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banalidades

por M.J., em 22.09.17

acordei cedo com o barulho de um camião mesmo na ruela em frente à casa.

orgulho-me de - no meio desta cidade onde não me encaixo - ter encontrado um apartamento num sítio onde reina a pacatez dos dias longos de aldeia, com o barulho das rolas no telhado, os cedros erguidos em frente e o latir dos cães na desconfiança de quem chega.

no entanto, andam agora a construir uma casa numa das ruelas adjacentes e, de vez em quando, somos presenteados com o barulho dos camiões, pedaços de terra amarelada caídos do transporte e um cima abaixo de carros, na novidade do que se passa.

 

desci para ir tirar o meu carro do sítio onde estava estacionado.

o homem do camião transpirava de nervoso e não conseguia passar, por mais manobras que fizesse, devido ao meu carro, apesar de nenhum de nós estar a cometer uma contra-ordenação. fui boa samaritana e mudei-o de lugar, vestida com um robe esquisito que comprei na primark para os dias frios, o cabelo esgrouviado e incontrolável todas as manhãs, e o pequeno almoço ainda por tomar.

agradeceram-me muito mas já estava acordada com o barulho infernal do motor em manobras.

 

perdi depois uma hora não sei em quê.

estava cinzento de breu. mantive-me com o robe vestido apesar de, na opinião do rapaz, me fazer parecer um rebuçado gigante tal a cor. não está frio para o manter vestido mas faz-me lembrar chás quentes, chuva miudinha, castanhas assadas e dióspiros.

é outono e no cinzento do amanhecer estava em paz.

tomei o pequeno almoço, reguei uma planta e tentei desregar quando percebi que a água se acumulava toda no fundo, tendo em conta a quantidade de terra molhada. li as notícias e vi a meteorologia: torci o nariz perante o fim de semana quente e a ausência inevitável de névoa hoje pelo meio da manhã.

não tirei a roupa do estendal, não fiz a cama, não lavei a louça do pequeno almoço nem controlei as tarefas de trabalho do dia. 

 

uma hora depois, ainda estava cinzento, a empregada chegou.

trazia a animação da rua: voz rija, gestos desembaraçados, a agitação do autocarro, do saco na mão, da conversa matinal com a vizinha de baixo e a senhora da pastelaria onde vai todas as manhãs.

pousou um saco no bengaleiro, decidida, e soltou duas ou três gargalhadas perante duas ou três piadas que disse.

ofereci-lhe um café e,  encolhida e sentada com o meu robe estranho no sofá da sala, ouvia-a falar. ela cheirava a café, a desenrasque e a decisão por contraponto à minha molenguice matinal. contou-me as novidades da semana, muito desembaraçada e deu-me o ponto de situação da vida, no que a vida nos permite compartilhar. tristezas não pagam dívidas, diz decidida, mesmo que enumere as tristezas, e as dívidas, sem vergonha.

comparado com o silêncio de missa que reina nesta casa, há hoje uma animação enérgica de roupa a ser estendida e lavada, sons de louça, aspirador e a tv da cozinha, nas notícias que nunca vejo.

 

sentei-me com os phones nos ouvidos, na tentativa de anular os ruídos da vida.

o camião voltou com uma grua que tenta desesperadamente levar para outra rua.

ouço aurora, madrugada, agnes obel, birdy e anne brun.

há uma melancolia em cada som e fico quieta em frente ao pc sem saber muito bem o que fazer mesmo que tenha, muito alinhadinha, uma lista das coisas pendentes na agenda.

 

o sol surgiu agora.

tirei o robe.

ouço o tilintar de um copo na cozinha no intervalo de uma das músicas.

 

 

acho que vou tomar (outro) café. 

e nunca mais chove. 

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publicado às 10:20



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