* ir aos correios

* passar pela farmácia

* marcar duas consultas

* e uma quantidade de merdinhas chatas.

 

quando acabo percebo que a agenda tem, neste dia, uma frasezinha bonita para animar o dia.

pois que "os sentimentos podem escapar-te da boca mas nunca do coração" e paro e leio e percebo que se calhar aquilo serve mesmo a alguém, que o repete num mantra de sapiência e serenidade, e relembro tristemente, enquanto abro documentos, planeamento de trabalho, e-mails a enviar e objectivos mensais, que a senhora da roulote perto da rotunda, ali plantada desde que me mudei, em dias de chuva torrencial e sol ardente, barraquinha aberta, numa imensidão de certezas das coisas certas, desapareceu e só reparei ontem, quando passava, e me pareceu aquele pedaço de espaço vazio em ânsias de ausência.

e no meio daquele sítio gora de nada, que outrora me fazia parecer mais certas as coisas incertas, mais seguras as inseguranças dos dias, a ilha do costumeiro mesmo quando tudo era um pedaço de questionamento, o sorriso da mulher mesmo em frente, a rotina segura de que o mundo se mantém no mesmo lugar, desaparecido agora, lembrei-me com um baque de que nunca parei para tomar um café e comer um cachorro quente, tal como prometia todas as vezes, e eram muitas, que por ali passava.

só para dizer olá, bom dia e ouvir a voz de quem tornava, na estranhez de quem sou, os meus dias mais normais.

foi-se.

desapareceu.

e se os sentimentos podem escapar-me da boca e não do coração, escapo à minha agenda que é uma porcaria, porque em vez de me avisar, naquela letrinha amorosa, de pacatoadas adolescentes devia saber que preciso que me recorde antes das coisas realmente importantes:

"os dias certos nunca são certos".

 

 

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publicado às 12:00



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